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PENSE MELHOR: REFORME O PENSAMENTO

28 de janeiro de 2011

É preciso reformar o pensamento para garantir que ele tenha credibilidade, tenha vida. Somos assim mesmo, seres em reforma permanente. Não atualizar a maneira como se pensa é um grande risco. Nada mais prejudicial à vida do que a incapacidade de repensar-se a si, aos outros e o mundo. Alerta Henri Bergson:“Pense como um homem de ação, atue como um homem de pensamento”.

Fascina em Jesus a capacidade de pensar a vida de outro ângulo. Ele pensa como Deus pensaria. Quando Jesus pensa e reflete sobre uma situação é Deus mesmo pensando. Em todas as palavras, atos, parábolas,  Jesus está afirmando a presença do Reino de Deus. É na práxis de Jesus que ele apresenta um novo pensar diante da vida: conduz o pensamento dos homens próximo do jeito de pensar de Deus. Se nossos pensamentos não são os pensamentos de Deus mas nos fazem encontrar com Jesus, podemos afirmar que estamos bem mais perto do pensar de Deus. Pensar como Jesus pensou é entrar na dinâmica criativa de Deus.

Quando pensamos, sozinhos, em Reino de Deus, por exemplo, corremos o grande risco de associar o projeto de Deus com o projeto dos homens. Nossa forma de pensar é limitada. Enquanto pensamos em um determinado espaço geográfico habitado por cidadãos, o Reino de Deus é pensado a partir do ecúmene, ou de todo o mundo habitado pelos homens. O que nós diminuímos, Deus expande.

Pensar o Reino de Deus

Reino de Deus é a presença de Deus entre os homens, presença salvífica, ativa e encorajadora, afirmada e acolhida alegremente pelos homens. Reino de Deus nada tem a haver com invasão, violência, terrorismo. É presença salvífica livremente oferecida por Deus e afirmada pelos homens.

E como podemos confirmar essa presença salvífica?

Esta presença torna-se concretamente visível na justiça e em relações de paz entre homens e povos, no desaparecimento das doenças, injustiças e opressões, em novidade de vida que expele tudo o que estava morto e era mortal. Reino de Deus é a nova relação de conversão do homem com Deus que se expressa no novo tipo de relações estabelecidas entre os homens em vida em comum reconciliada em ambiente natural pacífico. Reino de Deus é a eliminação do doloroso contraste entre governantes e governados. Reino de Deus é a libertação integral do homem. Tudo o que limita o homem para sua realização com filho de Deus é deixado para trás. Reino de Deus é novidade que não se acaba. E felicidade que não passa.

Bem-aventurados vós, os pobres, pois pertence a vós o Reino de Deus” (Lc 6,20). Aqui, pobres tem o significado, no sentido socioeconômico, de pessoas destituídas de meios e oprimidas. O fato de que a prática do Reino de Deus da parte de Jesus era a boa notícia para os pobres e repudiados não significa, porém, que o “Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6, 33) seja diretamente para esses pobres libertação da pobreza, da falta de meios e da opressão. Significa que Jesus arranca os pobres do autodesprezo por serem marginalizados.

Como afirma o teólogo Jung MoSung “a dor da fome se mata com a comida, mas, a dor da humilhação de passar fome é uma dor que não passa”. Jesus restitui-lhes a dignidade de homens e filhos de Deus. Aquele que, numa sociedade em que é deixado à margem como leproso, contemple alguém como Jesus que vem ao encontro com boas intenções e lhe oferece “comunhão de mesa”, é arrancado do autodesprezo em conseqüência da marginalização social. O teólogo E. Schillebeeckx diz: “a pessoa humilhada, desprezada e repudiada, que recebe de alguém as boas-vindas, por ele é acolhida e toma com ele um copo de vinho, sente-se animada em sua humanidade e definitivamente aceita, e ousa voltar a sorrir”. Assim os pobres e desprezados são redimidos e libertados por Jesus. É o Reino de Deus acontecendo concretamente.

