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SABER VIVER É SABER ESPERAR

15 de novembro de 2010

Solidão Criativa (Guido Cadorim)

Esperar por algo ou alguém é um exercício saudável, mas exige disciplina. Vivemos um tempo de poucas esperas. Muito se perde quando não se dá o tempo necessário para que as realidades que desejamos cheguem até nós. A pressa afasta o que precisa de tempo para chegar. Há pouca espera quando começamos um curso e logo queremos dominar todo o conhecimento. A pressa consome um relacionamento quando, em poucos dias, os que vivem o processo de se conhecer já se dão o direito de dizer que se amam e que não viverão mais um sem o outro. O amor não se manifesta em poucos dias! A pressa maltrata quando ousamos definir alguém logo à primeira vista, e assim perdemos a oportunidade de conhecer verdadeiramente uma pessoa. A pressa nos faz guardar mágoas ao sairmos de perto de uma pessoa com quem tivemos conflito e não oferecemos um tempo para que se esclareça o que nos fragilizou.

Muito se perde, na pressa de viver. Viver é um tempo que vale gastar, por isso é necessário dar o devido tempo a tudo o que fazemos.

Saber viver é saber esperar. A Palavra de Deus nos recorda que “Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu” (Ecl 3,1). A generosidade de Deus não define o tempo para que façamos o que almejamos. É nós, em nossa liberdade, presente de Deus, que decidimos o tempo para cada coisa.

Então, por que vivemos na pressa?

Entramos na lógica do mercado que, a cada minuto, oferece uma novidade para os consumidores. Grande número de pessoas vive desta forma. A pressa de se tornar novidade para alguém nos faz envelhecer precocemente e, assim, deixamos de viver a vida de uma forma sadia e em tempos certos. Muitos são aqueles que na sua agenda não têm espaço para sua família, para um passeio, um descanso, uma visita a um amigo querido. Dominados pela pressa, perdemos o encanto pela vida que passa.

É preciso saber que o exercício da espera nos deixa:

Mais saudáveis: a ansiedade deforma a alma. Como um câncer vai agredindo uma célula, o mesmo a ansiedade faz com a alma. Quando damos tempo ao tempo, ficamos mais saudáveis porque evitamos apressar aquilo que chegará, mas no tempo certo. Saber esperar garante saúde para a mente e o coração. A pessoa deve até dormir e comer de um jeito certo, caso contrário torna-se amante da insônia e escravo da geladeira. Quando sabemos esperar, nosso corpo sofre menos, nossos pensamentos são mais coerentes e não confundimos sentimentos.

Mais dispostos a amar: o amor reclama tempo para existir. Ninguém conquista alguém em apenas um dia. É preciso viver o tempo da espera que o amor exige. Amor é realidade onde histórias se confluem. Ninguém ama na correria. O amor é exigente, mas é paciente. Quem ama de verdade sabe que amores não nascem de improviso. Ele precisa de tempo para se estabelecer. O amor é como o sonho de construir uma casa: começa na mente, vai para o papel, depois, aos poucos, vai se construindo e somente a um tempo de muito trabalho e paciência chega-se à morada tão sonhada. Ainda assim, sabemos que reformas precisarão acontecer no decurso do tempo. Amar é como construir uma casa. Nunca estará completamente pronta, perfeita. Mas tudo aquilo que se vai construindo é valorizado porque se ofereceu o tempo para que o sonho pudesse se tornar tão bela realidade.

Mais sábios diante da vida: é a sabedoria que faz uma pessoa evoluir. A sabedoria faz com que a pessoa possa fazer o discernimento necessário para que suas escolhas não o traiam. Ninguém nasce sabendo, ensina a sabedoria popular. A sabedoria nasce de uma vida vivida. Sabedoria é fruto de uma maturidade conquistada no passar do tempo. O que sou hoje é resultado de uma caminhada. O que sou está conectado com o que fui.

O sofrimento se instala quando não permitimos aprender com o tempo. “O tempo que passou não interessa, e o tempo que virá, demora muito. É só o presente que vale”: pensar assim é colocar em risco a possibilidade de tornar-se sábio diante da vida. Ninguém é sábio por acaso: a sabedoria é filha do tempo. Oportunize o tempo certo é será verdadeiramente sábio.

Não sejamos dominados pela pressa, mas encantados pelo tempo necessário que garante sentido e significado à nossa vida.

Éderson Iarochevski

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BENDITAS SOIS, MULHERES!

6 de novembro de 2010

 

 

Maria Visita Isabel (Michel Ciry)

 

Poderíamos perguntar: o que seria da Igreja sem a presença feminina? Sem a delicadeza e co-responsabilidade das mulheres? É muito indicativo perceber que, na maioria das Igrejas, das atividades pastorais, da evangelização as mulheres estão à frente dos trabalhos. São elas que constituem a maioria de nossas comunidades, como lembra o Documento de Aparecida (n. 455): “são as primeiras transmissoras da fé e colaboradoras dos pastores, os quais devem atendê-las, valorizá-las e respeitá-las”.

