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ENTRA NA MINHA CASA, ENTRA NA MINHA VIDA…

31 de julho de 2010
Jesus e Zaqueu

Jesus e Zaqueu

É no evangelho de Lucas (19,1-10) que temos acesso a um gesto da vontade humana de mudar e a graça divina que possibilita tal mudança. A coragem e a misericórdia se entrelaçam. Um homem quer ver Deus e Deus vê este homem. Trocas de olhares que possibilitam viver o mesmo tempo: viver o tempo do outro é amar e ninguém ama na pressa, na correria. É preciso parar, se encontrar, visitar, entrar na casa, entrar na vida do outro. Não existe transformação na vida de ninguém se não há visitas entre os corações.

Zaqueu é a imagem da condição humana infectada pelo pecado que desfigura a imagem original. Jesus é o próprio Deus que revela a imagem verdadeira de homem, ser humano. O que chama atenção na cena é que o primeiro olhar e a primeira atitude diante do outro são Jesus. Enquanto Zaqueu enfrentava sua condição de pequenez tanto em estatura como no significado que dava à sua vida, o próprio Jesus o vê e o chama para perto. Jesus quer fazer parte da vida de Zaqueu, quer adentrar em sua história. Jesus quer ser visita em sua casa, fazer morada em sua vida. O gesto de Zaqueu é impressionante: “desceu rapidamente, e recebeu Jesus com alegria”.

Alegria se traduz em aceitação. Zaqueu aceita com alegria a entrada de Jesus em sua vida. Não há conversão sem aceitação de nossa condição degradante, frágil. Não há transformação verdadeira sem deixar Deus ser hóspede em nosso espaço. Se é preciso  mudar os pensamentos em relação ao sentido da vida, os sentimentos em relação às pessoas e os comportamentos diante do mundo então é preciso, como Zaqueu, receber com alegria e disposição aquele que nos vê e quer estar conosco em nossa casa. Somente quer ficar em nossa casa alguém que é íntimo de nós. Jesus não quer ficar na periferia de nossa vida, ele quer estar no centro. Zaqueu entendeu a mensagem. A experiência do encontro com Jesus torna-se a referência  central e o único tesouro na vida de Zaqueu.

– A exemplo de Zaqueu, como você reconhece suas incoerências e o que faz para reparar os danos causados na vida fraterna, familiar e na missão?

No encontro existencial que se dá entre Jesus e Zaqueu há, por parte de Zaqueu, uma decisão de conversão. Ele assume uma atitude de prontidão e disponibilidade a reparar o dano causado. Sua conversão é concreta, não apenas tecida em palavras, mas, lavrada por gestos que recompõem a vida daqueles que outrora foram explorados pelas mãos deste homem que, em Jesus, foi convertido a uma nova vida. A partilha dos bens deixa o coração livre e desprendido da ganância, e Jesus passa a ser o único tesouro do coração que a ele adere, abre a porta do coração para recebê-lo em sua casa.

– Quais as mudanças que hoje Jesus lhe pede? Você é receptivo para acolher Jesus em sua casa e deixar-se tocar para que as mudanças necessárias aconteçam?

“Hoje a Salvação entrou nesta casa”. O tempo de Deus lhe visitar é hoje. É preciso uma atitude de acolhimento àquele que quer-nos visitar. A visita que espera a acolhida quer oferecer vida nova. Em Deus só existe vida nova. O que é velho ficará para trás. O que é novo dará novo colorido ao presente e engrandecerá o futuro. O Zaqueu velho não existe mais depois do encontro e da aceitação de Jesus e sua mensagem libertadora. O Zaqueu novo tem, como um presente especial, uma nova vida para ser vivida. Nova vida que é modelada no compromisso com a justiça, a solidariedade e o amor.

– Se sua vida precisa mudar, não está na hora de receber a visita certa?

Éderson Iarochevski

COMO BARRO NAS MÃOS DO OLEIRO

24 de julho de 2010

Deus, o Divino Oleiro, é o arquiteto de toda a criação: tão grande é seu amor, que cada peça é sonhada e projetada cuidadosamente. O barro, por mais  que seja disforme, nas mãos do oleiro deixa-se transformar numa obra original e irrepetível. Por si só, o barro não se transforma em vaso, pote, vasilha. É preciso deixar-se modelar.

