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O SILÊNCIO

15 de março de 2014
Pássaros sentinelas na fronteira Turquia-Iraque

Pássaros sentinelas na fronteira Turquia-Iraque

Em toda comunidade cristã é importante valorizar o exercício do silêncio, não necessariamente um silêncio de monges, mas no sentido de saber conservar em silêncio as confidências e informações fraternas. Se há algo que assegura a maturidade humana é a capacidade de guardar silencio sobre as confidências e as pequenas irregularidades observadas na vida da comunidade.

Quando se fica sabendo do “pecado” de um irmão, a melhor maneira de conservar-lhe a dignidade e a primeira manifestação concreta de amor consiste em fechar a sete chaves o “segredo”, e o levar para a sepultura, sem que tenha saído da minha boca nenhuma informação, direta ou indireta. Logicamente, não basta calar. Algumas vezes terá que informar, pois o pecador precisa ser “levantado”. Também nisso consiste o amor. Mas, o primeiro dever é proteger como o manto do silêncio os ombros do irmão “pecador”. É sinal de misericórdia e sabedoria.

Geralmente não se resolve nada polemizando, defendendo com palavras ardorosas o prestígio ameaçado do próximo, porque os outros intensificarão o ataque. Calando, poderemos defender o outro com mais caridade e dignidade.  O modo ideal de respeitar é sempre o silêncio.

Cultivar o silêncio com a mesma devoção de um crente alimentando sua amizade com Deus é oferecer vida à comunidade. – Chegou a seus ouvidos uma notícia explosiva? Dá vontade de contar, mas, guarde-a no cofre do coração. – O que acaba de acontecer com uma pessoa é algo entre o divertido e o ridículo? Se contar a seus amigos, por certo terão meia hora de divertidos comentários. Então, guarde o silêncio, porque a primeira atitude de um cristão misericordioso é cobrir o “pecador” com o manto do silêncio.

Feliz a comunidade que inclui pessoa íntegra e madura que, qualquer que seja a confidência depositada em seu coração, guarda-a como em cofre lacrado até a sepultura e até depois… Essa casa está salva da angústia e das doenças emocionais.

Talvez, quando nos apresentarmos à porta da eternidade, o melhor bilhete de entrada vai ser um ramalhete de segredos, silenciosamente guardados. Lá só entram os que amaram; e os que calaram, amaram…

Padre Ederson Iarochevski

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QUARESMA, TEMPO DE PASSAGEM

7 de março de 2014
«Partilha» - G. Gordiano

«Partilha» – G. Gordiano

O tempo da quaresma deve tocar profundamente cada cristão porque, é neste momento especial do ano litúrgico, que volvemos os olhares para dentro de nós e passamos a perceber como estamos vivendo o que o Senhor nos pede através de sua Palavra.

É na quaresma que, intimamente, quando há consciência religiosa, fazemos as passagens necessárias para a libertação verdadeira. As práticas  do jejum, da esmola e oração (Lc 9,22-25), vividas e movidas com espontaneidade, vão moldando nosso jeito de rezar, penitenciar e ser caridosos.

Jejum fora ou dentro? Jejuar apenas por imposição de normativas religiosas pouco valerá, pois conduzirá o fiel a um caminho tortuoso. O jejum é a capacidade que a pessoa tem de privar-se dos acúmulos que carrega, que absorve, que alimenta. Quanto maiores os acúmulos, maiores os pesos a carregar. O jejum verdadeiro garante ao cristão maior leveza. Jejuar é um sacrifício que deve embelezar a alma do cristão pois, com a leveza que o jejum proporciona, ficará mais fácil estar junto aos irmãos e irmãs de comunidade para viver a fé com alegria.

Esmola do bolso ou do coração? Muitos confundem esmola com aquilo que sobra. É verdade que só um coração enriquecido pode enriquecer quem está por perto, corações miseráveis espalham, mesmo, é miséria. Às vezes, corremos o risco de pensar que o que outro precisa é aquilo que não nos faz falta. Triste engano. O que o outro, o desfigurado, necessita é aquilo que é importante para nós. Esmola não é oferta de amor aos pedaços, é amor inteiro. Por isso, a esmola começa do lado de dentro. Na intenção de servir está selado o valor da esmola. Se a esmola tem a intenção de nos destacar, será fruto de um coração miserável e de um bolso egoísta, mas, se a esmola é nascida da intenção silenciosa de cuidar das feridas de quem sofre, aí é germinada em um coração enriquecido e de um bolso generoso.

Oração mental ou dialogal? Rezar só é fácil quando a oração é decorada, mas uma oração coroada de espinhos é um nobre desafio para todo cristão. Rezar é diálogo verdadeiro com quem sabemos que nos ouve delicadamente. Orar é rasgar o coração e não as vestes (Jo 12,13). Assim, é preciso ter abertura de mente e coração para apresentar a Deus nossas misérias e riquezas, superar os individualismos espirituais e se colocar em caminhada espiritual junto à comunidade. Rezando sozinhos, Deus com certeza vê (Mt 6,6), mas, quando rezamos juntos, Deus sente. Que a nossa oração seja uma ponte por onde conduzimos nossa verdade a Deus e alcançamos nossos irmãos e, juntos, caminhamos rumo ao Reino definitivo.

Quaresma é um tempo de passagem. Superemos os desertos que acomodam, para vivermos a graça de estarmos em um oásis de vida que nós é ofertado por Deus. O jejum, a esmola e a oração possibilitam realizar a passagem do “nada sem Deus” para o “tudo com Deus”.

Pe. Ederson Iarochevski 


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