Éderson Iarochevski

 

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PRINCÍPIO DE VIDA, PRINCÍPIO DE MORTE

20 de janeiro de 2011

São Pedro Claver

Acompanhamos nestes últimos dias a tragédia avassaladora que invadiu a região serrana do Rio de janeiro. Quase mil as vítimas das torrentes, da lama, dos desmoronamentos. Quanto sofrimento e dor!

Muito é falado sobre perder e ganhar na vida. Mesmo que o mal aconteça, a ele não se pode curvar. Não podemos nos entregar de bandeja aos sofrimentos que as situações nos acarretam. Mas, como não ficar totalmente abatidos diante de tamanho sofrimento? O que são meus problemas em relação àquele que perdeu sua casa e toda sua família? Nossas angústias existências perto daqueles que agora estão sem a presença dos amigos, sem um teto para se abrigar, até mesmo sem uma cidade (igreja, escola, hospital, praças, etc.) com que se identificar? É verdade: muitas vezes nossos sofrimentos são por coisas tão mesquinhas que quando estamos diante de uma tragédia que consome a vida de uma comunidade ficamos até envergonhados de dizer que temos problemas em nossa vida.

Freud apresentava a luta interior que existe em cada um de nós, entre Eros (princípio da vida) e Tânatos (princípio de morte). Por toda a vida essas duas realidades estarão em contínua tensão. Uma sempre prevalecerá. É como se estivéssemos com dois leões dentro de nós: o leão bom e o leão ruim. Ao que você mais alimentar será o que irá conduzir e orientar seus pensamentos, sentimentos e ações. Na tragédia que acompanhamos, notam-se os dois princípios presentes nas pessoas, na sociedade.

Diante do sofrimento alheio: qual nossa atitude?

Quanto uma tragédia acontece, como a que aconteceu na região serrana no rio, logo fica o alerta para o perigo das contaminações e doenças que, rapidamente, se aproximam através do grande volume de sujeira e das águas contaminadas que ali passam. Logicamente, as pessoas precisam sobreviver. Enquanto a ajuda não chega, as pessoas contam com as possibilidades de sobreviver com o que ainda resta na comunidade. O comercio é uma das possibilidades de encontrar o básico. Mas, quando você vai, por exemplo, comprar 5 litros de água e o valor chega a quase 50,00 reais, é possível pensar: o princípio de morte invadiu o dono do estabelecimento. Ganhar dinheiro sobre o sofrimento do outro é um descaso para com a vida, é ser ave de rapina. O principio de morte está presente todas as vezes que alguém se aproveita de uma situação limite para se beneficiar, e assim não considerar as necessidades urgentes do outro.

Mas, os gestos concretos de solidariedade evitam que o mal prevaleça. Quantas famílias disponibilizaram sua casa, comida, aconchego e carinho para aquelas que nada mais têm. Sem medo que o espaço fique pequeno, ou que a comida que na despensa acabe, o mais importante é garantir a proteção e o sustento das pessoas que precisam. Não se preocupam com o que não têm, mas oferecem com amor o pouco que possuem em vista da dignidade daquele que padece privação. Um bom cristão é aquele que ajuda a aliviar o peso da cruz daquele que sofre. Oferece-lhe o direito de continuar acreditando na vida, saber que não está sozinho. É alguém se dispõe a cuidar, a valorizar e fazer o que for possível para garantir a vida das pessoas que pela tragédia ficam desestabilizadas fisicamente, emocionalmente. Garantir o a vida do outro é dar espaço para o princípio da vida.

Quem se ajoelha diante de Deus não se curva diante das dificuldades”. É nesta certeza que muitas pessoas estão ajudando outras. É assim que pessoas estão recomeçando suas vidas. Quer ser sinal de vida para alguém? Alimente o princípio de vida que há em você. Diante da dor e sofrimento do outro não preciso ter o “remédio” para curar todas as dores, mas o pouco que tenho posso oferecer com prova de amor, solidariedade, e certeza de que é a vida que vale a pena ser valorizada.

