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DEUS CUIDA DE NÓS

22 de março de 2011

"Deus cuida de nós"

Quando estamos com algum problema, sempre haverá alguém especializado na área para nos auxiliar. Sempre há um profissional para nos dar assistência no que precisarmos. Basta observar as questões relacionadas à saúde, da pontinha do pé ao último fio de cabelo: há profissionais que, bem formados ou não, estão esperando para ajudar a resolver quaisquer problemas que, por algum motivo, apareceram externa ou internamente em nosso corpo.

Mas, poderíamos nos perguntar: há alguém que possa cuidar de nós por inteiro, valorizando todo o nosso ser, e não apenas particularidades? Sim, existe! É Deus.

As pessoas, por sua condição limitada, não podem abarcar em si todos os conhecimentos. Não podemos ser bons em tudo. É algo impossível. Vamos, no passar da vida, nos especializando nas áreas que por algum motivo um dia nos atraíram. E, a partir daí, organizamos nossa vida e oferecemos ao mundo e às pessoas um serviço que é resultado de anos de estudo e formação. E sempre, para aqueles que não se acomodam, é tempo de aprender ainda mais, ser cada vez mais especializado na sua função. Nos dias atuais, como nunca, vivemos em uma sociedade de especialistas.

Deus não é especialista. Ele não se preocupa apenas com uma situação, um problema, uma dificuldade. Ele está atento ao homem todo e a todo o homem. Deus quer uma mente com pensamentos sadios e retas intenções. Mas deseja, também, que o coração, sentimentos e afetos assumam comportamentos ordenados e equilibrados. Que o corpo não seja apenas o bem material que nos faz existir e ser percebido, mas que, realmente, seja um espaço sagrado onde a humanidade da pessoa seja dignificada sempre. O salmista nos lembra: “descarrega teu fardo no Senhor e ele cuidará de ti” (Sl 55,23). Mas, corremos o risco de deixarmo-nos levar por imagens erradas de Deus e não deixarmos, simplesmente, Deus ser Deus.

Deixar Deus ser Deus

Deus não é um contador. Muitos, com uma religiosidade deformada e uma evangelização distorcida, crêem em Deus como se ele fosse aquele que fica com uma prancheta na mão contabilizando os ganhos e perdas que temos durante a vida e, dependendo do que você realiza ou deixa de fazer, é que virá sua recompensa ou castigo. Deus nos ama porque simplesmente ama. Seu amor é gratuito e sem limites. Deus aposta em nós. Ao voltar seus olhos para nós ele está atento ao que poderemos ser e não apenas ao que somos. Deus é aquele que está no eterno presente nos chamando: “Vem, eu estou aqui te esperando”.

Deus nos quer desenvolvendo o que há de melhor em nós. Deus não dá tudo pronto, mas vai nos aprontando através da força e poder do seu Espírito que em nós habita e faz de cada pessoa um ser de possibilidades ilimitadas. Deus não está contando o que você fez ou deixou de fazer: ele está apostando no que você poderá ser e em tudo o que ainda tem para realizar. Seu amor nos envolve tanto que é vivendo nele e para ele que teremos a consciência do que significa tal amor. “Nisto conhecemos o amor: Jesus deu sua vida por nós” (1Jo 3,16).

Deus não é um banqueiro. Parece brincadeira, mas muitas pessoas recorrem a Deus como se ele fosse um banqueiro que irá financiar a vida e tudo o que precisa para viver de forma confortável e sem problemas. Sabemos que Deus nada tem a ver com esse desejo mesquinho de riquezas, fama e poderes desordenados. Deus é aquele que nos dá a força necessária para continuarmos lutando nessa vida. O céu começa nas pedras. A vida tem suas turbulências, seus riscos. E acreditar em Deus não quer dizer que não vamos ter desafios, no entanto, teremos vitalidade e dinamismo para encarar os problemas de frente. Deus nos dá coragem, força, perseverança e, o mais importante, sua presença viva entre nós, confirmada pelo evangelista que, com as palavras de Jesus, afirma: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,20). Deus cuida de cada um com um amor que não se cansa. E esse amor é eterno. Não tem interesse ou segundas intenções. Ama porque simplesmente ama.

