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RESSURREIÇÃO: NO FIM, O INÍCIO

14 de maio de 2011

O Túmulo Vazio

O teólogo Jurgen Moltmann apresenta, em sua obra: No fim, o início: breve tratado sobre a esperança (Edições Loyola, 2007) a força da esperança cristã: a esperança cristã é a força da ressurreição das falhas e derrotas da vida. É a força do renascimento da vida a partir da sombra da morte. Ela é a força para o novo começo. Por sua divina ressurreição dos mortos aquele final, sem saída, de Cristo na cruz do Gólgota transformou-se em seu verdadeiro início.  Se estivéssemos conscientes disso, não desanimaríamos, mas esperaríamos que em cada fim se oculte um novo início. Mas, é preciso saber que, somente seremos capazes de novos inícios, se estivermos dispostos a abandonar o que nos atormenta e o que nos falta. Se procurarmos o novo início, ele nos encontrará.

Nós, cristãos, precisamos entender que nossas expectativas de futuro nada têm a ver com o fim, com o fim da vida, com o fim da história ou com o fim do mundo, mas com o início: o início da verdadeira vida. O início do Reino de Deus e o início da nova criação de todas as coisas em sua forma definitiva. É sabedoria antiga: “as últimas coisas são como as primeiras”. A grande promessa de Deus, revelada no Apocalipse de João, é: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Por isso, a Palavra de Deus é a própria promessa de Deus e das esperanças humanas, de todas as criaturas, que adquire da memória do seu futuro as energias para o novo início.

É na vida que devemos concentrar nosso pensamento, nosso coração, nosso olhar. Nossa preocupação não deveria ser onde a vida termina, mas sim, onde ela começa. O nascimento da vida precede à sua morte. É no nascimento de uma criança, por exemplo, identificado universalmente como o milagre da vida, que descobrimos a “magia” que aponta para além das experiências de finitude da vida, bem como de suas frustrações, decepções e derrotas. Diante de um recém-nascido não há decepções, mas sim, a alegria que a vida venceu e que continuará vivendo e se desenvolvendo. É uma vida que chega e dá mais vida para quem já a possui. Quando uma criança nasce, muitas outras vidas renascem. O Deus vivo sempre nos chama para a vida, tanto em nosso nascimento como em nossa morte, quando iniciamos e quando estamos no fim. Por isso, a proximidade de Deus vivifica sempre e em qualquer lugar. A ressurreição faz justamente isso com cada um de nós: devolve-nos à vida.

O Deus da Esperança

Na ressurreição de Cristo nos é dada a graça de dizer “Sim à vida”.  A ressurreição é o centro de esperança libertadora que ultrapassa esse mundo dominado pela sombra da morte. Nas palavras de James Cone, teólogo da teologia negra e da libertação, “a ressurreição de Cristo é a manifestação de que a opressão não derrota Deus, senão que Deus a transforma em possibilidade de liberdade”. Assim, a morte não tem a última palavra e não é ela quem determina nossos atos a atitudes. É Deus quem destruiu a morte na ressurreição de seu Filho Amado. Por isso, podemos proclamar que, em nós, através da ressurreição de Jesus Cristo, a vida ganhou todo o espaço. Podemos, sim, recobrar a coragem e viver a liberdade dos filhos de Deus sem estar subjugados pelas forças inibidoras da morte.

Nossa “feição” deve revelar a esperança. Esperança que é-nos dada pela ressurreição. Esperança que nos vem do “Deus da esperança”. Deus que está diante de nós, que nos precede na história, que prepara o caminho, que está à frente de seu povo, que nos chama: “Vem”. É o Deus da ressurreição do Cristo que nos conduz à vida eterna. Esse Deus “habitará” junto aos seus na terra prometida e esperada; “habitará” junto aos seres humanos na nova criação de todas as coisas em sua verdade. Assim, Deus vem de seu futuro ao encontro dos seres humanos, abrindo-lhes novos horizontes em sua história, e que os moverão a partir rumo ao desconhecido e que os convidarão ao novo início.

O cristianismo é totalmente esperança confiante, direcionamento para frente e disposição para a partida. A preocupação não está no que passou, mas sim, no que há de vir. Futuro é algo próprio do cristianismo, é elemento da fé cristã, é o tom das canções que entoamos nas celebrações, é a cor com que pintamos a aurora de um novo dia. A fé é cristã porque é fé pascal. Crer significa viver no presente do Cristo ressuscitado, na expectativa do vindouro reino de Deus. Na esperança criativa e operante da vinda de Cristo fazemos as experiências cotidianas da vida. Nas palavras de Moltmann “nós aguardamos e temos pressa, nós esperamos e toleramos, nós oramos e vigiamos, somos ao mesmo tempo pacientes e curiosos. É isso que torna a vida cristã excitante e movimentada”. Por isso crer no início, crer na vida, crer na ressurreição, que um “outro mundo é possível” torna os cristãos para sempre capazes de futuro.

Éderson Iarochevski


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