Éderson Iarochevski

CRER EM DEUS EM TEMPO DE DESCRENÇA

7 de janeiro de 2011

Como anda nossa relação com Deus? Cremos ser ele o Criador de todas as coisas, o aceitamos como o Pai que nos ama e nos reconhece como seus filhos?  Confiamos nossa vida, nossos sonhos e projetos a Deus?

Vivemos o tempo das possibilidades quase infinitas. Tudo parece ser possível. Até mesmo crer e não crer. Basta uma decisão pessoal.  Um mundo que vive de um pluralismo sem igual e que relativiza tudo aquilo que possui valor, e promete garantir identidade a uma pessoa, comunidade e até mesmo, nações. Podemos afirmar que o indiferentismo que marca nosso tempo é a grande herança de uma sociedade relativizadora de tudo aquilo que faz a vida ter mais sentido. E isso é tão verdade que até mesmo no espaço religioso acontece, e com grande força.

É sabido que a cultura das cidades exerce pressão cognitiva forte sobre a consciência dos seus habitantes que viviam antes em ambiente religioso uniforme e mudaram agora para a grande cidade. Basta perceber o movimento que se dá nas pessoas que saem do ambiente rural, com uma religiosidade “firmada”, e migram para a cidade. Aos poucos, estas pessoas, caso não se insiram em uma comunidade bem constituída, perdem os laços que as unem a uma vivência religiosa que orienta sua vida.

Esta pressão não se dá apenas exteriormente, no sentido de mudança de espaço, mas também, e de forma impactante, interiormente, alterando pouco a pouco a estrutura da personalidade da pessoa. O que acontece é que muitos abandonam silenciosamente a fé em Deus, sendo secularizados antes que eles próprios percebam; outros se sujeitam à pressão social de dentro e de fora; outros começam a “pechinchar” com sua fé: abandonam certas práticas saudáveis de fé, aderem a outras.

EU CREIO EM DEUS

Creio em Deus toda vez que faço parte de uma comunidade. Mesmo valendo-me do conhecimento de que nos tempos atuais é o individualismo e o egoísmo que imperam não me deixo ser algemado por tais anti-valores. O cristão reconhece que é na comunidade que sua vida pode ser vivida de forma saudável. A comunidade é uma necessidade pessoal, sociológica e religiosa. Na comunidade nos apresentamos e somos apresentados. É diante do outro que existo, que me afirmo como gente, como filho de Deus. Se sou filho de Deus e os outros também o são, vivo em comunidade para garantir a irmandade em Deus. Cada vez que se propõe a viver em comunidade, você afirma crer em Deus.

Creio em Deus quando aceito minha condição humana. É na minha humanidade limitada que reconheço a presença de Deus. Quando mais me descubro como ser humano e reconheço em mim as limitações e possibilidades que guardo comigo, mais confirmo crer em Deus. Se me aceito como pessoa, aceito Deus. Deus se fez gente, se fez homem para garantir que seus filhos o reconheçam como o verdadeiro amor, amor que deixa de ser em si para ser totalmente outro, assume a nossa condição a fim de amar por completo sua criatura querida. Não é sendo super-homens que apreenderemos a crer e se relacionar-nos com Deus.  Não é com show de milagres espetaculares que vamos crer em Deus, mas sendo gente que vive como gente, que faz da vida uma oportunidade de se amar e amar o outro, e descobrir na própria condição humana a presença atuante do Deus da vida.

Creio em Deus quando afirmo que é o bem que prevalecerá. Hoje o pessimismo ronda a mente das pessoas, quer no nível pessoal ou social. Todos os dias somos apresentados a situações de vida que parecem ser o fim ou a realidades que, à primeira vista, não tem mais solução. O caos é noticia diária. Mas, para quem crê em Deus, é o bem a notícia que tem mais força e que permanecerá. Embora não se possa eliminar todo o mal do mundo, da história, o olhar daquele que crê está voltado para as práticas e realidades que garantem a presença do bem. As boas ações, as imagens vivificantes, as palavras que fazem crescer e amadurecer. Quem crê não fica construindo muros em seus pensamentos, sentimentos e ações, não se fecha sobre si, mas, ao contrário, é um construtor de pontes. Não se contenta apenas com o que há, o que se tem. Quem crê é um conquistador de valores, de idéias, de sonhos, é alguém que não para, está sempre em movimento, pois sabe que Deus nos espera sempre mais à frente e não nos quer voltando para trás e assim atrasando nossa vida.