Com a pessoa, acontece o mesmo: por si só não tem forças para se modelar, transformar-se e resgatar sua verdadeira identidade. É preciso permitir que o Divino Oleiro expresse seu amor na arte de transformar a pessoa à sua imagem e semelhança.

Dentre duzentos tipos de barro conhecidos, somente oito servem para ser trabalhados pelo oleiro.

O barro é escolhido. O Divino Oleiro escolhe o barro. Então, você é escolhido por Deus. Você é um barro bom. Deixe Deus transformá-lo em obra de arte.

O barro é curtido. Após ser escolhido é deixado do lado para repousar por um tempo, com a finalidade de criar maior liga. Nesta fase pode-se experimentar o silêncio de Deus. Parece que o Divino Oleiro fala com todos, menos com você, mas, é o silêncio criativo de Deus que se prepara e deixa o barro em preparação para iniciar sua arte.

Passada esta última fase, o barro é prensado para que o ar, as pedras, as raízes e impurezas sejam retirados, formando uma massa consistente. Surgem angústias quando prensado, mas é parte do processo. Deus permite que você seja humilhado, pisado para poder tirar todo orgulho, vaidade, auto-suficiência… Parece que todos falam mal de você, ninguém o entende, julgam suas atitudes… Ser  prensado é permitir que a humildade nasça em você, e o Espírito Santo, divino hóspede da alma, é aquele que o fortalecerá na disponibilidade, na fé e confiança, para que o “vaso” possa ser tornar consistente desde os primeiros passos de sua modelagem.

O barro é modelado. É hora decisiva: um punhado de barro nas mãos do oleiro vai ganhar a forma desejada. É o momento da entrega total. O barro é colocado  sobre a roda de modelar: é preciso deixar-se modelar pelas mãos do Divino Oleiro, e do barro o sonho do vaso acontecerá. Para que esse sonho aconteça é necessário abrir mão de todos os caprichos, ambições e permitir que o oleiro modele o barro segundo sua sabedoria.  O oleiro não retira um segundo sequer o olhar da obra que está fazendo nascer. Nada desvia sua atenção. Inicia sua obra com leves toques periféricos regados com água. Depois, com precisão, o barro é rasgado, abrindo espaço no seu interior para trabalhar o vaso como havia concebido no coração. Após concluída a obra, pára e contempla.

O vaso, depois de modelado, fica em repouso por alguns dias, preparando-se para enfrentar o calor do fogo que o tornará consistente. O vaso modelado se permite repousar.

O vaso vai ao forno. Com todo cuidado, o oleiro leva sua arte para o forno a fim de ser temperada. O fogo abrasador leva-a a seu limite de resistência. Sente o calor permear cada fibra. Somente o vaso que suportar o calor no forno está hábil para cumprir sua tarefa.

O oleiro retira cada peça do forno e verifica sua capacidade de resistência, dando-lhe um “peteleco”. O vaso é provado: o som emitido é a prova. Se o som é chocho, voltará ao forno, porque ainda não está pronto, mas, se ele “cantar” é porque está apto para seguir seu destino.

O vaso é destinado. Quando o “vaso” está pronto, o Divino Oleiro o enche de seu Espírito e o envia a ser “vaso de bênção” a quem encontrar no caminho.

Seja barro nas mãos de Deus. Deixe que o Divino Oleiro possa moldá-lo, para que possa ser um verdadeiro “vaso de bênção” para o mundo.

Éderson Iarochevski

A PESSOA É SEMPRE UM MISTÉRIO

17 de julho de 2010

Sede bendito, Senhor, por me haverdes feito de modo tão maravilhoso
conheceis até o fundo a minha alma (Sl 138,14).

Há noivos que sonham com um casamento estilo Romeu e Julieta: sonhos mais sonhos. Após algum tempo de casados se estranham: “Pensei que já conhecia você. Mas, você é tão diferente!” Daí surgem certas crises que, ou desembocam num amor maior, ou no fim da vida a dois.

A essa constatação, podemos contar uma outra história, verdadeira: após 64 anos de casamento, ao pé da sepultura, o viúvo fala, sentido: “Querida, foi tão bom a gente estar casado há 64 anos. Pena que tudo passou tão ligeiro. Mal estava começando e já acabou!” Os velhinhos sabiam o que era o amor.

