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DESEJOS SEM LIMITES

29 de setembro de 2010

Ídolo Moderno (Umberto Boccioni - 1911)

O teólogo coreano naturalizado brasileiro, Jung Mo Sung conta o seguinte fato de sua vida pessoal: “Quando meu filho tinha seis anos, correu na saída da escola e, ao abraçar-me disse: ‘Pai, vamos ao shopping hoje, preciso comprar uma coisa!’. Eu lhe perguntei: ‘Filho, do que você está precisando?’. ‘Não sei, mas preciso comprar uma coisa’, respondeu. Retruquei: ‘Mas. como você precisa de uma coisa se não sabe o que é?’. Então ele concluiu com convicção: ‘Agora não sei, mas quando chegar lá, eu vou saber’. Eu lhe falei calmamente: ‘Filho, me diga do que você precisa e eu verei se você realmente precisa disso e, se não tivermos em casa, vamos ao shopping comprar’”.

Uma criança que deseja, mas não sabe o que. Todo ser humano é um ser de desejo. O tempo todo estamos desejando mesmo que, muitas vezes, não saibamos decifrar qual o objeto de nosso desejo. O desejo é um motor que dá força à nossa vida. Ninguém consegue viver sem desejar. O desejo é como um texto escrito no ser humano, mas que é pouco lido. Muitos preconceitos e pouco entendimento sobre o assunto.

Quando falamos sobre desejo, logo se pensa em tudo o que está ligado à sexualidade, e não é de agora que enfrentamos dificuldades para falar sobre este tema fundamental em nossa vida diária. Mas o desejo não está fixado somente na sexualidade. Vai além. Hoje, estamos envolvidos até o pescoço em uma sociedade que enaltece o consumo e o desejo é canalizado para o consumo. A própria sexualidade é tratada como um objeto de consumo. A “ditadura da estética” faz com que a indústria que se criou em torno da beleza e da sexualidade não pare de crescer.

Fernando Pessoa lembra-nos: “ Porque eu desejo impossivelmente o possível, porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou até se não puder ser…”. O que move as pessoas são os desejos, muito mais de que as necessidades. Desejos são infinitos, necessidades não são. Somos atraídos pelos desejos, não pelas necessidades. As necessidades são obstáculos à medida que constituem condições para a satisfação dos desejos.

Somos mais do que necessidades físicas e biológicas, temos o grande desejo de sermos reconhecidos como gente. A pessoa quer ser reconhecida como pessoa, como gente. Quer encontrar olhares que possam lhe afirmar que ela é alguém com identidade definida. O nosso desejo é ver esta afirmação sagrada nos olhos de quem nos fita: “eu desejo que você exista”.

Sobreviver e ser reconhecido – dupla necessidade

Toda pessoa tem dois tipos de necessidades. A primeira tem a ver com as necessidades biológicas que garantem a sobrevivência: aí entram os alimentos, a água, a proteção contra os perigos da natureza. É uma necessidade natural, comum a todos os grupos e seres humanos. A cada época os grupos sociais se organizam de determinada maneira para produzir aquilo que é necessário para satisfazer as necessidades e garantir a continuidade da espécie. Essa produção dos bens necessários dependerá das condições geográficas, da cultura, clima e das soluções criadas por cada grupo. Ninguém pode viver sem comer, beber ou ter moradia.

O segundo tipo de necessidade tem a ver com o reconhecimento social. Uma pessoa vive bom tempo sem nenhum reconhecimento pessoal ou social, mas não pode sobreviver sem se alimentar por muitos dias. No entanto, estômago cheio não reflete felicidade e realização pessoal e sim, apenas uma parte dela. É muito difícil viver sem reconhecimento ou sem nenhum tipo de afeto. A doença mais voraz é sentir-se sozinho, longe de tudo e todos. Pior que não ter o que comer e beber é também não ter com quem partilhar a vida. Ter sua dignidade negada. Todos, conscientes ou não, queremos que nossa existência seja motivo de alegria para o outro.

