DESEJOS SEM LIMITES

Ídolo Moderno (Umberto Boccioni - 1911)

O teólogo coreano naturalizado brasileiro, Jung Mo Sung conta o seguinte fato de sua vida pessoal: “Quando meu filho tinha seis anos, correu na saída da escola e, ao abraçar-me disse: ‘Pai, vamos ao shopping hoje, preciso comprar uma coisa!’. Eu lhe perguntei: ‘Filho, do que você está precisando?’. ‘Não sei, mas preciso comprar uma coisa’, respondeu. Retruquei: ‘Mas. como você precisa de uma coisa se não sabe o que é?’. Então ele concluiu com convicção: ‘Agora não sei, mas quando chegar lá, eu vou saber’. Eu lhe falei calmamente: ‘Filho, me diga do que você precisa e eu verei se você realmente precisa disso e, se não tivermos em casa, vamos ao shopping comprar’”.

Uma criança que deseja, mas não sabe o que. Todo ser humano é um ser de desejo. O tempo todo estamos desejando mesmo que, muitas vezes, não saibamos decifrar qual o objeto de nosso desejo. O desejo é um motor que dá força à nossa vida. Ninguém consegue viver sem desejar. O desejo é como um texto escrito no ser humano, mas que é pouco lido. Muitos preconceitos e pouco entendimento sobre o assunto.

Quando falamos sobre desejo, logo se pensa em tudo o que está ligado à sexualidade, e não é de agora que enfrentamos dificuldades para falar sobre este tema fundamental em nossa vida diária. Mas o desejo não está fixado somente na sexualidade. Vai além. Hoje, estamos envolvidos até o pescoço em uma sociedade que enaltece o consumo e o desejo é canalizado para o consumo. A própria sexualidade é tratada como um objeto de consumo. A “ditadura da estética” faz com que a indústria que se criou em torno da beleza e da sexualidade não pare de crescer.

Fernando Pessoa lembra-nos: “ Porque eu desejo impossivelmente o possível, porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou até se não puder ser…”. O que move as pessoas são os desejos, muito mais de que as necessidades. Desejos são infinitos, necessidades não são. Somos atraídos pelos desejos, não pelas necessidades. As necessidades são obstáculos à medida que constituem condições para a satisfação dos desejos.

Somos mais do que necessidades físicas e biológicas, temos o grande desejo de sermos reconhecidos como gente. A pessoa quer ser reconhecida como pessoa, como gente. Quer encontrar olhares que possam lhe afirmar que ela é alguém com identidade definida. O nosso desejo é ver esta afirmação sagrada nos olhos de quem nos fita: “eu desejo que você exista”.

Sobreviver e ser reconhecido – dupla necessidade

Toda pessoa tem dois tipos de necessidades. A primeira tem a ver com as necessidades biológicas que garantem a sobrevivência: aí entram os alimentos, a água, a proteção contra os perigos da natureza. É uma necessidade natural, comum a todos os grupos e seres humanos. A cada época os grupos sociais se organizam de determinada maneira para produzir aquilo que é necessário para satisfazer as necessidades e garantir a continuidade da espécie. Essa produção dos bens necessários dependerá das condições geográficas, da cultura, clima e das soluções criadas por cada grupo. Ninguém pode viver sem comer, beber ou ter moradia.

O segundo tipo de necessidade tem a ver com o reconhecimento social. Uma pessoa vive bom tempo sem nenhum reconhecimento pessoal ou social, mas não pode sobreviver sem se alimentar por muitos dias. No entanto, estômago cheio não reflete felicidade e realização pessoal e sim, apenas uma parte dela. É muito difícil viver sem reconhecimento ou sem nenhum tipo de afeto. A doença mais voraz é sentir-se sozinho, longe de tudo e todos. Pior que não ter o que comer e beber é também não ter com quem partilhar a vida. Ter sua dignidade negada. Todos, conscientes ou não, queremos que nossa existência seja motivo de alegria para o outro.

Cada cultura e cada grupo social estabelecem critérios para o reconhecimento das pessoas. Em nossos dias, percebe-se que o reconhecimento se dá através da medida do que você consome. Em uma cultura do consumo é comprando que você é visto. Comprar para existir, existir para comprar. O desejo de consumo nos afoga e nos torna pessoas reconhecidas não pelo que somos, mas pelas “marcas” que levamos em nosso corpo. O corpo nada mais é do que um Outdoor publicitário de multinacionais: primeiro invadiram nossas mentes, agora grudaram em nosso corpo. O desejo de ser mais humano, mais gente, se não tiver controle e equilíbrio pode nos desfigurar e, aos poucos, matar o desejo de viver. Suprir as necessidades e alimentar o desejo de reconhecimento de um jeito certo é o desafio.

Éderson Iarochevski

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