A PESSOA É SEMPRE UM MISTÉRIO

Sede bendito, Senhor, por me haverdes feito de modo tão maravilhoso
conheceis até o fundo a minha alma (Sl 138,14).

Há noivos que sonham com um casamento estilo Romeu e Julieta: sonhos mais sonhos. Após algum tempo de casados se estranham: “Pensei que já conhecia você. Mas, você é tão diferente!” Daí surgem certas crises que, ou desembocam num amor maior, ou no fim da vida a dois.

A essa constatação, podemos contar uma outra história, verdadeira: após 64 anos de casamento, ao pé da sepultura, o viúvo fala, sentido: “Querida, foi tão bom a gente estar casado há 64 anos. Pena que tudo passou tão ligeiro. Mal estava começando e já acabou!” Os velhinhos sabiam o que era o amor.

Nós temos uma tendência a dominar a pessoa pelo conhecimento dela. Quanto mais a conhecemos, mais temos condições de dominá-la. Queremos saber tudo a seu respeito: o que pensa, o que faz, o que quer, o que sente. O desconhecido nos amedronta, é misterioso. Ou nos afugenta, ou nos faz cair na admiração, que é a atitude normal diante do mistério.

Quanto mais conhecemos uma pessoa, menos a conhecemos, mais ela se torna misteriosa, desconhecida. O amor nos faz, então, aprofundar o conhecimento pessoal ou, em outras palavras, aprofundar a admiração, o amor. E isso, numa proporção sem limite.

O amor é mais forte do que a morte. Uma vida, por mais longa que seja, é extremamente curta para conhecermos uma pessoa. Uma vida é muito breve para amarmos suficientemente. Nesse ponto muitos se enganam: acham que já se conhecem o suficiente, que já se amam bastante. Acomodam-se um diante do outro, e a vida a dois se torna monótona, solitária, insuportável. Quando o casal acha que já se conhece o suficiente, a vida perde a graça, termina o esforço compensador de aprofundar o relacionamento, acaba a admiração. Isso acontece, sobretudo quando o amor nasceu da beleza física, ou da riqueza, ou do status. Beleza, riqueza, status, podem ser ponto de partida para um grande amor, mas não o alimentam por muito tempo.

O amor se nutre do fascínio, da contemplação do mistério pessoal. E, nesse ponto, a decadência física, a pobreza, não colocam obstáculo, pois amamos uma pessoa, e não seu aspecto exterior, ou suas posses.

Por mais que os pais conheçam os filhos, eles serão sempre surpreendentes e admiráveis. Por mais que um amigo conheça seu amigo, ele será sempre mais digno de admiração. A pessoa é um mistério, porque participa do mistério de Deus. Podemos dominar uma pedra, torná-la pó, analisar suas moléculas, átomos. Ela deixará de ser pedra: será pó. O ser humano, não: é semelhante a Deus que, quanto mais se revela, mais se torna mistério. O mistério de Deus nos leva à adoração; e o mistério da pessoa humana nos leva à admiração, alimento do amor pessoal.

Éderson Iarochevski

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