Cada cultura e cada grupo social estabelecem critérios para o reconhecimento das pessoas. Em nossos dias, percebe-se que o reconhecimento se dá através da medida do que você consome. Em uma cultura do consumo é comprando que você é visto. Comprar para existir, existir para comprar. O desejo de consumo nos afoga e nos torna pessoas reconhecidas não pelo que somos, mas pelas “marcas” que levamos em nosso corpo. O corpo nada mais é do que um Outdoor publicitário de multinacionais: primeiro invadiram nossas mentes, agora grudaram em nosso corpo. O desejo de ser mais humano, mais gente, se não tiver controle e equilíbrio pode nos desfigurar e, aos poucos, matar o desejo de viver. Suprir as necessidades e alimentar o desejo de reconhecimento de um jeito certo é o desafio.

Éderson Iarochevski

INFORMADOS DEFORMADOS

20 de setembro de 2010

Jovem doente - Edvard Munch - 1896

Ao refletir sobre a “era digital” em que estamos inseridos, o filósofo Norbert Bolz afirma: “Nossos grandes problemas não resultam da falta de conhecimento e sim, de orientação; não somos ignorantes, estamos confusos”. Atualmente percebe-se que não há educação, e nem mesmo estímulos, das funções mais importantes da inteligência, como a capacidade de contemplar o belo, pensar antes de reagir, apresentar e não impor as idéias, organizar os pensamentos, ter o espírito de serviço de líder. Há muita informação e, no entanto, muita deformação das mentes. Os jovens, por exemplo, possuem vasta informação – ou acesso a ela – sobre muitos temas, mas vivem “deformados” em sua personalidade.

Falando especificamente dos jovens, vale lembrar a frase de Augusto Cury: “os jovens conhecem cada vez mais o mundo em que estão, mas quase nada sobre o mundo que são”. Podemos dominar qualquer território, viajar além-fronteiras, conhecer diferentes e encantadoras culturas e, no entanto, algo cada vez mais se torna desconhecido: nosso próprio ser. O ser humano se torna um ser estranho para si. Existe solidão mais dolorida do que esta, ficar distante de si mesmo?

Parece que os jovens, tendo em vista os grupos que formam (chamadas Tribos urbanas) para conviver, ou até mesmo considerando a solidão que se permitem viver, estão deixando de expressar concretamente valores que dão sabor e sentido à vida:

– Quanta dificuldade para pedir perdão!

– A falta de coragem para reconhecer os próprios limites.

– A indiferença que os distancia de se colocar no lugar do outro.

E podemos nos perguntar: qual o resultado disso tudo?

Os conhecimentos médicos e psiquiátricos estão muito avançados e em nenhum outro momento da história as pessoas tiveram tantos transtornos emocionais e tantas doenças psicossomáticas. A revista Cult (nº 140 do mês de outubro do corrente ano) traz um dossiê sobre a depressão e registra ser esta a “epidemia silenciosa do século 21” Afirma, com números da Organização Mundial da Saúde (OMS) que até 2030 será a principal causa de incapacitação para o trabalho e o grande empecilho para relações saudáveis. Essa realidade é evidente: a depressão raramente atingia crianças. Hoje, há muitas crianças deprimidas e sem encanto pela vida. O número de adolescentes que estão desenvolvendo obsessão, síndrome do pânico, fobias, timidez exacerbada, agressividade e outros transtornos ansiosos e comportamentais aumenta progressivamente.

No Brasil, estimativas sugerem que ocorram 24 suicídios por dia, e o número pode ser 20% maior, pois muitos casos não são registrados. A quantidade de tentativas é de 10 a 20 vezes mais alta que a de mortes. Entre os jovens, a taxa multiplicou-se por dez de 1980 a 2000: de 0,4 para 4. O número de casos de suicídio cresceu 60% nos últimos 45 anos, de acordo com a OMS. A Organização estima que, de 2002 a 2020, o aumento no mundo será de 74%, chegando a um suicídio a cada 20 segundos. Hoje, a taxa é de um a cada 40 segundos(Folha de São Paulo, 18 de março de 2010).

