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PESSOA SAUDÁVEL – CORPO E ALMA SADIOS

29 de agosto de 2010

Dançarina - Gino Severini - 1915

Você pratica algum tipo de exercício físico? Com que freqüência? Você sabia que, no mínimo, três vezes por semana, deveríamos nos dar o tempo de nos exercitar? Estas não são perguntas chatas para incomodar quem é fã da ociosidade e praticante do sedentarismo. São questionamentos que alertam as pessoas para que possam perceber qual atenção dão à sua condição física, sua saúde. As ciências do esporte e da saúde apresentam a atividade física como um passaporte para uma qualidade de vida maior. A prevenção de doenças, produtividade, bem-estar, adoção de hábitos mais saudáveis no cotidiano, a disposição em viver os acontecimentos que a vida proporciona são frutos de atividades físicas regulares. Enfim, atividade física rima como qualidade de vida.

O autor da carta aos Hebreus, recordando o profeta Isaías (Is 35,3) diz:“Reerguei as mãos enfraquecidas e os joelhos trôpegos; endireitai os caminhos para os vossos pés, a fim de que o manco não se extravie, mas antes seja curado” (Hb 12,12-13). Aqui, logicamente, o conselho não é procurar uma academia para que com exercícios físicos se possam fortalecer o que está demasiadamente enfraquecido, mas sim, a busca por exercícios espirituais que devolvam a qualidade de vida, a saúde espiritual, o sentido de ser/conviver em comunidade, o sentido de ser filho de Deus.

Os exercícios espirituais fortalecem e reanimam a pessoa na sua essência. Um corpo saudável pressupõe o mesmo amor para com a alma: não há corpo sem alma, nem alma sem corpo. Se o corpo estiver sarado, mas a alma ferida, não haverá qualidade de vida, a saúde fica debilitada. A pessoa pode ser muito resistente no que se refere à força, mas quaisquer pensamentos enlameados, sentimentos desordenados, atitudes ríspidas o afetam porque seu “ser” está totalmente flácido, o coração obeso, sem ritmo, fora de forma. Há, e muito, a ociosidade e sedentarismo diante dos exercícios espirituais. A oração é um exercício exigente, mas necessário para saúde do corpo e da alma.

Santo Inácio de Loyola, ao comparar os exercícios espirituais aos exercícios físicos, toma consciência de que é pelos exercícios físicos, que não se inventam, mas se repetem, que a pessoa adquire habilidades físicas. É pelo exemplo do treinamento físico que ele propõe os exercícios espirituais como um centrar e descentrar-se na presença de Deus. A oração faz com que a pessoa centre o foco em Deus. Mas este centrar-se exige da pessoa treinamento.

Exercícios espirituais: alma “definida”

Modelar o corpo para a cultura do tamanho “p”, este é o grande objetivo de muitos que estão lotando as academias, infelizmente. Claro que, atualmente, há uma conscientização de que o exercício é realizado em prol da saúde e qualidade de vida, e não apenas para ajustar o corpo às tendências da moda. Os exercícios espirituais, falando especificamente do exercício da oração, também têm a função de modelar a pessoa. Mas quem modela é o Espírito Santo, que dinamiza e atualiza a presença de Deus na vida da pessoa. E assim, Deus passa a envolver cada vez mais a pessoa, atraindo-a a Si pela sua graça.

Os exercícios físicos ajudam a eliminar as impurezas, retirar do organismo as substâncias tóxicas, expulsar tudo aquilo que possa roubar a saúde. Os exercícios espirituais convidam a pessoa a treinar para eliminar o que intoxica a alma, o coração,  todo o corpo.  Nos exercícios físicos você pode errar e recomeçar. Nos espirituais também acontecerá de não acertar, mas o que importa é o exercício enquanto tal. O treinamento vai gerando habilidades para o recolhimento e concentração.

Assim como a execução de uma música libera o dançarino, da mesma forma os exercícios espirituais liberam e concentram a pessoa orante cada vez mais no objetivo que ela se propõe: contemplar Deus. O segredo dos exercícios está na sua repetição. Assim como a música marca o ritmo do bailarino, da mesma forma a Palavra de Deus, contemplada na oração, marca o ritmo da pessoa orante. Pela repetição, o movimento vai adentrando cada vez mais até se tornar algo espontâneo, livre, soltando a pessoa em sua confiança interior.