Mas, esta constatação da participação ativa das mulheres na vida da Igreja não é uma realidade do nosso tempo. Com Jesus Cristo, as mulheres tiveram amplo espaço para, de maneira efetiva e preciosa, difundir o Evangelho. Isso é tão verdade que os evangelistas recordam as palavras do Senhor diante da mulher que ungiu-lhe a cabeça pouco antes da Paixão: “Em verdade vos digo, em qualquer lugar onde for pregado esse evangelho no mundo inteiro, será dito também o que ela fez, em memória dela” (Mt 26,13; Mc 14,9). Nas palavras de salvação está toda a delicadeza, os gestos e a ternura da figura feminina que acompanhou Jesus em toda sua vida e que hoje, na dedicação ao projeto de Deus, atualizam a presença de Nosso Senhor no seio das comunidades, no coração das pessoas.

Além dos Doze, que são as colunas da Igreja, Pais do novo Povo de Deus, também muitas mulheres são escolhidas entre o número dos discípulos. Alguns exemplos de discipulado das mulheres em relação à pessoa de Jesus e ao projeto que revelou à humanidade: profetisa Ana (Lc 2,36-38), a Samaritana (Jo 4,1-39), a mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30), a hemorroísa (Mt, 9,20-22) e a pecadora perdoada (Lc 7, 36-50). E há aquelas figuras femininas que são protagonistas nas parábolas contadas por Jesus, como a dona da casa que faz o pão (Mt 13,33), a mulher que perde a moeda (Lc 15,8-10) a viúva que importuna o juiz (Lc 18,1-8).

Mulheres de ontem, mulheres de hoje

É impossível pensar nas discípulas de Jesus e não começar orientando nosso pensamento à Maria, mãe e discípula que, com sua fé e a sua obra materna colaborou de modo único para a nossa redenção, a ponto de Isabel poder proclamá-la “bendita entre as mulheres” (Lc 1,42). Maria, ao se tornar discípula do Filho revela, nas bodas de Caná, a total confiança no Verbo encarnado (Jo, 2,5). Foi Maria a mãe que não abandona seu Filho, que o seguiu até os pés da cruz, onde recebeu dele uma missão materna para todos os seus discípulos, de todos os tempos, representados por João (Jo 19,25-27). Maria é mãe, Maria é discípula. Maria ensina, Maria aprende. Maria crê verdadeiramente no Filho, e o Filho crê verdadeiramente em Maria. Mulheres na Igreja são as benditas Marias de nosso tempo.

Outras mulheres estão ao lado de Jesus, mulheres que têm suas funções e responsabilidades. Um exemplo evidente é o das mulheres que seguiam a Jesus para assisti-lo com seus recursos, isto é, ajudavam Jesus com seus bens materiais. Dentre elas o evangelista Lucas nos transmite alguns nomes: Maria Madalena, Joana, Suzana e “muitas outras” (Lc8, 2-3). Hoje, muitas mulheres “investem” seus bens e seu tempo na evangelização. Fazem dos seus dias dia da Graça do Senhor para muitas pessoas. Basta vermos as salas de catequese, as equipes de liturgia e celebração, os ministérios de música, os ministros da comunhão, da Palavra e tantas outras funções. Mulheres benditas que oferecem sua vida pelo Reino de Deus. Bendita sóis, mulheres evangelizadoras.

Uma das notícias mais significativas apresentadas sobre as mulheres discípulas é que não abandonaram Jesus na hora da Paixão (Mt 27, 56-61). Dentre elas sobressai Maria Madalena, que não só presenciou a Paixão, mas foi a primeira testemunha e anunciadora do Ressuscitado (Jo 20,11-18). É Santo Tomás de Aquino que qualifica Maria Madalena de “apóstola dos apóstolos” e dedica-lhe tão nobre comentário: “como uma mulher havia anunciado ao primeiro homem palavras de morte, assim uma mulher por primeiro anunciou aos apóstolos palavras de vida”.

A Igreja continua sua missão porque muitas mulheres fazem da Igreja seu lar, a tal ponto amam, cuidam, valorizam, se dedicam. Bendita tantas mulheres que deixam seus bens e seu tempo pela causa do Evangelho que transforma vidas. Bem-aventuradas todas as mulheres que não têm medo de subir aos calvários da humanidade e de anunciar a presença real e verdadeira de Jesus na vida do mundo. Bendita toda mulher que se torna uma verdadeira apóstola em nome de Jesus Cristo, pois a verdade de Deus chega aos corações com maior leveza, ternura e beleza.

Éderson Iarochevski


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