O DOM DE CUIDAR DE SI

Filósofo meditando (Rembrandt)

Parece estranho, mas num tempo em que tanto refletimos sobre a pessoa humana, suas dimensões, potencialidades e limites, talvez a pessoa com quem menos nos preocupamos seja nós mesmos. Se você mantém uma agenda pessoal, confira nela o que faz em relação aos outros e o que realiza para si, e verá uma desproporção enorme, possivelmente. E, por que isso ocorre? As respostas são muitas: tenho que ganhar a vida, os outros precisam de mim, sou insubstituível naquela função. Poderíamos agora insistir: e por que não tenho tempo para cuidar de mim?

Ter um tempo para si mesmo não é ser egoísta, é ter amor por si próprio. É gestar um amor a partir de dentro e não mendigá-lo de fora.  De que vale carregar o mundo inteiro se não se é capaz de cuidar da própria vida? Se o amor que ofertamos resulta do amor que damos a nós mesmos, que verdade possui o amor de quem não se cuida, não se valoriza, não se ajuda, não se pensa, não se ama?

Talvez o grande segredo para uma mudança na vida duma pessoa é justamente voltar-se para ela mesma em uma atitude de solidariedade e amor. O primeiro a ser atingido pelo amor que se crê será você. É passível de desconfiança uma pessoa que anuncia o amor e ao mesmo tempo se autodenuncia nos comportamentos e palavras, não se ama.

É preciso, muitas vezes, durante toda a vida, remodelar-se, garantir uma gestão de qualidade em relação a si mesmo. E isso se dá através da mudança de hábitos, na maioria dos casos. Hábitos mais saudáveis qualificam a vida da pessoa. Alguns hábitos para que você tenha um caso de amor consigo mesmo:

Rezar: quando foi a última vez que você se colocou em oração? Orar faz bem para o coração e para a mente. A oração é um caminhar para dentro de nós. É um encontro entre seu “eu mais profundo” e Deus. Aquele que reza é mais sensível ao que sente e pensa. Rezar aqui, não é simplesmente decorar palavras e repeti-las, mas, assim como as ondas d’água nascem no mais profundo do mar, assim também as palavras mais belas da oração mais verdadeira nascem do fundo de nosso coração. Quem reza se conhece melhor. Quem reza, só pelo fato de se colocar em oração, já pode se considerar mais saudável.

Conversas agradáveis: quais os conteúdos das suas últimas conversas? Conversar é entrar na casa de sentido que a outra pessoa tem e deixá-la entrar em nossa. Se temos assuntos edificantes, logicamente nos edificamos, corporificando em nós o que a conversa traz; porém, se a conversa resulta de palavras impróprias e assuntos  mesquinhos, somos presos nas armadilhas que as palavras nos aprontam. Conversas agradáveis têm ligação direta com o que nos faz refletir a vida, lembrar de que valeu a pena ter vivido. Apresentam o tempo presente como uma dádiva e o futuro com alegre esperança. Conversa agradável é aquela que não tem pressa de terminar. Não é determinada por protocolos. Ela nasce de forma espontânea de corações que se querem bem. Conversa agradável é aquela em que até nos silêncios de palavras há um sentido tão profundo que mesmo o discurso mais belo não é capaz de proclamar.

Solidão acompanhada: quantas vezes você se permite ficar só, somente pelo fato de ficar só? Vivemos no mundo do movimento e do barulho e ficar sozinho parece sinônimo de doença. Mesmo que virtualmente, precisamos estar conectados com alguém. Mas, será isso verdade? Não somos merecedores de horas agradáveis de solidão? Ficar sozinho, por vezes, é uma atitude saudável. Não que a companhia dos outros incomode, mas aqui estamos falando daquele momento em que você se retira para se reencontrar. Depois de todo o movimento que o dia, a semana ou o mês exigiu de nós, precisamos nos reintegrar em nós mesmos. Solidão acompanhada é aquele momento especial onde você tem apenas você por companhia. Essa é a sua hora. É o momento de visitar o seu interior para ver o que tem acontecido com você no que se refere às dimensões que comportam sua humanidade.

Ficar só é graça. Poder sentir-se e pensar-se é um dom a ser conquistado, é desbravar nossos interiores para descobrir o que precisa ser lapidado e, principalmente, as riquezas que ali residem. A solidão acompanhada é justamente essa hora em que você viaja para dentro de si e percebe o quanto é especial aos próprios olhos.

Éderson Iarochevski

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