Exercícios espirituais não devem ser apenas três vezes na semana. É preciso que seja um recurso habitual, diário. As mãos enfraquecidas precisam de exercício para que possam firmar suas marcas no tempo através das ações que atualizam a Palavra de Deus no mundo. Aos joelhos trôpegos, desequilibrados, são necessários exercícios espirituais para que a pessoa possa manter-se equilibrada. Joelhos encarangados podem oferecer problemas sérios à coluna vertebral e, até mesmo, aos rins. Joelhos “bambos” também podem provocar grandes tombos na vida e as dores e sofrimentos serão inevitáveis. Exercícios espirituais fortalecem a pessoa para manter-se equilibrada em seu modo de pensar, sentir e agir. Para os pés, símbolo de disposição e missão da pessoa que se faz peregrino, os exercícios espirituais dinamizarão o ser discípulo-missionário pela causa do Reino de Deus. Os exercícios espirituais, referindo-se principalmente à oração, são uma condição para que a cura dos corações e mentes possa acontecer por ação do Espírito Santo.

Se é preciso eliminar impurezas do corpo, também o é na alma, no coração. Pela “porta estreita” entram pessoas com alma leve, magra, bem cuidada, exercitada. Por isso é no exercício da oração que iniciamos o acesso à porta estreita, caminho de salvação. Só entrará quem se esforçar. Diz o Senhor Jesus: “esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão” (Lc 13, 24). Vamos à academia, mas vamos à igreja participar da comunidade também. Vamos cuidar do corpo, mas exercitemos a alma, o coração, o espírito. Sejamos fortes e saudáveis de corpo e alma. Numa palavra: sejamos pessoas saudáveis.

Éderson Iarochevski

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BREVE TOQUE, GRANDES MARCAS

21 de agosto de 2010

Toque de Amor (Marc Chagall - 1916)

“Senti na pele, ficou à flor da pele, aquilo me arrepiou a pele”, são expressões que usamos no dia-a-dia e que refletem situações de forte impacto sobre nós. O homem é um ser sensível. Tudo o que acontece no espaço em que se encontra o afeta, deixa marcas. A pele, revestimento externo do corpo, o maior órgão do corpo humano e o mais pesado, possuindo 15% do peso corporal, é o órgão de sentido, texto escrito, sede de marcas e lembranças. É “na própria pele” que se registra o contato com os ambientes e seus acontecimentos.

É verdade, o corpo não mente. Escutá-lo é uma forma de garantir que o verdadeiro sentido daquilo que nos acontece pode ser fonte de luz iluminadora. É, também, uma forma de nos conhecer, saber quem somos, do que somos revestidos, nos descobrir, para que não corramos o risco de dizermos ser uma coisa e, na verdade, ser outra. Cristo chama atenção àquilo que reveste uma pessoa: “cuidado com os falsos profetas: eles vêm até vós vestidos de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes” (Mt 7, 15).

O corpo, mais precisamente a pele, é nossa memória mais arcaica. Nele nada fica esquecido. Cada acontecimento vivido, tanto na primeira infância como na vida adulta, nele deixa sua marca profunda. Dou um exemplo pessoal desta memória que o corpo conserva, falando especificamente da pele como órgão de sentido: ao olhar para o polegar da mão esquerda vejo uma cicatriz bem próxima à unha: essa marca me faz recordar que, estando eu com 6 anos de idade, ao brincar com uma faca confeccionando “espadinhas” para brincar, acabei por ferir profundamente esse dedo. Lembrar o fato me faz, inclusive, quase que reviver a dor e o sofrimento daquele momento. “… Hoje, trago em meu corpo as marcas de meu tempo” (Taiguara). O tempo que já foi vivenciado e aquele em que estou vivendo vão “marcando” minha pele, minha vida.

Logicamente, não é só de cicatrizes visíveis que nossa pele está arcada. Há, e muitas, as cicatrizes invisíveis. Estas, talvez, sejam as de maior impacto em nós. Há peles repletas de cicatrizes de variados tamanhos e significados que remetem a situações de alegrias e tristezas. Há peles que sofrem a dor da ausência do toque, do carinho, do respeito, do cuidado e proteção, do amor.  Muitos corpos são aquecidos porque o amor reside bem próximo e os visita sempre, mas há corpos que estão congelando porque não conheceram e, muito menos sentiram, a chama de amor aquecer sua pele.

