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A ORAÇÃO DE JESUS E A NOSSA

4 de junho de 2011

Dom Helder Câmara em oração (Deólla)

Jesus de Nazaré era judeu devoto. Observava a tradição do culto no templo quando estava em Jerusalém e dos encontros na sinagoga quando fora da cidade sagrada. Ele e seus discípulos seguiam também os costumes e prescrições da lei judaica. Mas parte importante de seus ensinamentos contrariava as complicadas exigências religiosas de seu tempo: Jesus colocava as necessidades humanas acima do legalismo. Exemplo disso é que, em pleno dia de sábado, os discípulos de Jesus, matam a fome ao passar diante de plantações de trigo, quando são repreendidos pelos fariseus que, legalistas que eram, recordam que aquilo não era permitido fazer em dia de sábado. Jesus, salvaguardando a vida dos discípulos e indo ao encontro de suas necessidades daquele momento, responde aos fariseus “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (Mc 2, 23-28).

Jesus ensinou que simples leis religiosas feitas pelos homens, os tabus e as práticas de culto tinham de ser postas de lado quando as pessoas tivessem fome ou estivessem enfermas, ou quando fossem pobres ou desprezadas, ou simplesmente pecadores que necessitassem de uma profunda acolhida e conversão. A dignidade da pessoa está acima de qualquer preceito. Jesus se colocava do lado dos considerados “sem-Deus”. Os abandonados, os enfermos, os feridos emocionalmente ou psicologicamente, os criminosos e os perversos, os que por qualquer razão tivessem sido escorraçados: a esses especialmente ele buscou e os fez objeto de sua atenção e compaixão.

A atitude de Jesus para com todos e para com tudo era de oração. Por isso, seus atos individuais, seus ensinamentos, seu ministério de cura, tudo era conseqüência. A verdadeira oração leva, inevitavelmente, à ação. Rezar é o primeiro passo que se dá em direção a Deus e aos irmãos. E é pela mesma oração que não desistimos de nos encontrar sempre mais com o Deus que nos ama e com o outro que devemos amar.

Nos evangelhos encontramos com freqüência Jesus orando. Não apenas como era o costume judeu de rezar na comunidade reunida na sinagoga, mas Jesus rezava na solidão.  Vários são os momentos que nos recordam esta atitude orante de Jesus: “De manhã, quando ainda estava escuro, ele se levantou e foi a um lugar deserto, lá ele orava (Mc 1,35)… Após despedir-se deles, foi orar sozinho na montanha (Mc 14,22-23)… Depois de dispersar as multidões, foi sozinho orar (Lc 5,16)… Retirou-se a lugares desertos para orar )… Passou a noite em oração a Deus (Lc 6,12).

Convidados a orar

Quando Jesus aconselha e ensina a orar, ali está o reflexo de sua vida orante. Jesus pede para que se tenha total cuidado com as orações de exibição pública (Mt 6, 1. 5-8). Nesta passagem de Mateus os ouvintes de Jesus e os leitores posteriores devem ter-se surpreendido com a recomendação de brevidade, porque na época as preces eram extraordinariamente longas e a impressão era de que a quantidade significava qualidade. Mas a oração é para nosso beneficio, e não para o de Deus; o Pai “conhece vossas necessidades antes que as digais a Ele”.

O conselho de Jesus era para que entrassem em seus próprios quartos e fechassem a porta. Isso somente poderia ser entendido por seus contemporâneos como significando prece solitária: quase ninguém, exceto imperadores, nobres ou pessoas muito ricas, possuía residências com mais de um cômodo. Por outro lado, os primeiros cristãos também compreenderam de maneira simbólica a referência de Jesus ao “quarto” como uma espécie de retiro privado, a solidão piedosa na qual se baseava sua própria vida interior. “Oramos em nossos quartos”, observou um mestre do século IV (Abbá Isaac), “quando abstraímos completamente nossos corações do tumulto e ruído de nossos pensamentos e nossas preocupações, e oferecemos secreta e intimamente nossas preces ao Senhor. Oramos com as portas fechadas quando, sem abrirmos a boca e em perfeito silêncio, oferecemos nossas súplicas Àquele que não presta atenção em palavras, mas vê as profundezas de nossos corações”. O lugar e o espaço específico eram secundários; o que importava era a existência de solidão e paz.

Vivemos com muita pressa. Relações superficiais e desgastadas. É preciso saber parar. Diminuir o ritmo. O idioma da fé é a oração. É preciso que a cada dia descubramos o valor de dialogar com Deus através da oração. Seremos mais serenos, entenderemos mais o que nos acontece, viveremos com maior tranqüilidade os dias a partir do momento que a oração possuir um espaço em nossa vida diária. Quem reza se torna mais forte e mais terno. Vamos nos permitir ter momentos de solidão e de paz para nos encontrar com Deus. Ele está à nossa espera. Como fala uma canção religiosa:

Que eu espero por você,
E não me canso de esperar,
A porta aberta vou deixar.
Se quiser pode voltar
E eu espero por você
E não me canso de esperar.
Meu coração se alegrará
Quando você se aproximar.

Éderson Iarochevski


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