BREVE TOQUE, GRANDES MARCAS

Toque de Amor (Marc Chagall - 1916)

“Senti na pele, ficou à flor da pele, aquilo me arrepiou a pele”, são expressões que usamos no dia-a-dia e que refletem situações de forte impacto sobre nós. O homem é um ser sensível. Tudo o que acontece no espaço em que se encontra o afeta, deixa marcas. A pele, revestimento externo do corpo, o maior órgão do corpo humano e o mais pesado, possuindo 15% do peso corporal, é o órgão de sentido, texto escrito, sede de marcas e lembranças. É “na própria pele” que se registra o contato com os ambientes e seus acontecimentos.

É verdade, o corpo não mente. Escutá-lo é uma forma de garantir que o verdadeiro sentido daquilo que nos acontece pode ser fonte de luz iluminadora. É, também, uma forma de nos conhecer, saber quem somos, do que somos revestidos, nos descobrir, para que não corramos o risco de dizermos ser uma coisa e, na verdade, ser outra. Cristo chama atenção àquilo que reveste uma pessoa: “cuidado com os falsos profetas: eles vêm até vós vestidos de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes” (Mt 7, 15).

O corpo, mais precisamente a pele, é nossa memória mais arcaica. Nele nada fica esquecido. Cada acontecimento vivido, tanto na primeira infância como na vida adulta, nele deixa sua marca profunda. Dou um exemplo pessoal desta memória que o corpo conserva, falando especificamente da pele como órgão de sentido: ao olhar para o polegar da mão esquerda vejo uma cicatriz bem próxima à unha: essa marca me faz recordar que, estando eu com 6 anos de idade, ao brincar com uma faca confeccionando “espadinhas” para brincar, acabei por ferir profundamente esse dedo. Lembrar o fato me faz, inclusive, quase que reviver a dor e o sofrimento daquele momento. “… Hoje, trago em meu corpo as marcas de meu tempo” (Taiguara). O tempo que já foi vivenciado e aquele em que estou vivendo vão “marcando” minha pele, minha vida.

Logicamente, não é só de cicatrizes visíveis que nossa pele está arcada. Há, e muitas, as cicatrizes invisíveis. Estas, talvez, sejam as de maior impacto em nós. Há peles repletas de cicatrizes de variados tamanhos e significados que remetem a situações de alegrias e tristezas. Há peles que sofrem a dor da ausência do toque, do carinho, do respeito, do cuidado e proteção, do amor.  Muitos corpos são aquecidos porque o amor reside bem próximo e os visita sempre, mas há corpos que estão congelando porque não conheceram e, muito menos sentiram, a chama de amor aquecer sua pele.

Uma vida em um toque

A pele tem por função a proteção do organismo contra as ameaças exteriores, físicas. Possui funções imunizadoras, e é o principal órgão da regulação do calor, protegendo contra a desidratação. É uma das produtoras da vitamina D. O que mais chama atenção, porém, é uma das suas funções nervosas: o tato. Está relacionado a um dos cinco sentidos clássicos. O sentido do tato não se encontra em uma região específica, pois todas as regiões do organismo possuem mecanorreceptores responsáveis pela percepção do toque, termoceptores responsáveis pela percepção do frio e do calor e terminações nervosas livres responsáveis pela percepção da dor, mudando apenas de intensidade. O interessante é que, do toque recebido ou de sua ausência, nossa personalidade progressivamente vai sendo esculpida, nossa vida ganha sentido, nosso ser se descobre, desvela-se nossa humanidade.

A poeta Cristiana Ornelas inicia o poema “Toque” com imensa nostalgia: “… Quanta saudade sinto do teu toque…”. Pele que não é tocada parece, realmente, não existir. Se não me toco, não me sinto, se não me tocas, não existo. Quantas pessoas vivem na ânsia de receber um toque, um gesto de carinho, uma efetiva manifestação de afeto, desejo de existir verdadeiramente para alguém. Outros concentram em si o medo de serem tocados porque em algum dos dias de um passado que não passa, o toque foi agressivo e gerou medo profundo de receber qualquer toque de amor de outro alguém.

Quais os toques que você recebeu ao longo de sua vida? Que marcas deixaram em você? Existem cicatrizes que marcam sua vida? O que você faz elas?

No relato da criação do homem e da mulher parece ter havido, além do toque de amor do Criador, o toque de amor da criatura. Após contemplar e saudar sua companheira, a mulher, com quem irá se corresponder, o homem, possivelmente, a tocou e exclama com alegria profunda: “desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2,23).

Tocar em uma pessoa é responsabilizar pelas marcas que ali serão deixadas. O texto a ser “escrito na pele” de alguém irá acompanhá-la em todos os seus contextos. O toque revelará as intenções de quem faz tal gesto. O toque sensível e verdadeiro permitirá à pessoa tocada crescer em seus relacionamentos com maior segurança. O toque insensível e agressivo fará com que a pessoa viva (não viva) a desconfiança (a confiança) das relações interpessoais em sua vida. Vivemos nos alimentando daquilo que está gravado em nosso coração, mas a pele o experienciará antes de lá ser gravado. O que temos guardado em nós é muito daquilo que alguém fez tocar em nosso ser. Por isso, tocar o outro é adentrar o seu espaço, é adentrar o seu território sagrado. Só pode tocar aquele que deseja amar.

A maior alegria de uma pessoa é ser percebida. É ser importante para alguém. É ser notada, tocada. O reconhecimento vem do tocar. Não é um tocar de pura manipulação, mas sim, um gesto afetivo que manifesta amor e desejo de continuar amando. A pele é porta de entrada para o amor que se aproxima. A pele se protege daquilo que agride o organismo, mas acolhe e absorve aqui que alimenta e vivifica todo o corpo. Tocar a pele é sentir-se vivo, ser tocado na pele, toque que manifesta amor, é desejar viver eternamente. Deixemo-nos tocar pelo amor. Tenhamos cuidado para não cair nas armadilhas dos toques insensíveis. Só vale ser tocado e tocar se for para sermos mais e melhores do que somos.

Éderson Iarochevski

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Uma resposta to “BREVE TOQUE, GRANDES MARCAS”

  1. sarina Says:

    Lindo blog! Transmite-nos muita sabedoria. Adorei!

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