Uma vida em um toque

A pele tem por função a proteção do organismo contra as ameaças exteriores, físicas. Possui funções imunizadoras, e é o principal órgão da regulação do calor, protegendo contra a desidratação. É uma das produtoras da vitamina D. O que mais chama atenção, porém, é uma das suas funções nervosas: o tato. Está relacionado a um dos cinco sentidos clássicos. O sentido do tato não se encontra em uma região específica, pois todas as regiões do organismo possuem mecanorreceptores responsáveis pela percepção do toque, termoceptores responsáveis pela percepção do frio e do calor e terminações nervosas livres responsáveis pela percepção da dor, mudando apenas de intensidade. O interessante é que, do toque recebido ou de sua ausência, nossa personalidade progressivamente vai sendo esculpida, nossa vida ganha sentido, nosso ser se descobre, desvela-se nossa humanidade.

A poeta Cristiana Ornelas inicia o poema “Toque” com imensa nostalgia: “… Quanta saudade sinto do teu toque…”. Pele que não é tocada parece, realmente, não existir. Se não me toco, não me sinto, se não me tocas, não existo. Quantas pessoas vivem na ânsia de receber um toque, um gesto de carinho, uma efetiva manifestação de afeto, desejo de existir verdadeiramente para alguém. Outros concentram em si o medo de serem tocados porque em algum dos dias de um passado que não passa, o toque foi agressivo e gerou medo profundo de receber qualquer toque de amor de outro alguém.

Quais os toques que você recebeu ao longo de sua vida? Que marcas deixaram em você? Existem cicatrizes que marcam sua vida? O que você faz elas?

No relato da criação do homem e da mulher parece ter havido, além do toque de amor do Criador, o toque de amor da criatura. Após contemplar e saudar sua companheira, a mulher, com quem irá se corresponder, o homem, possivelmente, a tocou e exclama com alegria profunda: “desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2,23).

Tocar em uma pessoa é responsabilizar pelas marcas que ali serão deixadas. O texto a ser “escrito na pele” de alguém irá acompanhá-la em todos os seus contextos. O toque revelará as intenções de quem faz tal gesto. O toque sensível e verdadeiro permitirá à pessoa tocada crescer em seus relacionamentos com maior segurança. O toque insensível e agressivo fará com que a pessoa viva (não viva) a desconfiança (a confiança) das relações interpessoais em sua vida. Vivemos nos alimentando daquilo que está gravado em nosso coração, mas a pele o experienciará antes de lá ser gravado. O que temos guardado em nós é muito daquilo que alguém fez tocar em nosso ser. Por isso, tocar o outro é adentrar o seu espaço, é adentrar o seu território sagrado. Só pode tocar aquele que deseja amar.

A maior alegria de uma pessoa é ser percebida. É ser importante para alguém. É ser notada, tocada. O reconhecimento vem do tocar. Não é um tocar de pura manipulação, mas sim, um gesto afetivo que manifesta amor e desejo de continuar amando. A pele é porta de entrada para o amor que se aproxima. A pele se protege daquilo que agride o organismo, mas acolhe e absorve aqui que alimenta e vivifica todo o corpo. Tocar a pele é sentir-se vivo, ser tocado na pele, toque que manifesta amor, é desejar viver eternamente. Deixemo-nos tocar pelo amor. Tenhamos cuidado para não cair nas armadilhas dos toques insensíveis. Só vale ser tocado e tocar se for para sermos mais e melhores do que somos.

Éderson Iarochevski

UMA CENA DE AMOR

15 de agosto de 2010

Família (Tarsila do Amaral)

Quando menos se espera, surge diante dos olhos uma cena que nos marca profundamente. A vida acontecendo diante dos olhos. Gestos de amor expressados na simplicidade que garantem a vida de quem vive a situação, e fazem a chama do viver ganhar força em quem contemplou um lindo momento. Há momentos que nos educam e garantem a esperança de realidades que, por vezes, parecem não ter muito tempo de vida.

Era uma rodoviária. Na expectativa da chegada do ônibus havia uma família. Pai, mãe e os três filhos. O primogênito aparenta uns 15 anos, os outros dois irmãos entre 4 e 7 anos. Na aparência é uma família que não possui muitos bens ou recursos financeiros. O dia, domingo, estava lindo, o sol, depois de tanto frio, reapareceu, mas o vento gelado era a companhia deles. Chega o ônibus, todos ficam em pé. Família quando é unida de verdade parece que tudo o que faz junto fica idêntico, parece até que houve algum ensaio: o levantar foi uma bela coreografia. Juntos vão até o bagageiro para garantir que a pequenina mala do filho, que logo partirá para algum destino, possa estar segura. “Temos pouco, muito pouco, mas cuidamos com todo amor, porque este nosso pouco é o nosso muito”; os olhares para a mala pareciam se resumir neste pensamento.