Éderson Iarochevski

NÃO SOMOS DE UM TEMPO SÓ

6 de janeiro de 2011

Novas folhas - Alex Kratz

Não somos de um tempo só. Somos o resultado da confluência do passado, do presente e do futuro.  Negar o passado é rasgar sua identidade, cortar suas raízes, matar a história construída e que lhe trouxe até este determinado tempo. Rejeitar o presente é viver alienado num um tempo e lugar que não existem, querer fugir sem, na verdade, ter para onde escapar daquilo que é, por direito, seu bem principal. Não considerar o futuro é oferecer um testamento antecipado à sua vida, é morrer simbolicamente, é deixar de ser aquilo que ainda você poderá ser, é assassinar a capacidade criativa de sonhar.

Nossa vida é um movimento que avança para frente. Não podemos decidir parar ou voltar para trás. Mas é preciso saber que tudo aquilo que passou e os acontecimentos atuais não podem ser desconsiderados. Somos o resultado de tudo o que aconteceu e acontece. O amanhã melhor que queremos será fruto de todo um caminho já percorrido. Passado, presente é futuro devem andar juntos. Nenhum pode menosprezar o outro. Mas, para que cada um tenha seu valor e garanta seus bons frutos, é necessário dar-lhes o devido respeito e atenção.

Passado, presente e futuro – tempos da gente

Muitos sofrem com o passado. Mágoas, ressentimentos, projetos abortados, palavras não ditas, traumas, enfim, tantas formas de ficar aprisionado num tempo que não volta mais. É claro que todo sofrimento deixa suas marcas e elas nos acompanham para sempre, mas é possível superá-las quando pensamos de um jeito certo aquilo que nos aconteceu. Se algo não saiu como você queria, não é motivo para deixar de buscar o que o fará mais feliz. O que nos trouxe até o tempo presente nos ensina: o que deu errado é desafio para na próxima vez fazermos com mais atenção para acertar e garantir o bem, a nossa vida. O passado pode ser, de verdade, um amigo que ensina a não ter medo de recomeçar.

Quantas pessoas dizem ser apenas o presente o que importa. O carpe diem (viva o dia) de Horácio está em alta. É aproveitar o dia e esquecer que amanhã a aurora nos chama para novamente viver. Viver tudo em um só momento, fazer de uma festa, de uma volta de carro, de um passeio a grande aventura e, assim, colocar em risco a vida. O tempo presente é um grande presente. É ele a garantia de que estamos vivos. É ele que exige bom discernimento diante das situações, bons projetos para se realizar no decorrer dos dias, é ele que deseja que valorizemos o que foi bom e não tenhamos medo do que ainda não chegou. O tempo presente é amigo que nos acompanha e nos quer vivendo com olhos voltados para frente. O seu maior presente é garantir a cada um que não somos apenas fruto do que acontece agora, mas sim somos uma simbiose com o passado que nos fez aqui chegar, e do futuro que almejamos viver.

Medo do futuro. Do que ainda não é nosso. Fazer do amanhã um mistério. Se esconder para não enfrentar o desafio de viver o amanhã. Sofremos com aquilo que não preparamos. Não há o que temer em relação ao futuro. Ele apenas precisa de nossa consideração. O futuro é preparado através do passado e, principalmente, do presente. Pensar, planejar, projetar o futuro é dizer sim à vida. Quando o amanhã nos interessa, a vida ganha sentido. O futuro é o amigo que nos espera para que com ele possamos viver dias melhores, tempos melhores.

O passado, o presente e o futuro são como amigos que podem nos conduzir à uma vida melhor de se viver. Basta tecer um bom relacionamento com cada um deles. Não desmerecê-los é possibilidade de crescimento, de desenvolvimento pessoal. Afirmou Epicuro, filosofo grego: “as pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo”.

Éderson Iarochevski


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