UMA CENA DE AMOR

Família (Tarsila do Amaral)

Quando menos se espera, surge diante dos olhos uma cena que nos marca profundamente. A vida acontecendo diante dos olhos. Gestos de amor expressados na simplicidade que garantem a vida de quem vive a situação, e fazem a chama do viver ganhar força em quem contemplou um lindo momento. Há momentos que nos educam e garantem a esperança de realidades que, por vezes, parecem não ter muito tempo de vida.

Era uma rodoviária. Na expectativa da chegada do ônibus havia uma família. Pai, mãe e os três filhos. O primogênito aparenta uns 15 anos, os outros dois irmãos entre 4 e 7 anos. Na aparência é uma família que não possui muitos bens ou recursos financeiros. O dia, domingo, estava lindo, o sol, depois de tanto frio, reapareceu, mas o vento gelado era a companhia deles. Chega o ônibus, todos ficam em pé. Família quando é unida de verdade parece que tudo o que faz junto fica idêntico, parece até que houve algum ensaio: o levantar foi uma bela coreografia. Juntos vão até o bagageiro para garantir que a pequenina mala do filho, que logo partirá para algum destino, possa estar segura. “Temos pouco, muito pouco, mas cuidamos com todo amor, porque este nosso pouco é o nosso muito”; os olhares para a mala pareciam se resumir neste pensamento.

Chega a hora do embarque. A passagem na mão do menino expressa que já é alguém responsável, já pode andar com papel importante nas mãos. O primeiro gesto de despedida foi dar um beijo carinhoso nos irmãozinhos. Eles o olhavam e parecia que se perguntavam: por que ele tem que ir? E nossas brincadeiras, nosso futebol? Quem irá cuidar de nós quando papai e mamãe não estiverem por perto?  Quem vai levar a gente para a escola e ser nosso defensor caso aconteça algo em nossa rua, nosso bairro? Do pai ele se despediu com um aperto de mão e “um tapinha” nas costas. No gesto em si não há muita afetividade, mas nos olhos dava para ver, a quilômetros, a confiança que o pai depositava no filho. O pai o olhava cheio de orgulho. Olhar que dizia: “Este é meu filho! Já sabe o que faz. Já pode viajar sozinho. Já pode conquistar seu espaço, já pode pensar seu futuro”. Só faltava o pai dizer: vai lá e faz bonito, filho!

O menino foi ao encontro da mãe. Foi uma cena belíssima. Enquanto ele se despedia dos irmãozinhos e do pai, sua mãe já se debulhava em lágrimas. Parecia não acreditar que o primeiro filho nascido do seu ventre estaria alçando vôo para longe do ninho. O abraço foi demorado. O beijo foi expressão pura de amor. Ela falou-lhe algo no ouvido. Possivelmente falou o que toda mãe fala quando um filho sai de casa. Palavras que só a mãe tem o dom de falar e só um filho tem a capacidade de entender. No coração daquela mãe nasciam diversos sentimentos: será que ele vai ficar bem? Não seria melhor esperar mais um tempo? Ele é tão criança ainda! Por que tem quer ser assim? Vai em paz, meu filho, a mãe te ama e te espera, logo, em casa!

Se esta é a verdade concreta da cena que vi, não sei, mas no que percebi era isso que aquela imagem me sugeria.

Ao presenciar este momento tão simples e de tamanha grandeza pela verdade que os rostos e gestos evidenciaram, só se fortaleceu em mim a certeza de que a família é um espaço sagrado. Espaço que permite a pessoa crescer, se tornar mais humana. É impossível ser verdadeiramente humano, ser uma pessoa sadia e equilibrada emocionalmente e afetivamente sem ter experimentado a vida em família. Disse o saudoso Papa João Paulo II “… o homem não é apenas um ser social, mas, é ele, um ser familiar”.

Naquela família reunida e unida vi o amor no seu mais alto grau. O pai que confia no filho; os irmãozinhos que o amam e a mãe que, mesmo sem poder evitar a partida do filho, faz, de suas preocupações registradas no olhar, a mais nobre forma de amar alguém. Família é isso: é querer bem àquele que está conosco, que mora em nossa casa. É voltar-se para a pessoa e garantir a ela o direito de ser gente. É oferecer-lhe o que há de melhor em nós.

Naquela família não havia presentes e nem lembranças materiais. Mas, tanto o filho que partirá para algum lugar, quanto o restante da família que ficava, tinham a certeza de que os melhores e eternos presentes ali foram trocados entre eles: a confiança no aperto de mão, o amor nos beijos afetuosos e fraternos, o desejo de breve reencontro nas lágrimas derramadas, a garantia de que um lar esta a espera, nos abraços demorados que não se encerram enquanto não descansarem no retorno de quem está de partida. Família é lugar onde o amor faz morada.

Éderson Iarochevski

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