Nós temos uma tendência a dominar a pessoa pelo conhecimento dela. Quanto mais a conhecemos, mais temos condições de dominá-la. Queremos saber tudo a seu respeito: o que pensa, o que faz, o que quer, o que sente. O desconhecido nos amedronta, é misterioso. Ou nos afugenta, ou nos faz cair na admiração, que é a atitude normal diante do mistério.

Quanto mais conhecemos uma pessoa, menos a conhecemos, mais ela se torna misteriosa, desconhecida. O amor nos faz, então, aprofundar o conhecimento pessoal ou, em outras palavras, aprofundar a admiração, o amor. E isso, numa proporção sem limite.

O amor é mais forte do que a morte. Uma vida, por mais longa que seja, é extremamente curta para conhecermos uma pessoa. Uma vida é muito breve para amarmos suficientemente. Nesse ponto muitos se enganam: acham que já se conhecem o suficiente, que já se amam bastante. Acomodam-se um diante do outro, e a vida a dois se torna monótona, solitária, insuportável. Quando o casal acha que já se conhece o suficiente, a vida perde a graça, termina o esforço compensador de aprofundar o relacionamento, acaba a admiração. Isso acontece, sobretudo quando o amor nasceu da beleza física, ou da riqueza, ou do status. Beleza, riqueza, status, podem ser ponto de partida para um grande amor, mas não o alimentam por muito tempo.

O amor se nutre do fascínio, da contemplação do mistério pessoal. E, nesse ponto, a decadência física, a pobreza, não colocam obstáculo, pois amamos uma pessoa, e não seu aspecto exterior, ou suas posses.

Por mais que os pais conheçam os filhos, eles serão sempre surpreendentes e admiráveis. Por mais que um amigo conheça seu amigo, ele será sempre mais digno de admiração. A pessoa é um mistério, porque participa do mistério de Deus. Podemos dominar uma pedra, torná-la pó, analisar suas moléculas, átomos. Ela deixará de ser pedra: será pó. O ser humano, não: é semelhante a Deus que, quanto mais se revela, mais se torna mistério. O mistério de Deus nos leva à adoração; e o mistério da pessoa humana nos leva à admiração, alimento do amor pessoal.

Éderson Iarochevski

EROS, FILIA E ÁGAPE – EXPRESSÕES DE AMOR

10 de julho de 2010

Na língua portuguesa só existe uma palavra para amor: amor. Os gregos fazem três distinções de palavras: eros, filia e ágape. Também na Bíblia e na fé cristã as três palavras definem a intensidade do amor. Essas variações de entendimento sobre a realidade do amor, todos nós já experimentamos. Mas, quem sabe, seria bom algumas reflexões sobre o que significa cada maneira do amor se manifestar.

Eros é o amor carnal, o amor entre homem e mulher, o amor que aproxima duas pessoas que possuem sede de se conquistar. É o amor que pode ser repleto de paixões inebriantes. Interessante que no livro do Cântico dos Cânticos exalta se este amor erótico como um presente que Deus concedeu ao ser humano: “como são ternos teus carinhos, minha irmã e minha noiva! Tuas carícias são mais deliciosas que o vinho; teus perfumes, mais aromáticos que todos os bálsamos” (Ct 4,10). E, ao final, a noiva precisa reconhecer: “porque é forte o amor como a morte… Águas torrenciais não conseguirão apagar o amor, nem rios poderão afogá-lo. Se alguém quisesse comprar o amor com todos os tesouros da sua casa, receberia somente desprezo” (Ct 8,6s).

É uma experiência que todos já tivemos. Esse amor-eros pode ser vivido de forma muito sadia quando o homem integra, unifica corpo e alma. Nas palavras do Papa Bento XVI em sua encíclica Deus Caritas est: “Somente quando ambos (corpo e alma) se fundem verdadeiramente numa unidade é que o homem se torna plenamente ele próprio. Só assim é que o amor – o eros – pode amadurecer até sua verdadeira grandeza”. Na mesma encíclica, o Papa fala que o amor erótico é também o de Deus por nós: Deus assume a natureza humana para amá-la e ser amado. É também o amor dos amigos, o amor pelos doentes e pobres: ali a dimensão erótica expressa o amor carnal em seu sentido pleno de amar a natureza humana.

Filia é o amor de amizade. É o amor que não monopoliza, não escraviza, não cria dependentes. É o amor que vive a alegria de se comunicar com alguém do jeito que a pessoa é. Esse amor culmina na disposição de expor a vida em benefício do outro. Jesus refere-se a este ideal quando fala de si: “ninguém tem maior amor do que aquele dá a vida pelos amigos” (Jo 15,13). Na vida precisamos cantar, celebrar as amizades. Para Epicuro, filósofo grego nascido em Atenas, a amizade é o máximo que a sabedoria da felicidade nos pode oferecer na vida. Os gregos, nas palavras de Anselm Grün, foram o povo da amizade. Muitas relações são verdadeiramente valiosas porque cresceram sobre o bojo da amizade. Na canção de Rui Biriva se canta “amizade é dom divino da paz. É poesia e violão cantando a mesma canção com duas vozes iguais. São os diamantes da vida que brilham nos olhos da gente. Um amigo é para sempre”.

Ágape é o amor divino, o amor em estado puro. É o amor que é fundado na fé e por ela plasmado. É um benquerer de coração não só ao amigo, mas a todas as pessoas. Não se limita às nossas relações cotidianas e habituais: se estende e prolonga-se até mesmo com aqueles que não temos contato direto. É também o amor de Deus por nós e o nosso amor por Deus. O ágape não quer nada dos outros nem de Deus, não é interesseiro e não espera recompensas e premiações por seus gestos, ama os outros por causa deles mesmos. O ágape não se mistura com os desejos de posse e vontade de dominar e explorar, não é um amor por “piedade” ou por cumprimento de deveres morais/religiosos mas, nasce da disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe o amor que nos torna sensíveis também diante de Deus. É neste amor que experimentamos, no serviço ao próximo, o modo com que Deus me ama e tudo o que ele faz por mim e pela humanidade. É o amor reflete o amor divino. É o ápice do amor – união do eros, filia, doação total – pelo qual ansiamos no mais profundo de nosso ser (cf. Hino do Amor, de Paulo, em 1Cor 13, 1-13).

As três maneiras de amor formam um conjunto inseparável. A filia participa da força do eros. E também o ágape precisa do eros, caso contrário se esvazia. O ágape está presente no amor erótico e amigo. Torna se então um amor puro e límpido. Amor que dá sentido para a vida. Novamente nas palavras de Bento XVI “Deus é absolutamente a fonte originária de todo ser; mas esse princípio criador de todas as coisas é, ao mesmo tempo, um amante com toda a paixão de um verdadeiro amor. desse modo, o eros (também a filia) é enobrecido ao máximo, mas simultaneamente tão purificado que se funde com o ágape”. Essa unificação não se dá em confusão. É a unidade que cria o amor, na qual ambos – Deus e o homem – permanecem eles mesmos, mas, nas palavras do Apóstolo Paulo, tornando-se uma só coisa: “aquele, porém, que se une ao Senhor constitui, com Ele, um só espírito” (1 Cor 6,17).

Éderson Iarochevski


SOLIDÃO VAZIA, SOLIDÃO POVOADA

3 de julho de 2010

Ficar sozinho só é bom e sadio quando livre escolha da pessoa. Ficamos a sós não porque não temos outra escolha, mas sim para dar um tempo ao barulho, pressa, da multidão e nos recolhermos em nós. Sentir-se e pensar-se é revelador, nos leva ao grande encontro: conosco mesmo. Você tem se encontrado com você ultimamente? Tem-se dado atenção? Já sentiu falta de ficar a sós com você mesmo para se conhecer melhor?

É interessante pensar que, quanto menos sabemos de nós, menos teremos capacidade de viver relacionamentos tecidos na verdade, na reciprocidade. Não ter um olhar apurado sobre si é deixar-se dominar por um vazio que vai, aos poucos, roubando tudo o que garante sentido à existência. Pessoas ficam chatas e insuportáveis, as cores são irritantes aos olhos do corpo e da alma, os sons que embalam a vida, ensurdecedores, tudo é problema.