Por um novo jeito de ser

Uma solução só é válida quando ataca o problema pela raiz. É preciso conhecer o funcionamento da mente e mudar alguns pilares da educação, as maneiras de conviver e de estabelecer limites. Não podemos somente viver de teorias. Quem educa não pode viver no estresse porque vai gerar pessoas despreparadas e desequilibradas para a vida. Quanto mais confuso o educador, mais conflito na vida dos educandos. É preciso alimentar a esperança naquilo que é possível, e não ficar vagando em soluções mágicas.

São vitais relações que penetrem o coração, uma linguagem simples que tenha ressonância na vida diária das pessoas.  É preciso que a pessoa que educa seja o “próprio método” na arte de educar. Muito mais do que presentes, o outro merece o próprio ser de quem com ele se comunica.

Além do corpo, o educador necessita “alimentar a personalidade” do interlocutor. Desse modo contribui para que a pessoa possa desenvolver capacidades que lhe garantam uma reflexão crítica sobre o mundo, o domínio de suas emoções, a superação dos medos, a prevenção de conflitos.

Não só corrigir erros, mas ensinar a pensar. Valorizar aquilo de bom que possui. Ser pessoa de opinião própria sobre as realidades de sua vida. Desenvolver a capacidade de questionar, a responsabilidade social.

Refletir sobre a nossa condição humana. Não somos perfeitos. Somos frágeis e propensos ao erro. É preciso desenvolver a paciência, a capacidade de superação, habilidade para criar e aproveitar oportunidades. O erro, visto de um jeito certo, é uma grande chance de crescer e ser melhor na vida.

Valorizar o diálogo nas relações. É dialogando que nos entendemos. É preciso despertar para a solidariedade. Convivência pacifica. Relações de ajuda. Sem o outro, não existo. Redescobrir a valor de se relacionar: o outro em minha vida é uma pessoa-presente.

Saber que as coisas não estão pré-determinadas, pois a vida não é fatalismo. Somos nós que vamos criando e recriando a história. É preciso descartar o vício do indiferentismo e da passividade. Não desistir do sonho que se tem, do projeto a que se almeja, da busca constante da felicidade. É preciso acreditar que vale a pena continuar lutando pelo que é melhor, mais justo, mais saudável. A vida não existe sem a consciência da luta pela realização pessoal e, também, social.

Nas palavras de Ricardo Tescarolo, fica o desejo de continuarmos comprometidos com um mundo de pessoas mais saudáveis: “Fui apresentando o mistério humano que, se de um lado aturde e desconcerta, de outro permite o discernimento de que a vida tem sentido na emoção de amar alguém, em ter o que não tem preço e em ser diferente sem ser o outro. Somos assim parceiros nesta fantástica jornada: buscar o conhecimento, apesar das angústias e perplexidades e, de lambuja, descobrir o encantamento”.

Éderson Iarochevski

AMAR – CONHECER – AMAR

13 de setembro de 2010

Dia dos Namorados - Deólla

Quando gostamos de algo procuramos saber o máximo Do que nos chamou atenção. È nosso time? Lemos tudo sobre ele. Um escritor? Tudo faremos para nos aproximar de sua história. Aquilo que interessa verdadeiramente torna-se nosso “campo de pesquisa diário”.

Logicamente, não há problema em estar conectado a um assunto de interesse pessoal e buscar informações possíveis para ser um bom conhecedor dessa realidade. Mas, ao olhar para dentro de nossas casas, tomando como imagem um casal empenhado na busca de conhecimento, pode-se perguntar: quanto você conhece seu cônjuge?

A época de namoro é como um cursinho de vestibular: reconhecer os pensamentos, sentimentos, histórias, maneiras de agir da pessoa que seu coração anseia por estar próximo.

Quando um homem tem por objetivo conquistar o coração de uma mulher, ele a “estuda”: o que a pessoa gosta, do que não gosta, hábitos e hobbies. Depois de ganhar o coração dela e se casa, geralmente julga que já sabe tudo e desiste de continuar conhecê-la. O mistério e o desafio parecem menos fascinantes e desloca seus interesses para outras áreas. Depois do cursinho (namoro), passar no vestibular (casa) entrar na faculdade (o casamento no dia-a-dia), o “estudo” já não é mais intenso e acontece o descaso pela oportunidade de ser uma pessoa realizada. Não valorizar o sonho realizado é como contrato antecipado com a morte.

