Archive for abril \24\UTC 2010

ORAÇÃO DA SIMPLICIDADE

24 de abril de 2010

Beatriz em oração - Gabriel Rossetti

Senhor,
ensina minhas mãos a te servir.
Acalenta meu coração para que ame,
verdadeiramente, a Ti.

Que meus olhos possam encontrar-te
no céu e na terra.
Meus ouvidos possam te ouvir
no vento e no mar.
E todas as minhas forças
possam trabalhar por teu nome.

Senhor,
faze com que eu saiba amar os outros como irmãos
e servir-te como a um pai.
Que minha vida seja digna de tua presença.

Senhor,
que eu me sinta somente teu.

Permite-me, Senhor,
morar em teu coração.

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A PAZ É O CAMINHO DA PAZ

16 de abril de 2010

A Paz - Meditação - foto Jan Grabek

É difícil falar de paz diante de tantas realidades que contrariam o sonhado outro mundo possível, onde a paz e a justiça prevalecerão.  Todos os dias somos bombardeados com noticias de violências que agridem desde o menor indefeso e até os equipados com os  mais sofisticados meios de segurança. A violência chega a todos os lugares e, depois que passa, as marcas ficam para sempre gravadas na mente de quem a sofreu na própria pele. Aqueles que com um sentimento de compaixão se aproximam das vítimas, sofrem só de se imaginarem em tal situação. Violência física e terror psicológico parecem ser companhias de nosso povo.

O que é preciso para reconstruir o caminho da paz?

A bela definição da Carta da Terra nos diz que “a paz é a plenitude que resulta das relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a terra e com o grande Todo do qual fazemos parte” (no. 16). É interessante considerar que a paz não nasce por automatismo, não é um milagre que cai do céu. Ela precisa do pensar e do agir humano para ganhar corpo, para existir.

A paz é sempre fruto de valores que devem existir previamente. O resultado feliz é então a paz, o bem mais desejado e necessário para toda a humanidade.

Resumimos alguns valores para a confecção do caminho da paz:

* a hospitalidade aberta – é abrir a porta e acolher o outro, se alegrar com as afinidades que nos aproximam e querer aprender com as diferenças por ele apresentadas;

*a convivência fraternapermite sentar juntos, coexistir e intercambiar, ter consciência que toda pessoa, em sua condição humana, é limitada e que, para conviver, é necessário “saber esperar”, ter paciência, pois o desenvolvimento das dimensões de cada um se dá em tempos diferentes. Não ter a pretensão de querer pessoas perfeitas ao seu lado, mas se esforçar para amar quem, nas suas limitações e potencialidades, esta próximo de você;

*testemunho do respeito por mais que se tenha vontade, a convivência nem  sempre é pacífica. Há arestas que sobram, perspectivas e dimensões do outro que ou não entendemos, ou temos dificuldades em acolher porque nos causam estranheza e nos desagradam. Se assim for, o respeito deve vigorar, ele se torna imprescindível para a convivência com o outro.

*tolerância ativa – é a capacidade de conviver positivamente com o outro porque se tem respeito por ele e se aceita a riqueza multifacetada da realidade. Consegue ver dimensões que sem o outro jamais teria oportunidade de visualizar, perceber possibilidades de condivisão e parceria e assim se enriquecer mediante o contato e a troca. Ter consciência que só crescemos como ser humanos na medida em que, respeitosamente, aceitamos o diferente em nossa vida.

* comensalidade universalé a capacidade de sentar juntos, se por à mesa, trocar as experiências de vida, histórias, aprender com as vivências do outro e oferecer o que há de melhor para que o outro também possa valer-se do que há de melhor em nós. Nas palavras de Leonardo Boff  “é necessário sentar à mesa para comer e beber juntos e viver em paz”.

A paz necessita de mentes e corações dispostos a transformar a realidade. Tudo o que faz surgir laços de afeto entre seres humanos age contra a guerra. E não só a guerra entre exércitos, mas a guerra que se inicia no interior do ser humano e vai, aos poucos, esfacelando-o e transformando sua realidade existencial em uma grande guerra onde não há vitórias, apenas derrotas.

Como na oração atribuída a São Francisco, o caminho da paz se abre no momento em que reforçamos o amor onde há  ódio, o perdão onde há ofensa, a união onde se introduz a discórdia, a fé onde impera a dúvida, a verdade onde grassa o erro, a esperança onde triunfa o desespero, a alegria onde se mostra a tristeza, a luz onde dominam as trevas. No caminho de São Francisco podemos nós também caminhar. É necessário fazer da paz não apenas uma meta desejável, mas o caminho mais certo e mais curto para se chegar a ela.

OS DISCÍPULOS DE EMAÚS, MEUS AMIGOS E EU

10 de abril de 2010

(Com esse texto singelo,refletindo na dor que os discípulos de Emaús sentiram pela perda de seu grande amigo e Mestre Jesus, quero expressar a dor minha e de tantos amigos pela perda repentina do amigo Gustavo Falchetti, morto aos 27 anos em Arroio Trinda, SC em 07 de abril pp).

Se existe dor maior que perder alguém que se ama, ainda não bateu à nossa porta. A morte de um amigo é como cortar um pedaço da gente; o coração sente a partida desse pedaço insubstituível e é sentido de modo único o amargor da orfandade. Como no relato dos dois amigos caminhando para Emaús (cf. Lc 24, 13-35), nós também ficamos sem inteligência, lentos, com os olhos vendados quando, sem nos prepararmos, perdemos quem conosco estava e já não estará mais. O caminhar enfraquece, o desânimo se aproxima, a criatividade perde espaço: se embota o colorido da vida.

Os discípulos de Emaús, como meus amigos e eu, sofreram com a perda do melhor Amigo. Seus rostos estavam tristes. Seu caminhar, com certeza, ficou mais debilitado, inseguro. Sem a presença do amigo, as inseguranças parecem ficar mais visíveis, porque mais próximas. Ele estava conosco e agora não está mais. Como entender essa realidade? A dor da ausência é sentida. A saudade faz chorar de amor, pois a saudade é justamente para lembrar, fazer memória, ensinar que devemos amar também na ausência. Mesmo que pareça impossível. Continuar amando na ausência é prova verdadeira do amor.

Amizades são conquistadas ao longo do tempo, são entrelaçamentos de histórias, um nascer com alguém. Ter amigos é nascer para a vida. Ter um amigo é a certeza de que você mora no coração dele e ele mora no seu. Amigos se visitam diretamente no coração. Mesmo não fazendo companhia, não estando ao meu lado, sei que, através dos sinais marcados em minha vida, meu amigo ressuscita sempre. Está vivo. Nossa amizade se prolonga na eternidade.

Os discípulos de Emaús reconheceram que seu melhor amigo estava vivo quando, sentados à mesa, ele partiu o pão e deu-se a conhecer (Lc 24, 30). Seus olhos se abriram, seu coração se abrasava cada vez mais. A verdade estava restabelecida. Seu amigo não tinha ido embora. Estava ali, com eles. Amigo nunca abandona. Amigo nos acompanha para sempre. Amigo é, com certeza, companhia eterna. Mas para experimentar a ressurreição e a presença real do seu melhor amigo, eles necessitaram de um sinal: foi o partir do pão. Quantas vezes esse amigo fez o gesto na presença deles: o pão recebido das mãos dele. Daquele que despertava sentido em suas vidas. Que ensinava como viver. Que sabia acolher nas horas de dificuldades, que vivia intensamente as alegrias que a vida proporcionava. Amigo é justamente isso: vive a vida para amar, para ser sinal e gesto concreto de amor.

Redescobriram o caminho e seus passos aceleraram para andar e anunciar que seu amigo vive eternamente. Sem ocultar a felicidade, se põem a caminho. Quando a amizade é certa, não há fronteiras para anunciar que amar vale a pena. Os amigos do melhor amigo, ao experimentar, no sinal do pão repartido, a presença real do amado, redescobriram a vontade de viver, de proclamar o amor. Tudo o que for realizado será para celebrar e manter viva a presença daquele que nunca nos deixou.

Ao perder um amigo, meus amigos, seus familiares e eu vamos descobrir nos sinais que este amigo realizava sua presença real em nosso coração. A alegria de ser jovem, a beleza da música que nele residia e que encanta e nos faz sonhar, os projetos ousados, a simplicidade das conversas que faziam o dia ficar mais interessante e tantos outros sinais que cada amigo experimentou na companhia desse que foi embora mas que, na verdade, nunca nos deixará. Agora, como os discípulos de Emaús, vamos transformar a saudade dolorida em gestos concretos de amor, para manter viva a presença daquele que afirmamos ser o nosso melhor amigo.

TOMÉ – NAS CHAGAS DE JESUS O SINAL DA RESSURREIÇÃO

5 de abril de 2010

Jesus revela sua chaga a Tomé - Duda Garcz - Via Sacra de Jasna Gora

Não se perturbe o vosso coração (Jo 14,1), era a certeza que Jesus queria plantar no terreno fértil do coração de seus apóstolos. Era total sua dedicação a eles, ensinando-os através do amor que se estendia em gestos concretos e visíveis (Jo 11,7-16). Mas os pensamentos e os caminhos do Senhor não são os mesmos que os nossos (Jr 58,8-11). O olhar de Deus é diferente de nosso olhar. Deus não necessita ver a obra pronta para nela crer: acredita, aposta seu amor. É o que acontece nos sonhos que Deus tem para cada um de nós. Ainda não tem o resultado de nossa história, mas acredita que, por mais que os desafios sejam ameaçadores, nosso destino é a felicidade, a vida plena, e nos acompanha nesta caminhada cujo início e desfecho são a vida eterna. Nós, ao contrário, temos a pressa de resultados, não exercitamos a arte da espera, do tempo certo. O amanha é tarde demais, tudo queremos hoje, agora.

Enquanto Deus, revelando seu mistério maior, cria um jardim para brincar e se alegrar com o ser humano, modelado por ele à sua imagem e semelhança, “abaixando-se” para amar, nós vamos construindo Torres de Babel, edifícios que representam o desejo avassalador de conquistar tudo, inclusive absorver o mistério, apresentando nosso desejo, não de amar, mas confundir, egoisticamente dominar, explorar o que existe.

Jesus de Nazaré, rezado na Ladainha como “desejado das colinas eternas”, o grande desejo de Deus, nas palavras de Rubem Alves “o maior sonho de Deus transformado em corpo, sua confissão de amor entre nós, como irmão”, assume o caminho para o calvário provando sua fidelidade a Deus, provando seus sonhos para toda a criação a ser redimida pelo sangue que banhou todas as coisas, e assim, as faz todas novas.

Para os amigos de Jesus, porém, os apóstolos, à primeira vista o que ocorreu foi o fracasso total de seu projeto e sonhos. Tanto é verdade que ficaram escondidos (Jo 20,19). Mas o Senhor não os decepcionou. Aparecendo onde estavam, primeiramente lhes deseja a paz (Jo 20,19). Quer que seus corações não mais se perturbem, pois o Senhor ressuscitou. O Deus da vida se apresenta para amar eternamente os seus. E ainda, “ressuscitará a todos nós, pelo seu poder” (1Cor 6,14).

Aquele que crê, vê mais

O apóstolo Tomé viu e acreditou; feliz de quem crê sem ver (Jo 20,29). Duvidar diante do mistério não é pecado. Pelo contrário, faz com que a fé amadureça. A dúvida, quando vivida de forma justa e sincera, nos faz crescer. No entanto, quando ela é posta simplesmente para provar nossas especulações acerca de uma realidade ainda não experimentada, torna-se um mal: depois de conhecida a realidade, nada mais se acrescentará ao que conheceu.

Tomé, em suas limitações, tinha dificuldade de compreender o que Jesus, em sua missão, apresentava. Não conseguia assimilar o caminho assumido pelo Mestre (Jo 14,5). Quantas vezes, também nós ficamos confusos quando somos apresentados aos caminhos que, através do exemplo de Cristo, somos convidados a caminhar? O apóstolo Tomé, por vezes reconhecido só como aquele que não crê sem ver, é o primeiro a se apresentar e convocar seus amigos para seguir Jesus rumo a Betânia, lugar próximo a perigosa cidade de Jerusalém, onde aconteceria a ressurreição de Lázaro (Jo 11,16). Não se percebe medo ou desejo de fuga da parte do apóstolo. Pelo contrário, quer assumir a causa de Cristo, o Reino de Deus. Totalmente humano e provido de limitações como o cansaço, a incerteza e também, o medo, a qualquer momento pode deixar-se abater, duvidar. Já pensou quantas vezes nós somos assim: um dia prontos para nos entregar até a morte se preciso for e no outro, quanto mais distante do caminho do calvário, melhor?

O interessante é que, nas incertezas de Tomé, Jesus revela a certeza de Deus para com a humanidade e toda a criação. Quando Tomé não sabia para onde ir, Jesus se apresenta como Caminho, Verdade e Vida (Jo 14,6). Foi primeiro a Tomé que Cristo fez essa revelação, decisiva para nós e para todos os tempos. Fala Bento XVI que “cada vez que ouvimos ou lemos essas palavras, podemos colocar-nos ao lado de Tomé em pensamento e imaginar que o Senhor diz também a nós o que disse a ele”.

Tomé, ouvindo o relato dos amigos, não acreditou que Cristo realmente tivesse ressuscitado (Jo 11,25): para ele era necessário ver, nas mãos de Cristo, o lugar dos cravos. Muito mais que a face, precisava tocar nas chagas para crer. Oito dias depois Jesus reaparece e, desta vez, Tomé está reunido com a comunidade. Jesus lhe diz: “Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos. Estende tua mão e põe-na no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crê” (Jo 20,27). E Tomé reage com a mais esplêndida profissão de fé de todo o Novo Testamento: “Meu Senhor, e Meu Deus!” (Jo 20,28).

Nas últimas palavras desta passagem, diz o Senhor: “felizes os que não viram e creram” (Jo 20,29). Com essas palavras Cristo enuncia um princípio fundamental para os cristãos que viriam depois de Tomé, para nós, portanto. Hoje podemos dizer: felizes os que não vêem e, no entanto, crêem.

O testemunho de Tomé nos desperta para vivermos a fé de maneira mais autêntica. Fé que não é uma forma fraca de crença ou conhecimento, não é a fé nisso ou naquilo, mas sim, convicção sobre o que não foi demonstrado materialmente diante dos olhos do corpo, mas que os olhos da alma tantas vezes já viram, sentiram e tocaram. Fé como conhecimento da possibilidade real. Quem crê sem ver, vê mais. Uma fé não naquilo que é cientificamente previsível, nem tampouco naquilo que é impossível, mas sim, fé que se baseia em nossa experiência de vida, do amor divino já vivido em nossa história e que nos transformou. A visão de tantos que se transformaram é sinal de que eu também posso mudar. Tomé, vendo as chagas de Cristo se transformou mas nós, sem o contato sensível das chagas, nelas cremos e também exclamamos: Meu Senhor e meu Deus!

Com Tomé, que viu e creu, nós somos confortados em nossa insegurança ao tantas vezes ficarmos abatidos diante do mistério de amor de nosso Deus e de sua presença atuante na história. Também, com Tomé, percebemos que a dúvida pode nos levar a um encontro, num caminho mais luminoso do que a incerteza. E somos lembrados, pelas palavras que Jesus dirigiu a Tomé, do verdadeiro significado da fé madura que nos encoraja a perseverar, apesar das dificuldades, em nossa jornada de adesão a ele. Aquele que crê, vê mais! Em nossas dúvidas diante do mistério tenhamos a humildade de dizer, com toda a fé: “Não te compreendo, Senhor, escuta-me, ajuda-me a compreender!”

O Caminho do Calvário: uma oferta de amor

1 de abril de 2010

Jesus carrega a Cruz - Via-sacra de Jasna Gora

O caminho do Senhor para o calvário é caminho de fidelidade e não de sofrimento pelo prazer de sofrer. Numa piedade desfigurada muitos o entendem como um trajeto de dor, tristeza, abandono, desolação. Tudo gira em torno do sofrimento cruento, parece que há necessidade do espetáculo sanguinário para que a fé se estabeleça. Quanto mais violência, mais se acreditará. Parece que o objetivo é testar o quanto Deus, em seu filho Jesus, resiste.

Se for um Deus forte, ele vai suportar o mundo que desaba sob o peso de muitas chicotadas que, com toda a violência, lhe desfiguram o corpo. Muitos filmes ganham fama por apresentarem o calvário como um caminho de carnificina humana. Mas, o caminho do calvário trilhado por Jesus Cristo não tem importância só pela violência: o que se deve contemplar é o gesto, a entrega, o amor que ali se manifesta. Uma visão distorcida faz a fé parecer sedenta de sangue, de dor e sofrimentos sem sentido.

