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DUAS FACES DA PÁSCOA

23 de março de 2016

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PÁSCOA: O QUE SIGNIFICA ESTE RITO?

A festa da páscoa é um memorial. Ao nascer a festa, nasce também uma pergunta: “que significa este rito?” (Ex 12,26), e esta pergunta, que é repetida no início da páscoa hebraica, exige que dela se tenha uma compreensão mais profunda.

Nas fontes cristãs também surge a pergunta: “que recordamos nesta noite?” ou também: “porque fazemos vigília nesta noite?” (Santo Agostinho). Por que estas perguntas são importantes, tanto para os judeus quanto para os cristãos? O “por que” ajuda a descobrir qual é o evento salvífico que está na origem da Páscoa.

AS DUAS FACES DA PÁSCOA DO ANTIGO TESTAMENTO

Teológica ou Teocêntrica: esta é a explicação mais antiga, onde a Páscoa recorda em primeiro lugar a “passagem de Deus”, o nome mesmo da páscoa deriva de um verbo que indica a ação de Deus que “passa sobre”, no sentido que “resguarda” e “protege” as casas dos hebreus, enquanto golpeia a dos seus inimigos (Ex 12,26-27). Comemora-se aqui a passagem salvífica de Deus: Páscoa, porque Deus passou! O protagonista é Deus, a iniciativa é divina. 

Antropológica ou Antropocêntrica: aqui a atenção se desloca do momento da imolação do cordeiro para o da saída do povo do Egito, que é vista como a passagem da escravidão para a liberdade (Dt 16). Com a mudança do evento central, muda também o protagonista ou o sujeito da Páscoa: não é mais que Deus que passa e salva, mas o homem ou o povo que passa e é salvo. 

Essas duas respostas são complementares, não exclusivas, são vistas na dependência de Deus; o Êxodo é para a aliança do Sinai. Trata-se de uma libertação religiosa, não política, ao menos de modo principal: o povo torna-se livre para servir a Deus, “deixa ir livre o meu povo para que me sirva” (Ex 4,23; 5,1)

DA PÁSCOA JUDAICA À PÁSCOA CRISTÃ

 As primeiras comunidades cristãs, depois da morte e ressurreição de Jesus, por um tempo continuaram a “subir ao templo” para celebrar a Páscoa com os outros judeus, mas, em certo momento começaram a pensar e a viver esta festa anual, não mais como recordação dos fatos do Êxodo e como a espera da vinda do Messias, mas, principalmente, como recordação daquilo que alguns anos antes tinha acontecido em Jerusalém durante uma Páscoa, e como a espera da volta de Cristo. Quando São Paulo, em 1Cor 5,7,  exorta  a “Celebrar a festa” já se refere à festa da Páscoa cristã.

Páscoa-paixão: esta compreensão pascal é cristológica, isto é, tem por protagonista não o homem e nem mais o Deus do Antigo Testamento, mas sim Jesus Cristo. É uma Páscoa “comemorativa” de todo “o mistério novo e antigo: novo na realidade, antigo na prefiguração” (Melitão de Sardes). A Páscoa comemora toda a história  da salvação, que tem como ponto culminante Jesus Cristo, e se prolonga na espera do seu retorno final. A Páscoa, neste sentido, comemora sobretudo “a grande imolação”, o fato de Jesus ter sofrido e aniquilado a morte com a vitória.

Páscoa-passagem: esta é uma compreensão moral e espiritual da Páscoa, que tem por centro o homem como sujeito e protagonista da Páscoa. A vida de todo o cristão e da Igreja é vista como Êxodo, que começa com a fé e termina com a saída deste mundo. A Páscoa verdadeira está à frente e não atrás. Esta é uma Páscoa “contínua”, em detrimento da Páscoa anual, a fortaleza desta Páscoa está não tanto nos ritos litúrgicos  ou festas externas, mas em decisões e fatos interiores e espirituais.

As duas visões apontam os dois protagonistas e os dois polos da salvação: a iniciativa de Deus e a resposta do homem, graça e liberdade. Para alguns, a Páscoa é antes de tudo um dom de Deus; para outros, é uma conquista do homem.

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SÍNTESE ENTRE PAIXÃO E PASSAGEM 

Santo Agostinho resolveu os contrastes entre as duas explicações. Ao explicar o nome da Páscoa, que traduzindo para o latim significa “passagem”, o santo disse: no dia antes da “Páscoa” Jesus sabendo que a havia chegado a hora de “passar” deste mundo para o Pai… eis a passagem! Do quê e para quê? Deste mundo, para o Pai. A partir daí é alcançado o equilíbrio entre paixão e passagem, entre Páscoa de Deus e Páscoa do Homem. Entre paixão e ressurreição de Cristo, entre Páscoa litúrgica e sacramental, e Páscoa moral e ascética.

