DUAS FACES DA PÁSCOA

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PÁSCOA: O QUE SIGNIFICA ESTE RITO?

A festa da páscoa é um memorial. Ao nascer a festa, nasce também uma pergunta: “que significa este rito?” (Ex 12,26), e esta pergunta, que é repetida no início da páscoa hebraica, exige que dela se tenha uma compreensão mais profunda.

Nas fontes cristãs também surge a pergunta: “que recordamos nesta noite?” ou também: “porque fazemos vigília nesta noite?” (Santo Agostinho). Por que estas perguntas são importantes, tanto para os judeus quanto para os cristãos? O “por que” ajuda a descobrir qual é o evento salvífico que está na origem da Páscoa.

AS DUAS FACES DA PÁSCOA DO ANTIGO TESTAMENTO

Teológica ou Teocêntrica: esta é a explicação mais antiga, onde a Páscoa recorda em primeiro lugar a “passagem de Deus”, o nome mesmo da páscoa deriva de um verbo que indica a ação de Deus que “passa sobre”, no sentido que “resguarda” e “protege” as casas dos hebreus, enquanto golpeia a dos seus inimigos (Ex 12,26-27). Comemora-se aqui a passagem salvífica de Deus: Páscoa, porque Deus passou! O protagonista é Deus, a iniciativa é divina. 

Antropológica ou Antropocêntrica: aqui a atenção se desloca do momento da imolação do cordeiro para o da saída do povo do Egito, que é vista como a passagem da escravidão para a liberdade (Dt 16). Com a mudança do evento central, muda também o protagonista ou o sujeito da Páscoa: não é mais que Deus que passa e salva, mas o homem ou o povo que passa e é salvo. 

Essas duas respostas são complementares, não exclusivas, são vistas na dependência de Deus; o Êxodo é para a aliança do Sinai. Trata-se de uma libertação religiosa, não política, ao menos de modo principal: o povo torna-se livre para servir a Deus, “deixa ir livre o meu povo para que me sirva” (Ex 4,23; 5,1)

DA PÁSCOA JUDAICA À PÁSCOA CRISTÃ

 As primeiras comunidades cristãs, depois da morte e ressurreição de Jesus, por um tempo continuaram a “subir ao templo” para celebrar a Páscoa com os outros judeus, mas, em certo momento começaram a pensar e a viver esta festa anual, não mais como recordação dos fatos do Êxodo e como a espera da vinda do Messias, mas, principalmente, como recordação daquilo que alguns anos antes tinha acontecido em Jerusalém durante uma Páscoa, e como a espera da volta de Cristo. Quando São Paulo, em 1Cor 5,7,  exorta  a “Celebrar a festa” já se refere à festa da Páscoa cristã.

Páscoa-paixão: esta compreensão pascal é cristológica, isto é, tem por protagonista não o homem e nem mais o Deus do Antigo Testamento, mas sim Jesus Cristo. É uma Páscoa “comemorativa” de todo “o mistério novo e antigo: novo na realidade, antigo na prefiguração” (Melitão de Sardes). A Páscoa comemora toda a história  da salvação, que tem como ponto culminante Jesus Cristo, e se prolonga na espera do seu retorno final. A Páscoa, neste sentido, comemora sobretudo “a grande imolação”, o fato de Jesus ter sofrido e aniquilado a morte com a vitória.

Páscoa-passagem: esta é uma compreensão moral e espiritual da Páscoa, que tem por centro o homem como sujeito e protagonista da Páscoa. A vida de todo o cristão e da Igreja é vista como Êxodo, que começa com a fé e termina com a saída deste mundo. A Páscoa verdadeira está à frente e não atrás. Esta é uma Páscoa “contínua”, em detrimento da Páscoa anual, a fortaleza desta Páscoa está não tanto nos ritos litúrgicos  ou festas externas, mas em decisões e fatos interiores e espirituais.

As duas visões apontam os dois protagonistas e os dois polos da salvação: a iniciativa de Deus e a resposta do homem, graça e liberdade. Para alguns, a Páscoa é antes de tudo um dom de Deus; para outros, é uma conquista do homem.

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SÍNTESE ENTRE PAIXÃO E PASSAGEM 

Santo Agostinho resolveu os contrastes entre as duas explicações. Ao explicar o nome da Páscoa, que traduzindo para o latim significa “passagem”, o santo disse: no dia antes da “Páscoa” Jesus sabendo que a havia chegado a hora de “passar” deste mundo para o Pai… eis a passagem! Do quê e para quê? Deste mundo, para o Pai. A partir daí é alcançado o equilíbrio entre paixão e passagem, entre Páscoa de Deus e Páscoa do Homem. Entre paixão e ressurreição de Cristo, entre Páscoa litúrgica e sacramental, e Páscoa moral e ascética.

Assim, todos já passamos com Cristo para o Pai e a “nossa vida já está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3), todavia, todos ainda devemos passar. Passamos em “esperança” e “em sacramento” na esperança e pelo batismo, mas devemos passar na realidade cotidiana, imitando sua vida e, sobretudo, seu amor.

Passar, de fato é preciso, diz Santo Agostinho. E se não passarmos para Deus que permanece, passaremos com o mundo que passa.  Mas quão melhor é passar “do mundo”, antes que passar “junto com o mundo”. Páscoa é passar para aquilo que não passa.


Referências de leitura: Raniero Cantalamessa: O mistério da Páscoa; Joseph Ratzinger, Bento XVI: Jesus de Nazaré: da entrada de Jerusalém até a Ressurreição 

Padre Ederson Iarochevski

ESPERANÇAR

Jesus Cristo Ressuscitado,
Fonte de toda vida que deseja continuar eternamente, vós peço em oração:
Restaura os corações assombrados pelo medo de viver.
Levanta os caídos pelos injustos fardos que os fazem carregar.
Que abraços afetuosos deem colo aos pequeninos vitimas de tantas violências.
Que as mesas se fartem de pão da terra e do céu.
Vivifica a voz de quem buscar viver a prática do amor e instaurar a justiça
Fortalece os braços de quem, mesmo com pouco, faz muito pelos mais abandonados.
Inspira os mais velhos a partilhar com alegria suas experiências de vida.
Encoraja os mais novos a viver a boa noticia que nasce de vós: Cristo Ressuscitado.
Que a força do tumulo vazio nos alcance e possa esperançar nossa vida rumo à sua vida.

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