Isto também acontece com a mulher: começa admirando e construindo respeito pelo homem com quem deseja estar. Entretanto, depois do casamento estes sentimentos desaparecem à medida que a realidade revela que seu “príncipe” é um homem normal, imperfeito. Mas, mesmo depois do casamento, existem coisas que precisam ser descobertas a respeito do marido. Esse melhor entendimento os aproximará. Você pode até obter favor aos olhos de sua esposa. “O bom senso alcança favor” (Provérbios 13,15).

Considere a seguinte perspectiva: se tudo o que você conheceu do seu marido ou da sua esposa antes do casamento se compara a um diploma do ensino médio, então você precisa continuar aprendendo sobre ele até conquistar o diploma universitário, o mestrado, o doutorado. Isto você pode pensar como uma jornada de vida que conduz seu coração para mais perto da pessoa que você escolheu para doar seu tempo, sua vida.

– Você conhece os maiores sonhos e esperanças dele?

– Você tem pleno conhecimento das formas de como prefere oferecer e receber o amor?

– Você sabe quais são os maiores medos de seu cônjuge?

– Quando foi o último gesto de carinho presenteado?

– Você destina uma parte do seu dia para estar junto, passear, conversar, ouvir seu cônjuge?

– Vocês se perdoam? Declaram reciprocamente o amor um pelo outro? Se não o fazem, estão interessados em saber o porquê da falta de comunicação e doação na relação?

Muitos problemas no relacionamento surgem simplesmente porque você não o entende bem. Ele – ou ela – provavelmente reage de maneira diferente da que você reagiria em determinada situação, e você não entende o porquê. Essas diferenças, mesmo sendo insignificantes, às vezes podem ser causa de muitas brigas e conflitos no casamento: diz a Palavra de Deus que temos a tendência de “difamar” as coisas que não entendemos (Carta de Judas 10).

Existe uma razão para cada gosto ou preferência do seu cônjuge. Cada elemento que o faz ser, como ele pensa e como se parece, é baseado em uma série de princípios que, na maioria das vezes, só fazem sentido para a pessoa que o apóia. Vale a pena o tempo investido em descobrir porque seu esposo ou esposa é do jeito que é.

Se você perde o nível de intimidade que uma vez teve com a pessoa amada, uma das melhores maneiras de destravar o coração é se comprometer em conhecê-lo. Estude-o, leia-o como você lê um livro que está tentando compreender. Tudo porque ama uma pessoa, não um objeto. Conhecemos coisas para dominá-las, conhecemos pessoas para amá-las.

Éderson Iarochevski

BENDITA PALAVRA – PALAVRA BENDITA

5 de setembro de 2010

Daniel Lifschitz - Estudando a Palavra

Palavra santa

Palavra humana

Palavra pensada no céu

Filha das alturas

Palavra escrita na terra

Irmã da humanidade

Quero ser filho do céu

Quero ser filho da terra

Santidade e humanidade

Duas palavras

Uma só realidade

Quero ser um só

Ser céu e terra

Ser “humano santo”.

Dá-me, Senhor, o dom de entender a tua Palavra.

Palavra que se torna carne

A Palavra é comida

A um mundo esfomeado

a Palavra se faz alimento

que sacia o corpo e alma

Há fome onde a Palavra

ainda não chegou

Bendita Palavra,visita o chão

que ainda não te conhece

Não basta esquecer a fome

É preciso saciá-la

Palavra, sejas bem recebida

por um mundo com fome

Arma uma tenda nos corações

que nada sabem de ti

Senhor, faz de tua Palavra meu alimento.

Santa Palavra que humaniza

Humanidade que se diviniza

no poder da Palavra

Queres ser “ humano santo”?

Santifica-te na Palavra que se humanizou!

Éderson Iarochevski


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