Archive for fevereiro \17\UTC 2012

RECOMEÇAR DAS CINZAS

17 de fevereiro de 2012

Alguma vez você já recebeu um pouco de cinzas na fronte ou sobre a cabeça? O que isso significa? Porque cinzas e não outro símbolo? As perguntas podem se multiplicar e as respostas, também. Então, nada melhor do que refletirmos sobre a importância das cinzas e seu significado na “porta de entrada” da quaresma.

O uso das cinzas na liturgia tem sua origem no Antigo Testamento. Sua simbologia está intimamente ligada à dor, morte e penitência. Por exemplo, no livro de Ester, Mardoqueu se veste de saco e se cobre de cinzas quando soube do decreto do Rei Assuero I, da Pérsia, que condenou à morte todos os judeus do império (Est 4,1). Jó (cuja história foi escrita entre os anos VII e V antes de Cristo) mostrou seu arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinzas (Jó 42,6). Daniel (cerca de 550 antes de Cristo), ao profetizar a captura de Jerusalém pela Babilônia, escreveu: “Volvi-me para o Senhor Deus a fim de dirigir-lhe uma oração de súplica, jejuando e me impondo o cilício e a cinza” (Dn 9,3). Estes exemplos retirados do Antigo Testamento demonstram a prática estabelecida de utilizar cinzas como símbolo de arrependimento e penitência

Jesus também fez referência ao uso das cinzas. A respeito daqueles povos que recusavam se arrepender de seus pecados, apesar de terem visto os milagres e escutado a Boa Nova, Jesus  proferiu: “Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e as cinzas (Mt 11,21). A Igreja, desde os primeiros tempos, continuou a prática do uso das cinzas com o mesmo simbolismo.

As cinzas recordam nossa humilde condição. Recordam que somos pó e ao pó retornamos: isso com o otimismo da ressurreição que nos lembra os verdadeiros valores, os que não passam. O espírito comunitário de oração, de sinceridade cristã e de conversão ao Senhor, que proclamam os textos bíblicos, se exprime no rito das cinzas colocadas em nossa fronte ou cabeça e que simbolizam nossa submissão humilde como resposta à Palavra de Deus.

Participar da liturgia da Quarta-feira de cinzas é dar-se conta de nossas fragilidades, nossos limites e pecados. Não há pessoa que amadureça se não voltar o olhar para suas precariedades. O limite não assumido, também não é redimido. Logicamente, não queremos virar cinzas, mas sim, renascer. Recomeçar a partir do zero, isto é, não pensar nosso projeto de vida a partir do que não deu certo, mas ter a consciência de que o tempo de recomeçar é “hoje”. Receber as cinzas é se receber. Se receber é recomeçar. Recomeçar é entrar na dinâmica misericordiosa de Deus.

Ederson Iarochevski

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: