Archive for março \28\UTC 2010

LAVAR OS PÉS – UM GESTO DIVINO DE AMOR

28 de março de 2010

Jesus é  servo de Deus e dos homens. Toda sua vida foi um lava-pés, um serviço aos homens, a verdadeira Diakonia (estar a serviço). Jesus deu o exemplo de uma vida totalmente dedicado aos outros, uma vida feita “pão partido para o mundo”. Quebrou as regras de seu tempo, os tradicionalismos não engessaram seu amor, nos seus gestos as pessoas, de modo especial os discípulos, identificavam um poder superior a tudo o que eles já tinham encontrado na vida. Eram gestos que devolviam a dignidade, o desejo de continuar vivendo, de reencontrar o sentido das coisas simples, alimentar a esperança mesmo em meio à dor e ao sofrimento.

Para Charles de Foucauld, Jesus sempre “desceu”,  por toda sua vida ele só desceu, desceu ao encarnar-se, desceu ao fazer-se filho, desceu ao obedecer, desceu ao fazer-se pobre, abandonado, exilado, perseguido, supliciado, ao se colocar-se sempre no último lugar”. Ao lavar os pés dos seus discípulos, Jesus também desceu. Esta “descida”, o “abaixar-se” não pode ser entendido como humilhação, uma obrigação imposta pela situação vivida. Jesus, ao lavar os pés de seus amigos revela que toda sua vida se resume em “servir e amar”. Um amor que não se cansa (São João da Cruz); amor que só com amor se pode pagar.

Todo esse amor se revela nas palavras de Jesus: “Não há maior amor que dar a vida por aquele que se ama” (Jo 15, 13). É aí que nos convencemos que somente os gestos sinceros, altruístas, são capazes de decodificar o amor. O Filho de Deus, em toda sua Glória, revela-nos um Deus que só vem ao nosso encontro para amar. Ao se abaixar para lavar os pés dos discípulos, Jesus  apresenta a verdadeira face de Deus e mostra-nos qual o maior sonho divino: que todo homem seja curado, que todo homem seja puro e feliz, que nenhum ser humano viva na sujeira do pecado, que ninguém experimente apenas o amargor do desamor, que todos, homens e mulheres de todos os tempos, possam ser reconfortados e amados como foram os amigos de Jesus. Eles, homens tão simples e limitados, receberam um amor que nunca poderá ser ensinado por palavras, mas somente oferecendo aos outros aquilo que gratuitamente Deus, em seu filho Jesus Cristo fez: amou sem medida. Lavar os pés uns dos outros, sem escolhas, é possível somente para quem vive uma experiência de amor com Deus.

O lava-pés, sacramento do amor

Ao lavar os pés dos seus amigos (Jo 13, 1-20), sacramento do amor, Jesus ajuda-os a ser o que ainda não são, coloca-os em constante conversão. No gesto de amor de lavar os pés dos seus, Jesus faz com que a água vá purificando o coração, tornando-o mais sincero. Jesus não deixa margem para quaisquer tipos de indiferença porque, através deste gesto de amor, é impossível não querer se aproximar daquele que está com dor nos pés, aquele que está com a vida ferida, cansada. Quantas libertações no coração dos discípulos quando, mergulhados no amor do seu Mestre, viveram a experiência de ter os pés lavados (serem cuidados no mais profundo do seu ser) por ele! Quantas curas eles realizaram por saber que é somente lavando os pés do outro é que se restabelece a vida. O ser solidário com as necessidades do outro, romper as muralhas que impedem que se sinta a dor do outro aconteceu quando Jesus lavou os pés de seus amigos. Eles, os discípulos, só puderam amar verdadeiramente em suas comunidades porque sentiram o verdadeiro amor que os amava.

O amor aconteceu em suas vidas sempre de um jeito simples. Para Jesus, servo e Senhor, os discípulos, naquela noite, eram o motivo de seu amor. A partir daquele gesto de amor-doação, os discípulos sentiram o próprio Deus tocando seus pés, mesmo que no momento não entendessem tudo o que estava acontecendo.  Somente com o tempo descobrimos o alcance dos gestos de quem nos ama.

