SOLIDÃO VAZIA, SOLIDÃO POVOADA

Ficar sozinho só é bom e sadio quando livre escolha da pessoa. Ficamos a sós não porque não temos outra escolha, mas sim para dar um tempo ao barulho, pressa, da multidão e nos recolhermos em nós. Sentir-se e pensar-se é revelador, nos leva ao grande encontro: conosco mesmo. Você tem se encontrado com você ultimamente? Tem-se dado atenção? Já sentiu falta de ficar a sós com você mesmo para se conhecer melhor?

É interessante pensar que, quanto menos sabemos de nós, menos teremos capacidade de viver relacionamentos tecidos na verdade, na reciprocidade. Não ter um olhar apurado sobre si é deixar-se dominar por um vazio que vai, aos poucos, roubando tudo o que garante sentido à existência. Pessoas ficam chatas e insuportáveis, as cores são irritantes aos olhos do corpo e da alma, os sons que embalam a vida, ensurdecedores, tudo é problema.

O poeta é aquele que empresta sua poesia para que possamos entender melhor a vida. Cecília Meireles é a poeta que se eterniza no tempo porque sua poesia não envelhece, traz sempre em si um rosto novo para despertar aqueles que,  envelhecidos precocemente pelo vazio que os alimenta, ainda vivem em sono profundo diante de uma vida tão fascinante e bela, vida. Vida que vale a pena ser vivida. No seu poema “Discurso” C. Meirelles fala: “ … pois aqui estou, cantando. Se eu nem sei onde estou, como posso esperar que algum ouvido me escute? Ah! Se eu nem sei quem sou, como posso esperar que venha alguém gostar de mim?” Estas palavras refletem a dor de quem está completamente perdido no vazio que alimenta a dor de estar por fora, alienado: “vivendo a dor da solidão vazia” (Rollo May). Este vazio e esta solidão são características do homem pós-moderno, que pode se relacionar, estar conectado com o mundo inteiro, mas que vive só. Não pode esperar amor porque ele mesmo não decifra o amor que há em seu coração, em seu ser. Não saber quem é e não se esforçar nesta constante procura é morrer, mesmo vivo. Abaixo um simples exemplo para compreender tamanha dor.

Muito me chamou a atenção um programa de TV (Profissão Repórter – Rede Globo): em uma de suas apresentações acompanharam o cotidiano de uma garota de programa. A intenção dos repórteres era apresentar aos telespectadores como vivem as pessoas que se sujeitam ou, por opção mesmo, assumem essa maneira de viver e ganhar a vida. Em uma das chamadas, o cliente contata a “garota” para um programa em luxuoso hotel numa área nobre da cidade de São Paulo. Aproximadamente três horas depois retorna a “garota” toda sorridente e, questionada pelo repórter sobre como foi o programa ela responde: –  foi uma maravilha! Então, envolvido pela curiosidade, o repórter pergunta o porque da tamanha demora para atender o cliente, quer saber os detalhes do programa e a garota prontamente responde: “ele estava me esperando com uma mesa maravilhosa e jantar já posto, um vinho importando caríssimo e queria apenas que jantasse com ele e lhe fizesse companhia. Queria alguém para jantar com ele, apenas isso”.

Não existe solidão mais dolorida: chegar ao ponto de “pagar” uma companhia para não morrer mergulhado em uma solidão vazia, que mata qualquer sentido de viver. Não nascemos para viver o vazio, mas sim para dar sentido pleno aos dias que a nós são confiados na caminhada da vida. Este homem que paga alguém para jantar com ele é a imagem de muitos que vivem uma solidão angustiante e mortal. Solidão tão grande que vai lhes roubando tudo o que há de mais precioso na vida: ganhar o amor gratuito de alguém e oferecê-lo sem esperar recompensa.

Por uma solidão povoada

Somos um território a ser conquistado. Não podemos nos entregar ao acaso. As dores mais agudas são aquelas nascidas do abandono. Da orfandade. Nosso próprio coração, por vezes, tem saudade de nós. Não podemos correr o risco de nos abandonarmos. É preciso “optar por si”.  Na antropologia cristã de fala que é preciso “dispor de si”, isto é, ser de si, ter posse do que se é. É preciso saber o que há em nós. Não é possível que esperemos somente a opinião externa sobre nós mas que, cada um, no passar de seus dias saiba o que é seu. O processo de autoconhecimento é dinâmico, ser realizado todos os dias. Precisamos nos conquistar todos os dias. Nossa mente precisa ser visitada, nosso coração deve sentir nossa presença, nosso corpo precisa ter a certeza de ser cuidado e amado.

É necessário saber onde estamos. Quem somos. É o conhecer-se que permite que a solidão vazia não seja a prisão que nos retirará do palco da vida. Quando estivermos a sós por opção, que estando sozinhos tenhamos a certeza que sempre há alguém nos esperando. Que temos lugares para visitar. Que há um mundo nos esperando logo ali. Estar só, mas na certeza que nunca abandonados. Viver uma solidão povoada, isto é, uma solidão nascida de uma escolha que permite que tenhamos um momento de graça só para nós. Um encontro íntimo conosco. Um passeio gostoso pelas avenidas de nossos pensamentos e sentimentos. Uma aventura pelo mundo que somos nós.

Para sermos ouvidos precisamos saber onde estamos. Para sermos amados precisamos saber quem somos. E não será necessário pagar uma companhia para um jantar. Ao nos conquistarmos como espaço sagrado e repleto de valor possamos saborear as maravilhas da vida na companhia daqueles que, tocados pelo amor, gratuitamente estão ao nosso lado. Nossa solidão necessária seja povoada e nossas companhias, sejam sempre resultado de um amor incondicional que só nos transforma no melhor que podemos ser.

Éderson Iarochevski


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Uma resposta to “SOLIDÃO VAZIA, SOLIDÃO POVOADA”

  1. Joi Says:

    Acredito que “a sós ninguém está sozinho”, as pessoas precisam entender isso… e que a solidão, ás vezes, não nos abandona mesmo estando com outras pessoas ao nosso lado…
    Éder…. seu texto está maravilhoso, vc se expressa lindamente…
    Fiquei feliz com a escolha da foto! abraço.. 🙂

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