O poeta é aquele que empresta sua poesia para que possamos entender melhor a vida. Cecília Meireles é a poeta que se eterniza no tempo porque sua poesia não envelhece, traz sempre em si um rosto novo para despertar aqueles que,  envelhecidos precocemente pelo vazio que os alimenta, ainda vivem em sono profundo diante de uma vida tão fascinante e bela, vida. Vida que vale a pena ser vivida. No seu poema “Discurso” C. Meirelles fala: “ … pois aqui estou, cantando. Se eu nem sei onde estou, como posso esperar que algum ouvido me escute? Ah! Se eu nem sei quem sou, como posso esperar que venha alguém gostar de mim?” Estas palavras refletem a dor de quem está completamente perdido no vazio que alimenta a dor de estar por fora, alienado: “vivendo a dor da solidão vazia” (Rollo May). Este vazio e esta solidão são características do homem pós-moderno, que pode se relacionar, estar conectado com o mundo inteiro, mas que vive só. Não pode esperar amor porque ele mesmo não decifra o amor que há em seu coração, em seu ser. Não saber quem é e não se esforçar nesta constante procura é morrer, mesmo vivo. Abaixo um simples exemplo para compreender tamanha dor.

Muito me chamou a atenção um programa de TV (Profissão Repórter – Rede Globo): em uma de suas apresentações acompanharam o cotidiano de uma garota de programa. A intenção dos repórteres era apresentar aos telespectadores como vivem as pessoas que se sujeitam ou, por opção mesmo, assumem essa maneira de viver e ganhar a vida. Em uma das chamadas, o cliente contata a “garota” para um programa em luxuoso hotel numa área nobre da cidade de São Paulo. Aproximadamente três horas depois retorna a “garota” toda sorridente e, questionada pelo repórter sobre como foi o programa ela responde: –  foi uma maravilha! Então, envolvido pela curiosidade, o repórter pergunta o porque da tamanha demora para atender o cliente, quer saber os detalhes do programa e a garota prontamente responde: “ele estava me esperando com uma mesa maravilhosa e jantar já posto, um vinho importando caríssimo e queria apenas que jantasse com ele e lhe fizesse companhia. Queria alguém para jantar com ele, apenas isso”.

Não existe solidão mais dolorida: chegar ao ponto de “pagar” uma companhia para não morrer mergulhado em uma solidão vazia, que mata qualquer sentido de viver. Não nascemos para viver o vazio, mas sim para dar sentido pleno aos dias que a nós são confiados na caminhada da vida. Este homem que paga alguém para jantar com ele é a imagem de muitos que vivem uma solidão angustiante e mortal. Solidão tão grande que vai lhes roubando tudo o que há de mais precioso na vida: ganhar o amor gratuito de alguém e oferecê-lo sem esperar recompensa.

Por uma solidão povoada

Somos um território a ser conquistado. Não podemos nos entregar ao acaso. As dores mais agudas são aquelas nascidas do abandono. Da orfandade. Nosso próprio coração, por vezes, tem saudade de nós. Não podemos correr o risco de nos abandonarmos. É preciso “optar por si”.  Na antropologia cristã de fala que é preciso “dispor de si”, isto é, ser de si, ter posse do que se é. É preciso saber o que há em nós. Não é possível que esperemos somente a opinião externa sobre nós mas que, cada um, no passar de seus dias saiba o que é seu. O processo de autoconhecimento é dinâmico, ser realizado todos os dias. Precisamos nos conquistar todos os dias. Nossa mente precisa ser visitada, nosso coração deve sentir nossa presença, nosso corpo precisa ter a certeza de ser cuidado e amado.

É necessário saber onde estamos. Quem somos. É o conhecer-se que permite que a solidão vazia não seja a prisão que nos retirará do palco da vida. Quando estivermos a sós por opção, que estando sozinhos tenhamos a certeza que sempre há alguém nos esperando. Que temos lugares para visitar. Que há um mundo nos esperando logo ali. Estar só, mas na certeza que nunca abandonados. Viver uma solidão povoada, isto é, uma solidão nascida de uma escolha que permite que tenhamos um momento de graça só para nós. Um encontro íntimo conosco. Um passeio gostoso pelas avenidas de nossos pensamentos e sentimentos. Uma aventura pelo mundo que somos nós.

Para sermos ouvidos precisamos saber onde estamos. Para sermos amados precisamos saber quem somos. E não será necessário pagar uma companhia para um jantar. Ao nos conquistarmos como espaço sagrado e repleto de valor possamos saborear as maravilhas da vida na companhia daqueles que, tocados pelo amor, gratuitamente estão ao nosso lado. Nossa solidão necessária seja povoada e nossas companhias, sejam sempre resultado de um amor incondicional que só nos transforma no melhor que podemos ser.

Éderson Iarochevski



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