E nós, hoje, temos a certeza de que, ao contemplar o amor jorrado na noite do lava-pés, mesmo em coisas muito pequenas e simples não podemos deixar desconhecer o lava-pés de quem convive conosco. Despertemos em nós a sensibilidade de não ter vergonha de descer de nossos pedestais para lavar os pés de nossos irmãos e irmãs. Celebrar a vida é fazer acontecer aquilo que dá sentido à vida.  Como Jesus “desceu” nós também vamos “descer” para amar e amar sem medida.

E para que possamos amar se faz necessário, como o foi aos discípulos  deixarmo-nos ser amados e, para que essa vontade se torne verdade em nossa vida podemos assim rezar: “Senhor, lava-me os pés, que o meu coração possa te amar sempre, lava-me os pés para que eu seja sempre “teu”, que eu possa ter sempre a humildade de dizer-te: Sim, Senhor, “Lava-me os pés” para que eu seja cada vez mais unido a ti”.

UM GESTO HUMANO DE AMOR – LAVAR OS PÉS DE UMA PESSOA

25 de março de 2010

O que significava lavar os pés entre os Judeus? Muitas são as respostas, mas uma nos chama a: era um sinal de hospitalidade, de receber bem aquele que chega no espaço, em casa. Nada mais prazeroso do que fazê-lo descansar banhando-lhe os pés. Em lugares secos, com caminhos todos empoeirados, dar um banho nos pés é sinal de amor, de cuidado, proteção e acolhida.

No livro de Gênesis (18,4) Abraão pede para trazer água para os três misteriosos visitantes de Mambré para que lavem os pés e descansem do caminho realizado. Também era comum o discípulo lavar os pés do mestre, a esposa do esposo, os filhos lavarem os pés do pai. Jesus viveu a experiência de ser cuidado e descansou seus pés no gesto humilde da mulher pecadora, quando banhou seus pés com lágrimas de amor e os perfumou durante uma refeição (Lc 7, 36-38). É claro que esse gesto era realizado, na maioria das vezes, por empregados que lavavam os pés de seus senhores, mas tal gesto sempre supunha uma humilde submissão por parte de quem, ao abaixar-se, lavava e cuidava dos pés confortando e aliviando o cansaço daquele que chegara.

Cuidar dos pés é sinônimo de cuidado com a própria vida. Pode parecer estranho e podemos nos perguntar:  – nossos pés têm tanto valor assim? Com certeza que sim! Jean-Yves Leloup fala que “de um ponto de vista simbólico, lavar os pés de alguém é devolver-lhe sua capacidade de prazer, é recolocá-lo de pé”. Os pés são símbolos de força. São o suporte que nos mantêm eretos, são nossas raízes, nos ligam ao chão, fazem com que sintamos a terra, os espaços, nós mesmos.

O símbolo de lavar os pés – fortalecer a vida de alguém

No entanto, muitas vezes, são vulneráveis e nos desestabilizam, fazem-nos tremer, nos apresentando um dos maiores medos: o medo de cair; em outras palavras “perder o chão”, isto é, não ter raízes, não ter consciência de onde se está: uma situação onde se está perdido por não saber o chão onde se pisa. Sem pensamos a partir de onde os pés pisam, é sempre necessário lavar estes pés, afinal eles despertam o desejo da mente em saber: por que estou aqui? O que este espaço espera de mim? Quais meus sonhos para este lugar onde meus pés pisam? O que penso a respeito de tudo o que me acontece enquanto meus pés tocarem esse chão?

Nos Contos de Fadas, atender às necessidades dos pés é ganhar todo o amor da Princesa (a Cinderela = se achares a sapatilha certa para o pezinho da princesa ganharás o coração dela!). Na tradição chinesa valoriza-se os pés enfaixados que alteravam o caminhar das mulheres dando-lhes maior delicadeza e beleza, além de compreender o pé como ligação direta com o cérebro e assim são realizadas terapias (a iôga e a purificação dos pés na água salgada = pelos pés escorrem as fadigas e tensões). O pé é também visto como um ponto que leva ao prazer quando massageado e tocado com amor e respeito nos pontos certos. Nos pés estão os pontos que se ligam a cada órgão da pessoa.

