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DEUS ME CONHECE! EU O CONHEÇO?

20 de outubro de 2010

“Até hoje, apenas Deus sabia que eu era dele, agora, eu também sei”. Parece frase de um santo famoso. Mas, não é. É frase de um adolescente que participara de um retiro espiritual. Essa afirmação não nasceu de um estudo sistemático de alguma obra teológica ou da síntese de uma aula com o conteúdo de espiritualidade, mas de uma experiência pessoal que ele fez de Deus. Não apenas refletiu sobre Deus, mas saboreou Deus. Deus é sua delícia eterna. Verdadeiro amigo.

Esse encontro com Deus acontece na liberdade. Ninguém pode obrigar outra pessoa a fazer experiência de Deus. Podem, sim, nos conduzir, facilitar o caminho, mas nunca pelo uso da força ou coerção. Isso é tão verdadeiro que até mesmo Santo Agostinho já afirmava que “Quando encontrares em Deus a tua delícia, serás livre”.

É uma atitude de verdadeira fé. É interessante que, quando não temos fé, tudo justificamos. Agora, quando é a fé que nos conduz, temos a coragem de nos abandonar em Deus. O que aconteceu com este adolescente? Teve coragem. Se abandonou em Deus. Não se deixou prender pelos rótulos que lhe são conferidos por uma sociedade altamente ambígua que, ao mesmo tempo em que enaltece a jovialidade dos adolescentes, também os condena por suas irresponsabilidades, imaturidade e descrença a respeito de tudo. A fé faz a pessoa enxergar aquilo que ninguém enxerga. É o fundamento da esperança, é a certeza antecipada.  A fé amadure mesmo numa idade precoce. Para viver em Deus não há idade determinada. Deus não nos quer somente quando adultos. Toda hora, toda idade é de Deus.

Essa fé é alimentada por uma comunhão íntima com o Senhor. Ela não nasce e não se prolonga por um acaso. Mas é fruto de um segredo revelado pelo próprio Jesus “Contou-lhes uma parábola para lhes mostrar a necessidade de orar em todas as circunstâncias sem desanimar” (Lc 18,1-8).

Oração: estrada que me leva a Deus

Nós temos fé nas pessoas. Quantas vezes acreditamos nas pessoas mesmo sem conhecê-las. Ir a um restaurante pela primeira vez e acreditar que a comida feita por alguém estranho nos fará bem e nos saciará, é ter fé naquela pessoa. Podemos confiar nos homens e não confiar em Deus. É um grande risco que todos corremos. Por isso que a oração é um ponto de encontro. Deixamos Deus entrar em nosso coração. Coração que se abre pelo lado de dentro. E sabemos bem que Deus tem o alimento que nos salva e nos sacia eternamente.

Oração é comunhão profunda. É encontro íntimo. É entregar-se e receber totalmente. Reciprocidade sem limites que acontece na liberdade total. Ninguém sai triste de um encontro verdadeiro com Deus. Aquele adolescente estava radiante de felicidade. Disposto a canalizar suas energias nos seus relacionamentos, dedicar-se ao movimento de adolescentes de que participa, valorizar e ser um missionário evangelizador na Igreja. Resumindo: ser um adolescente de Deus no mundo. Um adolescente reflexo de Deus.

 

Muitos vivem frustrados nos seus projetos, relacionamentos, sonhos porque não confiam, não depositam fé em Deus. Quando falta a oração, falta coragem. Quando falta fé, inexiste perseverança. Sem Deus ninguém persevera.

A experiência de Deus deve ser feita a cada dia. Não precisamos apenas esperar por um retiro. Se o pudermos fazer, melhor. Mas creia: se perseverarmos na oração não seremos dominados pelo desânimo. Em nossa programação diária precisamos de um espaço para a oração. Não oração diplomática, decorada. Mas oração diálogo, encontro com nosso amigo eterno. Coração de adolescente vive bagunçado? Muitos crêem que sim. Mas de adulto também. Então nos resta crer que somente quando repousarmos em Deus nosso coração encontrará paz. Deus já nos conhece: é preciso aprender com o santo adolescente do último final de semana: agora eu conheci Deus.