Deus não é terapeuta. Deus não é aquele que escuta nosso problema, a situação que estamos vivendo e depois se desliga da gente, não quer se envolver. Ao contrário, Deus se envolve em nossa vida, em nossa caminhada histórica. Como um pai e uma mãe se preocupam 24 horas com seu filho, assim é Deus para conosco. Quando rezamos, não podemos pensar que estamos fazendo uma consulta com Deus, mas sim um diálogo com quem ama infinitamente, e que deseja nos amar mesmo nas limitações. Deus não é aquele que só cuida de quem já está bem. Ele está atento, com amor infinito, a todos os seus filhos e filhas amados, não importa a situação em que estejamos. Podemos estar no fundo do poço, no meio do deserto, na desolação total, Deus estará conosco para aliviar nossos fardos, cuidar de nós com carinho e garantir a coragem necessária para continuarmos a marcar a passagem na história promovendo o bem. “Ele o achou numa terra do deserto, num vazio solitário e ululante. Cercou-o, cuidou dele e guardou-o com carinho, como se fosse a pupila dos seus olhos” (Dt 32,10).

Deus nos ama por inteiro. Não se preocupa com particularidades. Nosso Deus não é especialista de alguma área. Ele é o amor que ama tudo aquilo que somos. Deixemos Deus ser Deus, isto é: aquele que ama simplesmente porque ama.

Éderson Iarochevski

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SENHORES E SERVIDORES DO MUNDO

8 de março de 2011

 

Como o homem pode viver dentro da história e na terra de tal forma que não perca o destino futuro e eterno? É uma questão a ser respondida por cada habitante da terra, casa da humanidade. Há uma vocação terrena no ser do homem. Ele é chamado a realizar aquilo que é e aquilo que Deus quis quando lhe confiou o mundo e a história. É preciso saber que a primeira vocação do homem consiste em ser homem. E este homem realizará sua humanidade caso se mantiver em harmonia com toda a realidade que nele está e com a que o cerca.

Então, é inadmissível que uma pessoa se reduza ao ponto de se isolar de si mesma e de tudo aquilo que a rodeia. Quantas pessoas que, aos poucos, vão “morrendo” pelo simples fato de se fecharem em suas casas, quartos, idéias moralistas, sentimentos desordenados, egoísmo limitador. Existimos para fazer a diferença, não para ser indiferentes. Somos chamados e precisamos dar uma resposta. O convite que nos é feito é para que sejamos co-criadores e organizadores (administradores) da terra. Qual é nossa resposta?

Homem: extensão das mãos de Deus no mundo

O homem é um ser chamado a administrar a natureza e a ser senhor. Explicitamente lemos em Gênesis 1,26: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre a terra. …crescei e multiplicai-vos e enchei a terra e submetei-a”.  Já em Gênesis 2,18-20, Deus permite que as criaturas desfilem diante do homem e é ele quem lhes confere o nome. Dar o nome das coisas é, para a cultura semita, possuí-las e ser senhor delas. Domina-as denominando-as.

Ao homem é necessário responder: para que ele existe na terra? Qual é sua vocação? É chamado a ser imagem e semelhança de Deus enquanto ele, como Deus, cria e organiza a terra. Deus do nada tirou tudo e confiou no homem como cooperador. Deus não intervém diretamente na história, mas conta com a extensão de suas mãos: o homem. Nas palavras dos Pais da Igreja, “…o órgão de Deus no mundo é o homem”. A ele cabe ser senhor do mundo e não um escravo dele. Portanto, não é possível existir oposição entre o mundo que queremos construir e Deus a quem devemos amar.

A maneira como a sociedade se organiza hoje, os padrões que dominam no que se refere à produção e consumo causam devastação ambiental, redução de recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. O que o desenvolvimento traz de benefícios não está sendo partilhado equitativamente e aumenta o fosso entre pobres e ricos. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causa de grande sofrimento.

Somos desafiados todos os dias. A escolha é nossa. A decisão precisa ser tomada. É urgente formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, caso contrário nos arriscamos a nos destruir e pôr fim à diversidade e à vida. É necessária uma mudança fundamental de nossos valores, instituições e modos de vida. O desenvolvimento humano é primariamente ser mais, e não ter mais. Enquanto a nossa fome e sede se resumir ao dinheiro, lucro, produção e consumo, continuaremos traindo a confiança que Deus depositou em nós. Não há traição maior do que corromper o projeto de Deus confiado à humanidade. Temos conhecimento e tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir os impactos no meio ambiente. Temos mais oportunidades do que limites, em nosso tempo. O que nos falta é a coragem de responder sim ao projeto que garante vida à vida do planeta e da humanidade.

Todos nós queremos ser lembrados por algum feito importante. Estamos na história para fazer história. Não somos frutos do acaso, somos vocacionados. Queremos ser lembrados pelo despertar de uma nova reverência diante da vida, por um compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela rápida luta pela justiça, pela paz e pela alegre celebração da vida.

Éderson Iarochevski


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