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LÁGRIMAS DE UMA MÃE

12 de fevereiro de 2011

 

Maria aos pés da Cruz (Michel Ciry)

Em uma tarde chuvosa eu estava diante de uma mulher. Ao contar suas perdas nos últimos anos fez da sua face terra encharcada de lágrimas. Lágrimas que contavam uma história de dor e saudade.

As lágrimas ficaram mais intensas quando ela se lembrou da torta de limão que a filha fazia da qual, até hoje, não consegue repetir a receita. A filha morreu aos dezoito anos, vítima de câncer. Filha maravilhosa, atenciosa, linda, inteligente, ingressando na faculdade, namorando, se preparando para ser uma grande mulher. A doença chegou, o tempo ficou curto, e os sonhos foram arrancados.

As lágrimas se multiplicaram quando, em menos de dois anos, ela perdeu o filho de 19 anos: por fatalidade, perdeu a vida afogado. Filho muito amado e querido de todos. Sua marca registrada era a solidariedade. Adorava participar de campanhas solidárias em vista dos mais necessitados. Para ajudar alguém bastava chamá-lo. Coração de ouro. As águas tomaram a vida do filho, águas devolvidas ao rio, aos poucos, nas lágrimas nascidas da saudade.

Nesta mãe se condensa uma grande tristeza. É uma dor grande, sem nome.. Um sofrimento não comparável aos pequenos sofrimentos que temos na vida. Quando uma mão perde um filho é um pedaço do seu coração que está sendo arrancado. Perda insubstituível.

Não é fácil perder o que mais amamos. Parece que a vida nos traiu, a anormalidade veio nos visitar. Para uma mãe é impossível crer que os filhos partam antes. Perder dói. Ninguém quer perder. Mas, se a perda for inevitável, é preciso enfrentá-la. Por mais sofrido que seja, é necessário se reconciliar com a vida. Muitas vezes já ouvimos: “Não são as perdas nem as quedas que podem fazer fracassar nossas vidas, senão a falta de coragem para levantar e seguir em frente”..

Saber ganhar quando se perde

É importante ter consciência do que se perdeu, para garantir que os ganhos serão vividos com maior intensidade. A dor é inevitável, mas é preciso enfrentá-la. Nada adianta fingir que a situação não é sua. É preciso renovar as forças para continuar vivendo.

Aquela mãe, aos poucos, vai refazendo sua vida. Vai firmando seus passos, fortalecendo seus pensamentos, vivendo a fé, valorizando tudo aquilo que está à sua disposição. Faz da memória dos filhos algo que lhe garanta amor pela vida que é presente de Deus, e não vontade de sumir ou desaparecer de tudo e de todos.

A perda foi inevitável. Nas duas situações, ela nada poderia ter feito. O que fará a diferença é o que fazer depois dos acontecimentos. O mais importante, mesmo em meio à dor e à saudade que não passa, mas que se entende, é que ela não se sente uma derrotada. Pelo contrário, sua grande causa é ser uma mulher vitoriosa na vida: “perdi, mas não desisti”.

Como vencer diante de tão grandes perdas?

A mãe descobriu que, realizando o que os filhos mais gostavam de fazer, pode manter viva a memória de cada um deles, e assim continuar vivendo com menos sofrimento e maior paz no coração. A filha adorava cozinhar: hoje, a mãe é uma cozinheira de mão cheia. Pratos saborosos e feitos com todo amor. Na certeza da alegria da filha, fazer comida é uma das grandes alegrias da mãe.

Descobriu também que ajudar os outros é um jeito bonito a cada dia ressuscitar seu filho. Muitas vezes ela sabe que alguém precisa de ajuda: faz questão de ser uma mão solidária. Mesmo não tendo muito, sabe partilhar do seu pouco. Se a alegria do filho era ajudar alguém, a mãe descobriu que sua alegria e vontade de viver estão onde alguém dela precisa dela e pode ajudar gratuitamente.

O grande ganho, porém, foi a chegado dos netos. Um menino e uma menina.  Neles está o sinal de que a vida precisa ser cuidada. Aquela mãe-avó ama a vida amando com todo coração seus netos. Seus filhos não estão mais em casa, mas sua casa recebe todos os dias dois anjinhos que ela faz questão de dizer serem as pedras preciosas da sua vida. Netos que são mais que filhos. Filhos que são amados na presença encantadora dos netos. O sofrimento de uma mãe compensado na alegria de ser avó.

Hoje, a vida ganha cada vez mais espaço no coração daquela mulher. Suas lágrimas são sinal de que é uma mulher que ama, é uma mulher-flor, sensível às coisas que lhe acontecem. Seus compromissos, o trabalho, os gestos solidários, o cuidado com os netos, com a casa, apresentam uma mulher de aço que não se curva diante das perdas: posso sofrer, mas não vou me entregar ao acaso.

A vida não é só de derrotas. Nem só de vitórias. Quando perdi, o que eu ganhei? Quando eu ganhei, a que precisei renunciar?