Assim, todos já passamos com Cristo para o Pai e a “nossa vida já está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3), todavia, todos ainda devemos passar. Passamos em “esperança” e “em sacramento” na esperança e pelo batismo, mas devemos passar na realidade cotidiana, imitando sua vida e, sobretudo, seu amor.

Passar, de fato é preciso, diz Santo Agostinho. E se não passarmos para Deus que permanece, passaremos com o mundo que passa.  Mas quão melhor é passar “do mundo”, antes que passar “junto com o mundo”. Páscoa é passar para aquilo que não passa.


Referências de leitura: Raniero Cantalamessa: O mistério da Páscoa; Joseph Ratzinger, Bento XVI: Jesus de Nazaré: da entrada de Jerusalém até a Ressurreição 

Padre Ederson Iarochevski

ESPERANÇAR

Jesus Cristo Ressuscitado,
Fonte de toda vida que deseja continuar eternamente, vós peço em oração:
Restaura os corações assombrados pelo medo de viver.
Levanta os caídos pelos injustos fardos que os fazem carregar.
Que abraços afetuosos deem colo aos pequeninos vitimas de tantas violências.
Que as mesas se fartem de pão da terra e do céu.
Vivifica a voz de quem buscar viver a prática do amor e instaurar a justiça
Fortalece os braços de quem, mesmo com pouco, faz muito pelos mais abandonados.
Inspira os mais velhos a partilhar com alegria suas experiências de vida.
Encoraja os mais novos a viver a boa noticia que nasce de vós: Cristo Ressuscitado.
Que a força do tumulo vazio nos alcance e possa esperançar nossa vida rumo à sua vida.

RITUAIS PARA DIAS ABENÇOADOS

9 de março de 2016

 

Sinal da Cruz

De que maneira você começa seu dia? Como você o encerra? Você realiza algum tipo de rito para que seu dia seja mais sagrado?

Como é bom fazer algo que, mesmo repetido muitas vezes, resignifica o dia, a vida. Os rituais de fonte cristã fazem com que os momentos celebrados tenham impressa uma marca divina. Refazer um rito é refazer-se. O ritual, por mais simples que seja, dá significado de vida para a pessoa e a tudo aquilo que ela se propõe realizar.

A tradição cristã estabeleceu uma ligação entre os dias da semana e a salvação de Jesus Cristo. É dado um destaque especial para os três últimos dias e para o primeiro dia da semana. A quinta-feira é o dia da instituição da eucaristia, e na sexta-feira se faz a memória da morte de Jesus. O sábado é o dia do repouso no sepulcro, e o domingo é o dia da ressurreição. Mas, logicamente, os outros dias têm sua importância e sublinham momentos importantes da vida cristã: na segunda-feira a Igreja celebra a Santíssima Trindade; na terça-feira, os anjos, e na quarta-feira, São José, o padroeiro do trabalho. O sábado, vale lembrar, não é somente o dia do sepulcro, mas também faz memória de Maria. Assim, cada dia da semana tem sua característica, sua qualidade própria. Alguns ritos para que possas consagrar sua semana:

Ritual da manhã de todo cristão: o sinal da Cruz. É  deixar o amor de Deus penetrar todo o pensar. O sinal da cruz é como uma senha que liberamos para que Deus tenha acesso ao intimo de nosso ser.  É sentir-se totalmente tocado, acolhido, envolvido por Deus. É colocar nosso ser em direção a Deus. Pelo sinal da cruz somos integrados à vida sagrada, bem expressa na Igreja Siriana: “em nome do Pai, que me pensou e me formou; e do Filho, que desceu às profundezas do meu ser humano; e do Espírito Santo, que torna o esquerdo direito”. 

Segunda-feira: ACENDER UMA VELA

Comece o dia acendendo uma vela. Com calma, acenda vagarosamente e conscientemente. Contemple a luz que emana. Perceba como aos poucos a penumbra vai dando lugar à luz. O calor se espalha, a frieza enfraquece.  Ao acender a vela pode dizer: “Levanta-te! Deixa-te iluminar! Chegou tua luz! A glória do Senhor te ilumina” (Is 60,1).

