APENAS UMA VARANDA

A arquitetura moderna, com seus novos e ousados projetos está ficando, de certa maneira, empobrecida. Explico-me: cada vez mais se deixa de lado a construção de varandas nas casas que são projetadas.

Quem tem uma varanda em sua casa, bem sabe que é impossível dela se desfazer. É um dos melhores lugares da casa.  Paredes nos fazem pensar em prisão, são uma forma convencional de se isolar. Não ter paredes, muros, cercas, metaforicamente falando, garante “liberdade”.

Recordemos de nossas experiências em varandas ou nos imaginemos vivendo tal situação. Final de tarde, chegamos de nossas atividades diárias e queremos um bom lugar para descansar e ficar em paz. Logo se traz uma cadeira – pode ser o chão – para se sentar, e é na varanda que o corpo, cansado do labor do dia, se permite acalmar. Varanda: doce remédio para um bom e merecido descanso.

Gratuitamente o sol retorna a seu berço e nós, da varanda, contemplamos este momento belo que somente um fim de tarde pode proporcionar. A brisa, sem pedir licença, vai entrando e tomando conta do espaço, refresca nosso corpo, nos oferece mais vida. Interessante que a brisa é tão delicada que, às vezes, sem nos darmos conta, estamos de olhos fechados sentindo o carinho que ela nos faz ao nos tocar.

Da varanda passamos a observar tudo o que acontece diante de nossa casa. Vemos os vizinhos, as outras casas com outras varandas, as flores, a estrada, o verde, enfim. A paisagem humana e a paisagem natural diante dos nossos olhos.  Somente estando na varanda para se ver as coisas por inteiro. Olhar pela janela: corre-se o risco de sermos enganados pelo tamanho ou, na pior das hipóteses, pela sujeira que nela possa existir e nos fazer pensar que está do lado de fora e não do nosso lado. Olhar da varanda faz com que erremos menos. Quem está na varanda pode ver e ser visto. Estar na varanda é possibilidade de ser visitado ao avistar, e de avistar ao ser visitado.

É na varanda que começamos a conversar sobre o que aconteceu durante o dia. Na varanda nos encontramos com quem convive no mesmo espaço que nós. É na varanda que acolhemos quem à nossa casa chega.

Varanda é lugar de acolhida, mas é também lugar de despedida. A mãe ansiosa espera o filho na varanda, a mesma mãe com o coração apertado abraça o filho na despedida. Vai o filho, fica a varanda. É da varanda que se pode ver o desenho da estrada e é ali que a saudade toca os corações daqueles que amam e aguardam, ansiosos, a chegada de quem prometeu retornar.

Algo marcante na varanda é a roda de chimarrão (principalmente no Sul do país). Quem nunca tomou um chimarrão em uma roda de amigos ou familiares em uma varanda, por favor, se convide para participar de uma. Que experiência! As horas passam e a gente nem vê. Ali todo mundo é importante. Todos podem contar suas histórias, dar suas opiniões, mudar de assunto o quanto quiserem, não há protocolo, varanda é lugar de ser você mesmo. É oportunidade de conhecer e ser conhecido. Na varanda todos se sentem bem. O interessante da varanda é que ela não permite tristeza, pois ninguém permanece ali se não estiver bem. Ficar na varanda é sinal de que as coisas “vão indo bem” e, se não estão bem, é bom resolver logo, pois a varanda sempre espera e tem lugar para mais um.

Às vezes, diante de tantas maravilhas construídas, um sonho se insinua: ter apenas uma varanda.

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