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ARTE DE AGRADECER

23 de julho de 2011

Jean-François Millet (1814 -1875)

Agradecer é uma arte. Só o faz, verdadeiramente, quem vê, sente e vive a vida como um presente, uma possibilidade.  Agradecer é a capacidade de reconhecer a importância do outro na sua vida. Nos reduzimos a nada sem a presença do outro em nosso cotidiano. Pare e pense: o que seria do seu dia sem a convivência direta e indireta com outras pessoas? Vivemos em permanente interdependência. Para a minha existência o outro se torna uma exigência.

Agradecer é um gesto de amor. Dizer “muito obrigado” a uma pessoa é tão belo quando dizer “eu te amo”. Quando agradecemos, estamos nos desvencilhando de um dos vícios mais perigosos de nosso tempo, a auto-suficiência. Como é triste alguém pensar que não precisa de ninguém para viver. Então, um gesto de amor é dizer “muito obrigado”. Agradecer é estar certo que alguém fez a diferença em sua vida.

Agradecer é selar uma união. Quando o filho agradece a seus pais pelo esforço e carinho a ele dispensados, sela seu amor em relação aos pais. Quando o esposo diz “muito obrigado” à sua esposa pelo carinho e cuidado que a mesma tem com ele, está estabelecendo um laço ainda mais forte. Mesma situação quando a esposa reconhece a importância de seu esposo e diz “muito obrigado”. Quando os amigos reconhecem o quanto são importantes uns para os outros, estão reafirmando uma relação que permanecerá no tempo, independentemente das intempéries que possam surgir.  Mas dizer “muito obrigado” em tempos de individualismos é um ato de coragem, e receber um “muito obrigado” em tempos de auto-suficiências é um ato de humildade. Sejamos, tanto corajosos como humildes, afinal, um muito obrigado pode salvar nosso dia e ser sinal do amor em nossa vida.

Na Bíblia descobrimos como agradecer a Deus, e assim vamos aprendendo esta arte que é reveladora do amor. “De todo o coração vos agradeço, Senhor, e proclamo as vossas maravilhas” (Sl 9, 2). “Dai graças ao Senhor porque ele é bom; eterno é seu amor por nós” (Sl 106,1; 117,1). O salmo 135 é uma ladainha de louvores e agradecimentos. “Com profundo respeito me prostro diante de vós, para agradecer vosso amor e fidelidade” (Sl 137,2). “Eu exaltarei o meu Deus e jamais deixarei de agradecer-lhe. Todos os dias bendirei o Senhor e para sempre hei de louvar o seu nome! (Sl 144,1).  “Como é bom louvar-vos, ó Senhor, e cantar salmos em vossa honra, ó Deus Altíssimo! Como é bom, de manhã proclamar vossa bondade e, à noite, bendizer vossa fidelidade. (…) Mesmo quando idosos, produzirão frutos, pois conservarão a saúde e o vigor. E assim, ó Deus, testemunharão que sois o rochedo inabalável, que sois bom, justo e sempre fiel no cumprimento de vossas promessas” (Sl 91, 2-3. 15-16).

Que nunca possa cessar nossa oração de agradecimento. Quem agradece, cresce. Reconhecer que Deus é fundamental em nossa vida é divinizar a vida que ganhamos de presente de Deus que tanto nos ama e nos quer ver felizes. Agradecer ao outro pelo que fez em relação a nós é humanizar nossas relações e garantir mais verdade e singeleza aos nossos dias.

Agradecer é crescer em humanidade. Agradecer é experimentar o amor. Agradecer é abrir o coração e deixar o outro ali permanecer. Agradecer é evangelizar. Agradecer é estabelecer laços. Agradecer é viver convivendo. Agradecer é um jeito de revelar Deus. Agradecemos aos céus para que a vida na terra seja mais divina e agradecemos à terra para que possamos experimentar, mesmo de forma antecipada, um pouco do céu.

Ederson Iarochevski

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NA ESCOLA DA SABEDORIA

2 de julho de 2011

Criação

Sabedoria é o saber do saber, isto é, o conhecimento dos últimos fundamentos e princípios do ser e da vida. A sabedoria não quer saber muito, mas quer entender as bases mais profundas do ser. Nas línguas anglo-saxônicas (por exemplo, no alemão: “weis” e “wissen”; no inglês: “wise”; no halandês: “wijs”.) o termo tem o sentido original de “ver”. Assim se afirma no pensamento de William Blake: “o tolo não vê a mesma árvore que o sábio vê”. O sábio é aquele que viu muita coisa; que contemplou o profundo da vida, sua preocupação é com a essência das coisas. O sábio vê como as coisas se interligam; é sensível ao que realmente é importante. Contempla os mistérios de Deus e do ser humano. Os gregos, por exemplo, relacionavam a sabedoria sempre com Deus. Atenas e Apolo eram os deuses da sabedoria. Eram eles que davam sabedoria aos seres humanos. Sabedoria, então, tem seu fundamento em Deus.