Lya Luft lembra que é necessário recriar-se no momento de perda: “Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada”.

Se você perdeu em sua vida, não feche os olhos com medo de viver. A vida lhe possibilitará muitos outros ganhos. Mas, para isso, é preciso estar com os olhos do coração abertos. Sofrer faz parte. Buscar a alegria da vida, também.

Éderson Iarochevski

 

DIGNIDADE FERIDA

5 de fevereiro de 2011

Atentar contra a dignidade humana é o pior crime que alguém pode cometer. A dignidade é o que nos mantém de pé, nos eleva, faz sonhar alto, é a possibilidade de futuro. É o que garante nossa identidade, nos identifica como ser humano portador de valores e princípios que norteiam uma vida mais saudável.

Mas para que nossa dignidade não seja afetada é preciso exercitar a capacidade de fazer boas escolhas. Uma delas: as opções que fazemos para estarmos mais inteirados do mundo, especialmente quando ligamos a televisão e nos é dado a chance de escolher um canal televisivo e seus respectivos programas.

Há 11 anos, uma das opções de escolha é o BBB (Big Brother Brasil). Não é o único reality Show na televisão brasileira, mas como foi o pioneiro, é um dos mais acessados. O produto é oferecido e fica a critério do telespectador tomar a decisão de recebê-lo em sua casa ou não. Para fazer uma escolha saudável você precisa ter consciência dos princípios que regem sua vida e se o produto que lhe é ofertado está de acordo com o que você acredita. Adquirir produtos, mesmo sendo programas televisivos, é uma decisão pessoal. Nada adianta culpar os outros pela escolha malfeita porque, o último sim ou o último não, são propriedade e responsabilidade sua.

Se você está se desenvolvendo como pessoa, abrindo novos horizontes, a cada dia esculpindo uma pessoa melhor,  pode estar certo de que é por livre e consciente decisão sua; se está fazendo o contrário de tudo aquilo que lhe faz ser uma pessoa mais digna, a responsabilidade também recai sobre você.  Segundo o Mahatma Gandhi  “A dignidade pessoal e a honra não podem ser protegidas por outros, devem ser zeladas pelo indivíduo em particular”. É preciso saber o que defender para saber o que excluir.

O que você defende em sua vida?

Defende as relações de reciprocidade e solidariedade? Então não é conveniente ver um programa de televisão que força seus “Brothers” a ficarem se caçando, onde o outro é sempre visto como um inimigo que precisa ser eliminado, onde a alegria dos participantes é quando o outro é derrotado. Passar por cima é o objetivo maior. Um lugar onde você não faz amigos, mas sim, aliados de guerra, de modo nenhum guarda a dignidade do ser humano. Quer garantir relações fraternas e justas? Exclua da sua lista de programas o BBB 11.

Defende a alegria de celebrar a vida? Então evite ver um programa que valoriza a bebedeira em excesso, a pornografia pública, e faz das relações humanas uma simples relação objetal. Como se cada pessoa fosse uma latinha de refrigerante que depois de oferecer o que dá prazer é pisada e jogada no lixo. A alegria não é fruto da embriaguez. Os amores verdadeiros não nascem da perversão sexual, as amizades não florescem nos relacionamentos inconstantes. Para celebrar não é preciso desmoralizar. Festa não pode ser sinônimo de degradação da dignidade do ser pessoa. Quer garantir festas mais sadias e alegres? Exclua da sua lista de programas o BBB 11.

Defende a dignidade do outro? Então não se engane com um programa que oferta a garantia de que você só vai vencer (ser rico e tornar-se uma celebridade) se você tirar o outro do seu caminho. Como vamos garantir o respeito à outra pessoa se a cada dia somos seduzidos a ver o outro com um mal que precisa ser eliminado?  Onde o grande compromisso que tem é saber que precisa colocar os seus “Brothers” no paredão e fazê-los viver a dor angustiante de a qualquer momento desaparecer dos holofotes e estarem convencidos que são uma carta fora do baralho e que decidam nunca mais atrapalhar ninguém. Que irmão faz isso com outro irmão? É destruição pública dos laços de fraternidade que garantem à nossa existência maior sabor de viver. Quer ter o prazer de se amar e ser amado sem nenhum interesse? Exclua da sua lista de programas o BBB 11.

Vamos dar ibope para o que garante a defesa de nossa dignidade. Vamos dar espaço para o que nos faz avançar como pessoas, e não o que nos faz regredir. Na crônica de Fernando Veríssimo fica o bom e inteligente conselho: “Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa…, ir ao cinema…, estudar…. , ouvir boa música…, cuidar das flores e jardins… , telefonar para um amigo… , visitar os avós… , pescar…, brincar com as crianças… , namorar… ou simplesmente dormir?”. Não vamos trocar o que a vida tem de melhor por uma Baita Baixaria Brasileira.

Éderson Iarochevski



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