INFORMADOS DEFORMADOS

Jovem doente - Edvard Munch - 1896

Ao refletir sobre a “era digital” em que estamos inseridos, o filósofo Norbert Bolz afirma: “Nossos grandes problemas não resultam da falta de conhecimento e sim, de orientação; não somos ignorantes, estamos confusos”. Atualmente percebe-se que não há educação, e nem mesmo estímulos, das funções mais importantes da inteligência, como a capacidade de contemplar o belo, pensar antes de reagir, apresentar e não impor as idéias, organizar os pensamentos, ter o espírito de serviço de líder. Há muita informação e, no entanto, muita deformação das mentes. Os jovens, por exemplo, possuem vasta informação – ou acesso a ela – sobre muitos temas, mas vivem “deformados” em sua personalidade.

Falando especificamente dos jovens, vale lembrar a frase de Augusto Cury: “os jovens conhecem cada vez mais o mundo em que estão, mas quase nada sobre o mundo que são”. Podemos dominar qualquer território, viajar além-fronteiras, conhecer diferentes e encantadoras culturas e, no entanto, algo cada vez mais se torna desconhecido: nosso próprio ser. O ser humano se torna um ser estranho para si. Existe solidão mais dolorida do que esta, ficar distante de si mesmo?

Parece que os jovens, tendo em vista os grupos que formam (chamadas Tribos urbanas) para conviver, ou até mesmo considerando a solidão que se permitem viver, estão deixando de expressar concretamente valores que dão sabor e sentido à vida:

– Quanta dificuldade para pedir perdão!

– A falta de coragem para reconhecer os próprios limites.

– A indiferença que os distancia de se colocar no lugar do outro.

E podemos nos perguntar: qual o resultado disso tudo?

Os conhecimentos médicos e psiquiátricos estão muito avançados e em nenhum outro momento da história as pessoas tiveram tantos transtornos emocionais e tantas doenças psicossomáticas. A revista Cult (nº 140 do mês de outubro do corrente ano) traz um dossiê sobre a depressão e registra ser esta a “epidemia silenciosa do século 21” Afirma, com números da Organização Mundial da Saúde (OMS) que até 2030 será a principal causa de incapacitação para o trabalho e o grande empecilho para relações saudáveis. Essa realidade é evidente: a depressão raramente atingia crianças. Hoje, há muitas crianças deprimidas e sem encanto pela vida. O número de adolescentes que estão desenvolvendo obsessão, síndrome do pânico, fobias, timidez exacerbada, agressividade e outros transtornos ansiosos e comportamentais aumenta progressivamente.

No Brasil, estimativas sugerem que ocorram 24 suicídios por dia, e o número pode ser 20% maior, pois muitos casos não são registrados. A quantidade de tentativas é de 10 a 20 vezes mais alta que a de mortes. Entre os jovens, a taxa multiplicou-se por dez de 1980 a 2000: de 0,4 para 4. O número de casos de suicídio cresceu 60% nos últimos 45 anos, de acordo com a OMS. A Organização estima que, de 2002 a 2020, o aumento no mundo será de 74%, chegando a um suicídio a cada 20 segundos. Hoje, a taxa é de um a cada 40 segundos(Folha de São Paulo, 18 de março de 2010).

Por um novo jeito de ser

Uma solução só é válida quando ataca o problema pela raiz. É preciso conhecer o funcionamento da mente e mudar alguns pilares da educação, as maneiras de conviver e de estabelecer limites. Não podemos somente viver de teorias. Quem educa não pode viver no estresse porque vai gerar pessoas despreparadas e desequilibradas para a vida. Quanto mais confuso o educador, mais conflito na vida dos educandos. É preciso alimentar a esperança naquilo que é possível, e não ficar vagando em soluções mágicas.

São vitais relações que penetrem o coração, uma linguagem simples que tenha ressonância na vida diária das pessoas.  É preciso que a pessoa que educa seja o “próprio método” na arte de educar. Muito mais do que presentes, o outro merece o próprio ser de quem com ele se comunica.

Além do corpo, o educador necessita “alimentar a personalidade” do interlocutor. Desse modo contribui para que a pessoa possa desenvolver capacidades que lhe garantam uma reflexão crítica sobre o mundo, o domínio de suas emoções, a superação dos medos, a prevenção de conflitos.

Não só corrigir erros, mas ensinar a pensar. Valorizar aquilo de bom que possui. Ser pessoa de opinião própria sobre as realidades de sua vida. Desenvolver a capacidade de questionar, a responsabilidade social.

Refletir sobre a nossa condição humana. Não somos perfeitos. Somos frágeis e propensos ao erro. É preciso desenvolver a paciência, a capacidade de superação, habilidade para criar e aproveitar oportunidades. O erro, visto de um jeito certo, é uma grande chance de crescer e ser melhor na vida.

Valorizar o diálogo nas relações. É dialogando que nos entendemos. É preciso despertar para a solidariedade. Convivência pacifica. Relações de ajuda. Sem o outro, não existo. Redescobrir a valor de se relacionar: o outro em minha vida é uma pessoa-presente.

Saber que as coisas não estão pré-determinadas, pois a vida não é fatalismo. Somos nós que vamos criando e recriando a história. É preciso descartar o vício do indiferentismo e da passividade. Não desistir do sonho que se tem, do projeto a que se almeja, da busca constante da felicidade. É preciso acreditar que vale a pena continuar lutando pelo que é melhor, mais justo, mais saudável. A vida não existe sem a consciência da luta pela realização pessoal e, também, social.

Nas palavras de Ricardo Tescarolo, fica o desejo de continuarmos comprometidos com um mundo de pessoas mais saudáveis: “Fui apresentando o mistério humano que, se de um lado aturde e desconcerta, de outro permite o discernimento de que a vida tem sentido na emoção de amar alguém, em ter o que não tem preço e em ser diferente sem ser o outro. Somos assim parceiros nesta fantástica jornada: buscar o conhecimento, apesar das angústias e perplexidades e, de lambuja, descobrir o encantamento”.

Éderson Iarochevski

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