QUERO VER DEUS

Quem parte em descoberta de Deus não sabe aonde vai. E não pode saber aonde vai porque o Deus vivo não ocupa um lugar. Jesus lembra que “O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20).  Não há como enquadrar Deus em um lugar apenas, porque Ele está em todos os lugares, é onipresente. Tal como Abraão, partir à descoberta de Deus é sempre se pôr a caminho. É por isso que o povo de Deus sempre foi peregrino, não se iludindo com o sedentarismo que nos acorrenta e nos impossibilita aventurarmos nos mistérios infinitos de Deus. Arriscar-se no caminho do encontro com Deus é a maior aventura que o homem pode empreender durante sua vida, mas, como Moisés, a morte pode chegar no deserto, durante a caminhada, e a Terra Prometida não será vista com os olhos físicos. Assim, o tempo pascal que vivemos nos confirma que a Graça maior é encontrar-se com Deus, plenamente, após a morte. A caminhada nos faz vislumbrar, em partes, o que Deus é, e ao final da caminhada, contemplaremos, totalmente, o que nós somos em Deus.

Para partir precisamos estar munidos de esperança, valendo-nos da presença constante de Deus em nosso caminhar. Bem sabemos que Deus não se define com palavras, mas afirma-se em atos. “Deus é amor” (1 Jo 4,8), não é definição, e o evangelista João bem sabe. É como se João quisesse nos afirmar: “Deus te ama e convida à aventura do amor”. A procura é constante e dura toda uma vida, porque é o próprio Deus que o homem está a procurar. Essa procura não se dá por curiosidade, mas, no desejo de encontrar-se com a verdade do próprio ser, que reside em Deus.

Por quê?

Ao despertar a inteligência, durante o itinerário de busca, o homem, já amadurecido, diante do mistério profundo de Deus, volta ao seu ser criança e questiona: mas por que a busca tem que ser assim? Quero ver… mostre. E, nas constantes perguntas da caminhada, o menino vai tornando-se homem. Perguntar não significa duvidar, mas sim não se contentar, não querer ter o que basta, não querer parar de caminhar. Uma grande decisão de um homem amadurecido é manter o desejo de continuar sendo uma criança insatisfeita. Nosso coração está marcado com o selo do Infinito e, por isso, ousamos sempre conhecer mais, e melhor amar. Aquilo que a ferrugem corrói e o tempo destrói não deveria ser nossa primeira ocupação.

Somos cercados por estilos de vida que nos ferem e matam diariamente. Corremos o risco de não querer mais caminhar, procurar. Parece que é mais fácil esperar sentado. Quem sabe, recuperando os “por quês” da vida teremos mais ganhos do que esperando pelas respostas prontas.

Somos insatisfeitos. É uma marca de nossa condição humana. O objeto de tal insatisfação é estar constantemente a procura de Deus. São Bernardo, grande caminheiro de Deus, teve palavras belíssimas para exprimir essa busca realizada pelo homem: “estamos perdidos na sombria “região de dessemelhança”, somos estrangeiros e exilados procurando a casa do Pai, único refúgio onde acharemos a lareira, e donde gritaremos com alegria: aqui estou bem, estou em minha casa”. Nossa insatisfação positiva nos conduz sempre mais próximos da casa do Pai.

“Caminhar com razão, eis na vida uma lição”: assim como o refrão canta, também cada um de nós pode se convencer de que se pôr-se a caminho é o grande feito a ser enfrentado na vida. É caminho de que nem sempre temos certeza de nele estarmos, mas, a maior certeza é que nos conduzirá à casa do Pai. E lá, junto à lareira, poderemos dizer sem medo de errar: estou em casa.

Ederson Iarochevski

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