Éderson Iarochevski

 

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CHORAR: OFERTAR, PEDIR, RECOMEÇAR

10 de outubro de 2010

Quando foi a última vez que você chorou? Lembra? Sabe dizer o por quê? Chorar é uma linguagem forte. É uma forma de dizer algo importante. Ninguém chora sem motivos. As lágrimas são fragmentos de histórias de vida de pessoas reais. Lágrimas se transformam em palavras. Quem chora fala sem usar a boca. Quem nunca ficou comovido com o choro de alguém? Lágrimas nos aproximam. Tão belamente Vinícius de Moraes nos lembra que “um dia teremos saudade até dos momentos de lágrimas…”

São tantos os motivos que nos encharcam os olhos. Choramos por alegria ou por dor. Os pais que choram de alegria ao ver o filho recebendo um diploma universitário. O desempregado que chora de alegria ao conseguir um emprego, o enfermo que derrama lágrimas ao se recuperar de suas dores. O jovem que chora de alegria ao ser correspondido pela pessoa que lhe despertou um afeto especial. Pais que derramam lágrimas de alegria ao conseguirem a casa própria para que possam viver dignamente a vida. A comunidade toda chora de alegria porque o posto de saúde, a escola foram construídos. Pessoas choram de alegria ao redescobrir o sentido da vida.

Mas o sofrimento também é motivo de lágrimas. Ao ser humilhado publicamente, a lágrima torna-se a expressão da dor. A pessoa que por intermináveis horas ficou na fila a espera de um atendimento na emergência de um hospital, e não foi atendida. O desempregado que, de um lado para outro, caminha e não consegue um trabalho para garantir a sobrevivência. A mãe que chora por ver seu filho entregue ao vício da bebida, das drogas. O filho que não esconde as lágrimas ao sentir a falta de esforço de seus pais em viver uma vida mais harmoniosa dentro de casa. A adolescente engravidada chora porque é abandonada pelo seu parceiro. A comunidade chora a violência cotidiana que acontece diariamente diante dos olhos. Famílias choram as violências veladas em suas casas. Pessoas choram ao perder o sentido da vida.

– Por que você chora? É alegria ou sofrimento?

Com lágrimas se aprende

Pablo Neruda canta no poema É Proibido:

“É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças…”.

É preciso aprender com a realidade que vivemos. É triste saber que muitas pessoas estão fadadas à monotonia. Nada mais lhes chama atenção, tudo é insignificante, as dimensões racional e emocional não se encontram e, muito menos, se conhecem. Pessoas que não se deixam impactar por nada, aparentemente. Pessoas que evitam aprender o sentido da vida, das pessoas, das coisas.

A vida é feita e refeita a cada dia. Temos as alegrias e tristezas que nos acompanham. As lágrimas expressam muito de cada uma dessas realidades. Há lágrimas salgadas pelo peso que carregam, mas, há lágrimas doces pela suavidade com que foram moldadas. Há lágrimas que libertam, que aliviam,  curam. Há lágrimas que machucam, gritam, que sufocam. Mas elas só existem, só escorrem pela face porque nascem de alguma situação vivenciada. Então, é necessário querer aprender com as lágrimas e com o que elas comportam.

Chorar é uma forma de se ofertar e de pedir. Oferto-me na alegria que vive em mim e que preciso partilhar. Partilha que começa nas lágrimas pela vitória alcançada, pela mudança que aconteceu na vida, pela esperança que voltou a animar o cotidiano. Chorar é também pedir atenção, carinho, cuidado e proteção. É uma maneira de expor as inseguranças, é um jeito de querer o reconhecimento, é um pedido de amor.

Chorar é uma forma de recomeçar. É assumir as realidades da vida, mas, nas lágrimas, reconhecer que é possível ser melhor. Libertar-se da dor para ser espaço de amor. Santo Agostinho, ao narrar seu batismo por Santo Ambrósio, escreveu: “Chorava não porque estivesse angustiado, mas porque finalmente respirava”.

As lágrimas, sejam de alegria ou dor, podem ser o início de uma nova vida.

Você tem um motivo para chorar? Chore. Suas lágrimas podem ser oportunidade de recomeçar.

Éderson Iarochevski


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