A palavra grega “sabedoria” é “Sophia”. Na história da filosofia grega houve uma escola dos “sofistas”. Pretendiam ser os donos da sabedoria do mundo. Mas, na grande maioria das vezes, entendiam por “Sophia” um jeito habilidoso de falar. Comparados com alguma atitude de hoje, poderíamos enquadrá-los na categoria daqueles que se julgam os “donos da verdade”. Como é sabido, o saber pode dar título, ou “saber é poder”. Contra isso o filósofo Sócrates protestava, pois, para ele, o saber consiste em saber que não se sabe nada. Para o filósofo Platão, a sabedoria consiste em ver a causa primeira de todas as coisas, em conhecer a essência das coisas. O sábio conhece o próprio ser. E o ser para Platão é o bom e o belo. O sábio tem familiaridade com o bom e o belo. Para Platão ainda, sabedoria significa deixar as coisas como realmente são, admirar o ser, sem querer se apoderar dele.

No latim, a palavra para sabedoria é “sapientia”. Essa palavra vem de “sapere”, saborear, apreciar (uma comida). O sábio adquiriu um gosto bom para discernir o essencial. Conhece o sabor do bom e do belo, daquilo que realmente faz bem ao ser humano. Conhece também o sabor do mal. Para os Padres da Igreja, o mal sempre tem gosto ruim, amargo.  Ser sábio é saber distinguir o gosto do bem do gosto do mal. Evita o gosto amargo de tudo aquilo que é ruim. Para os romanos, sábio é, sobretudo, aquele que percebe o seu próprio gosto, que está em harmonia consigo mesmo, que lida com sua própria pessoa. Ele contempla a si mesmo e as profundezas de sua alma com olhar benigno. Isso lhe confere um gosto agradável, também para os outros. É simples de entender, basta conversar com uma pessoa sábia e você sabe que aquela conversa foi agradável, diferentemente de uma conversa com um tolo que nos deixa amargos ou enjoados.

A sabedoria na Bíblia

Na Bíblia há uma coleção de “livros sapienciais”. Neles está compilada a sabedoria de muitos povos: egípcios, caldeus, persas, gregos e judeus. A sabedoria se expressa sobretudo em provérbios. A mais profunda intuição do sábio judeu está na frase: “Início da sabedoria: o temor de Deus; conhecer o Santo: eis o que é inteligência” (Pr 9,10). Não há sabedoria maior do que deixar-se encontrar por Deus. O sábio sabe que Deus é sublime. Que ele é o “Outro”, grande e santo. O sábio inclina-se diante do mistério de Deus. Sabe que o abismo da vida é insondável para o ser humano, mas que, através de verdadeira meditação, contemplação e oração vai conhecendo os planos de Deus e a eles se entregando.

No Novo Testamento, o evangelista Lucas vê Jesus como o Mestre da sabedoria. Jesus é mais do que Salomão, que concentra em si a sabedoria do Oriente e do Ocidente. Na sua mensagem, Jesus transmite a sabedoria de sua própria experiência de Deus através de parábolas e provérbios. Nas parábolas ele nos abre os olhos para aquilo que é realmente essencial, para a natureza das coisas. Para Jesus, a sabedoria não consiste em muitos conhecimentos, mas na compreensão do mundo e no entendimento novo do que o ser humano é diante de Deus. A sabedoria tem sempre a ver com uma ação. O sábio é aquele que tem controle sobre a vida, sobre as realidades. A sabedoria é necessária para que a vida dê certo e o ser humano alcance a felicidade.

Paulo descobriu a verdadeira sabedoria na cruz de Jesus Cristo. Isso até hoje escandaliza a muitos, era incompreensível para judeus e gregos. Mas a cruz é um dos mais antigos sinais de salvação. Anselm Grün define a cruz como “a unidade de todas as antíteses”. Na cruz é que Jesus harmoniza tudo o que no mundo, fora dela, está separado. A cruz une o céu e a terra, Deus e o homem, o bem e o mal, a luz e a escuridão, o homem e a mulher. Na cruz, o olhar de Jesus penetra nos abismos da vida humana.  Experienciou que a morte transforma-se em vida nova, que a escuridão é iluminada e o abandono se torna comunhão com Deus. A cruz é onde Jesus provou o gosto da morte e da vida.  A sabedoria encarnada em Jesus apóia de novo nosso saber sobre a vida. A cruz nos introduz no mistério peculiar da existência humana. A cruz, portanto, arrasa nosso saber humano, exatamente onde para nós tudo se acaba, Deus nos abre novos caminhos: “Quem entre vós é sábio e prudente? Deverá com sábia modéstia mostrar os atos de uma vida sensata” (Tg 3,13).

Ederson Iarochevski


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