O calvário não estava nos planos de Deus. Foi um caminho construído por nós, homens de má vontade. Homens que detestam amar, onde qualquer mudança que possibilite o bem de todos é vista como um empecilho para a ordem e o progresso, homens afetados pelo mal em seu maior grau. Meditando essa verdade Jurgen Bultmann escreve: “O caminho do calvário e a cruz são as respostas do mundo ao amor cristão”. Diante de um amor que renova todas as coisas; que possibilita uma vida mais saudável e alegre; onde todos podem se relacionar como irmãos que se querem bem; relações que permitam a vivência da paz e prática da justiça; espaços onde a vida, mesmo com suas limitações, é festejada; diante de um amor que exige novo jeito de pensar a própria vida, e a vida em relação aos outros irmãos, os poderosos do mundo oferecem como resposta a humilhação, a perseguição e a condenação. O calvário é oferta/escravidão de um mundo, ou melhor, de homens que estão fechados à conversão. Corações que se tornam impenetráveis. Corações de pedra que preferem matar a renovar suas vidas.

Não  é possível crer que Deus quisesse a morte de seu Filho: um pai que ama jamais aceitaria isso. Quem viveria sua vida por um Deus que mata o próprio filho? Creio que ninguém. Jesus, portanto, não buscou a morte. Esta lhe foi imposta por uma situação estrutural que se criara. A morte foi conseqüência de sua fidelidade ao Pai. Ele não a buscou e nem a quis. Aceitou-a não com impotente resignação e soberano estoicismo, mas como uma pessoa livre que se sobrepõe à dureza da necessidade. Não deixa que lhe tomem a vida, pois ele mesmo, livremente, a dá do mesmo modo como se entregou a nós durante sua vida terrena. O caminho do calvário é uma oferta de amor, resultado de uma vida toda ofertada, simplesmente, por amor.

Deus aceita a cruz de Jesus porque é oferta de amor por nós

É preciso guardar em nosso coração: “Deus não suporta o sofrimento, mas o assume porque ama”. Podemos dizer que o caminho para o calvário, que levou Jesus Cristo à crucifixão, é a revelação da Cristologia da Solidariedade: Cristo está conosco, especialmente com os abandonados, os sem-rosto, os não-pessoas, os renegados pela história. O amor que se revela no caminho do calvário não é o amor à beleza e ao brilho, o gosto pelo espetáculo. O caminho que leva Jesus à cruz contém uma decisão própria: seu amor ativo pelos sofredores transforma-se em seu amor de sofrimento pelos que sofrem. Não podemos querer entender a sua “obediência a Deus no sofrimento” somente como imolação pelos pecados do mundo, mas sobretudo como sua dedicação sem medida aos abandonados, até às últimas conseqüências. Assim, em Jesus manifesta-se um amor divino, como afirma Ernest Bloch, “antes não imaginado em nenhum outro Deus”. O caminho do calvário é revelador de nosso Deus que, ao se manifestar na entrega de Jesus à morte, nos coloca diante de um amor não simplesmente apaixonado, mas também é capaz de suportar o destino da morte.

Deus não queria a morte de Cristo. Queria sua fidelidade até o fim que ele lhe oferecia. A fidelidade pode implicar na morte. O caminho do calvário está inserido numa estrutura ambígua do mal e do bem. De um lado, apresenta a maldade dos homens que, sem dó e sem compaixão, levam suas vítimas até a dolorosa cruz; de outro, o caminho do calvário se torna símbolo de um amor mais forte do que a morte.

Para viver este amor Jesus não voltou atrás, não quis perder a fidelidade incondicional ao Pai. Assumiu tal caminho não como um fardo do qual não podia se libertar e sim, assumiu-o na liberdade fruto da fidelidade de sua missão vivida até a radicalidade. Jesus só assumiu o sofrimento presente no caminho do calvário porque amava com total doação.

Hoje existem os calvários para trilharmos sozinhos ou com os outros. Calvários com nomes definidos: dependências em suas diferentes formas: drogas, afetos, sexo, trabalho, internet e outras tantas; depressões; falta de reciprocidade nas relações; consumismo obsessivo – compulsivo; medo de ficar totalmente só; a fome que mata milhões; as alterações climáticas e suas conseqüências diretas na vida de toda humanidade; a falta de compromisso e seriedade de pessoas públicas; o mercado religioso que “vende Deus” como um objeto de consumo; a falta de compaixão, amor e respeito no cotidiano de nossas vidas, de nossa história.

Calvários do nosso tempo, de nossos dias. Calvários que fazem vítimas os inocentes, muitos sofrimentos na caminhada, não podemos negar essa verdade.  Mas, somente teremos coragem de enfrentá-los quando estivermos convencidos de que o sofrimento só vale quando a causa for justa. E haverá causa mais justa e nobre do que o amor-doação?  Se o caminho do calvário nos apresenta o sofrimento, nós, a ele, ofereceremos o amor.


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