 Terça-feira: ESCREVER UMA PALAVRA

Escrever uma palavra que deseja ganhar vida em você. Pronunciar e escrever a palavra que vem ao seu coração e que se torna fonte de inspiração para o seu dia. Lembrar que a palavra cria uma realidade. Deus criou o mundo com sua palavra. Assim, também, somos nós. As palavras querem ser faladas. Pode falar em alta voz “no principio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o que existe” (Jo 1,1-4). 

Quarta-feira: CONTEMPLAR UMA FLOR

Este dia está ligado ao terceiro dia da criação divina. Dia em que Deus deixa a terra produzir. As espécies de plantas e árvores ganham vida. Ao contemplar uma flor você verá a beleza, e ao contemplar o que é belo você vê Deus. Quantas são as flores relacionadas na tradição cristã como símbolos que nos recordam a  presença de Deus? Com Maria muitas são as flores relacionadas: rosa, lírio, margarida, violeta. Na ladainha de Nossa Senhora ela é invocada como “rosa mística”. Diante da flor poderá cantar: “cultivo um jardim tão lindo, rosas perfumadas para te ofertar…”.

Quinta-feira: PARTIR O PÃO

Este rito recorda a instituição da eucaristia.  Então Jesus tomou o pão, partiu-o e deu aos seus discípulos dizendo: “isto é meu corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24). Tomar o pão, abençoá-lo, partir e dar. Aquilo que tomo em minhas mãos é abençoado por Deus, e só assim o dar tem sentido. Só posso dar porque o tomei, e se dou é porque foi abençoado por Deus. Pão que se parte, se reparte.

Sexta-feira: NO CAMINHO DA VIA-SACRA

Somos caminhantes, peregrinos, estrangeiros que por aqui passam. Tal como Abraão, nos pomos a caminho.  Como diz o poeta Novalis: “para onde, afinal, estamos indo? Sempre para casa”. Lembra Jesus aos seus discípulos: “quem quer seu meu discípulo tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Proponha-se neste dia caminhar. A cada passo dado uma breve reflexão. Aprender a fazer silêncio e apenas caminhar. Sentir os passos, ouvir a respiração, escutar o mundo que está a volta e rezar a própria vida. 

Sábado: OUVIR UMA MÚSICA

O sábado nos convida à contemplação. Pede-nos tranquilidade, um repouso sereno. Para este dia uma peça musical adequada faz muito bem para a alma. Decida-se pela música que seu coração pede. O ato de ouvir, acompanhar, imaginar o que a canção sugere relaxa-nos e eleva-nos. “Escuta, e a tua alma viverá” (Is 55,3) uma boa música é um alívio para alma, como lembra São João Crisóstomo “a alma suporta mais facilmente as durezas e labutas quando canta uma melodia ou fica a escutá-la”. 

Domingo: A EXPERIÊNCIA DO SILÊNCIO

“No sétimo dia, Deus concluiu toda a obra que tinha feito, e no sétimo dia repousou, Deus abençoou o sétimo dia e o santificou” (Gn 1, 2,3). É difícil se encontrar com o silêncio porque não sabemos o que fazer com ele. O que precisamos apreender para que o silêncio tenha sentido? Deus viu que tudo era bom – é preciso ver a vida como boa, mesmo quando temos dificuldades, descobrir a bondade que ali surgiu. Deus abençoou o sétimo dia – o tempo de silêncio é abençoado. Sentir que a benção é proteção. E fazer da benção tempo de fecundidade espiritual, existencial. Deus santificou o sábado – santificar aquele dia, não deixar que as preocupações e ocupações tomem o tempo do dia sagrado. Domingo é o dia de buscar ouvir o silêncio, seja em casa, na igreja, ou num lugar que favoreça curtir o silêncio.

MEU SINAL DA CRUZ

Pelo sinal da santa cruz, Deus misericordioso, tens acesso a todo meu ser.

Ao tocar minha fronte, inunda o meu pensar com a força do teu amor.

Faz-me todo teu.

Ao descer e colocar a mão sobre meu ventre, inunda com teu amor a minha força, vitalidade, sexualidade.

Ensina-me a amar.

Com a mão sobre o ombro esquerdo, derrama Senhor teu amor sobre o meu inconsciente, nas imagens que lá estão guardadas, aclara, ó Deus, as trevas e cura as imagens maléficas.

Ensina-me a perdoar.

Com a mão sobre o ombro direito, derrama teu amor sobre meu consciente, sobre meu agir, minhas decisões.

Move-me, Senhor, para o bem.

Padre Ederson Iarochevski


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