Chega a hora do embarque. A passagem na mão do menino expressa que já é alguém responsável, já pode andar com papel importante nas mãos. O primeiro gesto de despedida foi dar um beijo carinhoso nos irmãozinhos. Eles o olhavam e parecia que se perguntavam: por que ele tem que ir? E nossas brincadeiras, nosso futebol? Quem irá cuidar de nós quando papai e mamãe não estiverem por perto?  Quem vai levar a gente para a escola e ser nosso defensor caso aconteça algo em nossa rua, nosso bairro? Do pai ele se despediu com um aperto de mão e “um tapinha” nas costas. No gesto em si não há muita afetividade, mas nos olhos dava para ver, a quilômetros, a confiança que o pai depositava no filho. O pai o olhava cheio de orgulho. Olhar que dizia: “Este é meu filho! Já sabe o que faz. Já pode viajar sozinho. Já pode conquistar seu espaço, já pode pensar seu futuro”. Só faltava o pai dizer: vai lá e faz bonito, filho!

O menino foi ao encontro da mãe. Foi uma cena belíssima. Enquanto ele se despedia dos irmãozinhos e do pai, sua mãe já se debulhava em lágrimas. Parecia não acreditar que o primeiro filho nascido do seu ventre estaria alçando vôo para longe do ninho. O abraço foi demorado. O beijo foi expressão pura de amor. Ela falou-lhe algo no ouvido. Possivelmente falou o que toda mãe fala quando um filho sai de casa. Palavras que só a mãe tem o dom de falar e só um filho tem a capacidade de entender. No coração daquela mãe nasciam diversos sentimentos: será que ele vai ficar bem? Não seria melhor esperar mais um tempo? Ele é tão criança ainda! Por que tem quer ser assim? Vai em paz, meu filho, a mãe te ama e te espera, logo, em casa!

Se esta é a verdade concreta da cena que vi, não sei, mas no que percebi era isso que aquela imagem me sugeria.

Ao presenciar este momento tão simples e de tamanha grandeza pela verdade que os rostos e gestos evidenciaram, só se fortaleceu em mim a certeza de que a família é um espaço sagrado. Espaço que permite a pessoa crescer, se tornar mais humana. É impossível ser verdadeiramente humano, ser uma pessoa sadia e equilibrada emocionalmente e afetivamente sem ter experimentado a vida em família. Disse o saudoso Papa João Paulo II “… o homem não é apenas um ser social, mas, é ele, um ser familiar”.

Naquela família reunida e unida vi o amor no seu mais alto grau. O pai que confia no filho; os irmãozinhos que o amam e a mãe que, mesmo sem poder evitar a partida do filho, faz, de suas preocupações registradas no olhar, a mais nobre forma de amar alguém. Família é isso: é querer bem àquele que está conosco, que mora em nossa casa. É voltar-se para a pessoa e garantir a ela o direito de ser gente. É oferecer-lhe o que há de melhor em nós.

Naquela família não havia presentes e nem lembranças materiais. Mas, tanto o filho que partirá para algum lugar, quanto o restante da família que ficava, tinham a certeza de que os melhores e eternos presentes ali foram trocados entre eles: a confiança no aperto de mão, o amor nos beijos afetuosos e fraternos, o desejo de breve reencontro nas lágrimas derramadas, a garantia de que um lar esta a espera, nos abraços demorados que não se encerram enquanto não descansarem no retorno de quem está de partida. Família é lugar onde o amor faz morada.

Éderson Iarochevski

SUA VOZ ME CHAMOU

7 de agosto de 2010

Jesus e Pedro na Galiléia (Duda Gracz)

Voz que me chama,
Voz que me ama,
E quer saber de mim.

Está sempre comigo,
Me chama de amigo
E me quer feliz.

Logo que eu ouvi sua voz
A ressoar nos meus ouvidos
Convite que outrora o Senhor me fez:
Eis me aqui, a responder-te.

E AONDE QUER QUE EU VÁ
É A SUA VOZ QUE VAI FALAR.
SOU APENAS INSTRUMENTO
DA POESIA DE DEUS.
CONTIGO NÃO ME CANSO DE AMAR:
VOU ALÉM DE MIM POR TI.
ÉS PRESENÇA INFINITA, MISTÉRIO MAIOR
QUE SE REVELA NO AMOR.

Resplandece na face
Do meu semelhante
Tu! Oh meu Senhor!

Nos olhares que clamam
Corações que esperam
Luz para viver.

Me convida a navegar em outros mares
Ir além do que meus olhos podem ver:
Eis me aqui, Senhor, contigo vou!
Como bons amigos em um só coração.

Éderson Iarochevski


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