É interessante que a palavra pé (pous, podós em grego) está diretamente ligada à palavra paidós, usada para significar criança. Assim, um pedagogo é aquele que cuida dos pés do ser humano, desde que cuidar dos pés de alguém significa cuidar da criança que está neles. Um homem pergunta ao sábio: – “o que posso fazer para ajudar alguém?” e o sábio responde: – “Lembre-se de que esta pessoa foi uma criança, que esta pessoa ainda é uma criança. E que tem dor nos pés”

É interessante saber que o item mais levado em conta quando homens e mulheres vão comprar um calçado é o conforto que ele proporcionará aos pés: 87% das consumidoras e 73% dos consumidores são exigentes ao pensar um calçado para seus pés (pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro – IBTEC). Ninguém quer fazer os pés sofrerem e, assim, ter que suportar dores terríveis. Oferecer “mimos” para os pés não é coisa de criança, é uma arte assumida por quem conserva amor por si próprio.

Aquele que vê seu corpo não meramente como um processo físico-biológico mas como templo e morada do Espírito Santo vai valorizar também seus pés, vendo neles as raízes que tocam o chão,  sustentam e oferecem a força necessária para caminhar rumo àquilo que o próprio Deus nos promete: uma terra onde corre leite e mel, onde nossos pés descansam e nossa vida é vivida em completa alegria.

Cuidar dos pés não deve ser uma obrigação ou imposição, mas um gesto de amor. Só quem ama é capaz de abaixar-se e lavar os pés de outra pessoa: o filho lavando os pés do pai doente, a filha acariciando os pés de sua mãe velhinha são gestos filhos desse amor.

SEGUIR A JESUS, UMA EXPERIÊNCIA DE INTIMIDADE

19 de março de 2010

Seguir a Jesus, ser discípulo missionário, é o centro do estudo da Teologia: conhecer a Jesus é conhecer a Deus. O seguimento de Jesus nos desperta para a compreensão de sua missão e para novidade de seu chamamento.

O Documento de Aparecida afirma:  Jesus convida a nos encontrar com Ele e a que nos vinculemos estreitamente a Ele, porque é a fonte da vida (no. 131). Jesus interrompe o costume judaico ao escolher seus discípulos contrariando os costumes de que os  discípulos é que escolhiam o mestre. O próprio Jesus se compromete com seus escolhidos e faz com que eles se comprometam com o mestre. Jesus é quem vem ao encontro. É o advento divino acontecendo: somos encontrados e chamados pelo próprio Cristo. Ele, que nos ama, nos chama e nós que o queremos amar, respondendo convictos da missão de testemunhar e anunciar o Reino de Deus, respondemos: Estamos aqui, Senhor.

A resposta convicta, quando a poderemos oferecer? Somente uma experiência de profunda intimidade, presença e acolhida é  capaz de fazer brotar o compromisso no seguimento, no serviço e no anúncio.

O núcleo central do seguimento é o Cristo ressuscitado. A experiência do Cristo vivo, presente, que vem ao nosso encontro é a fonte de todo o discipulado. Tal encontro gera a disposição sincera, forte e vivificante que faz despertar no homem uma inquietude interior. É impossível ficar indiferente quando o próprio Cristo toca-nos o coração. Com o convite feito, convite este gravado no coração e aceito conscientemente, é hora de seguir, pôr a caminho, ousando viver os passos de nosso Mestre nos tempos de hoje.

“Segue-me” de Jesus, que tanto desconcertou e despertou a inquietude de seus discípulos no Novo Testamento é o mesmo “Segue-me” que continua a desafiar e a inquietar aqueles que se põem a viver segundo Cristo, e em Cristo.

O discípulo que faz de Cristo sua norma de vida é desafiado a colocar em suas experiências vitais a mensagem de Jesus. Isso pode acontecer de duas maneiras: – o seguimento de tipo formal, imitação; – o seguimento de tipo real, assumido vitalmente.

O seguimento de  tipo formal se restringe a imitar o Mestre. Reduz o Evangelho a preceitos e conselhos de comportamento, desligado da história. É um seguimento considerado não histórico, pois se caracteriza como um seguimento intimista, individual, pouco comprometido com as relações interpessoais e sociais; é uma cópia, um caminhar desatualizado, sem possibilidade de renovar, iluminar, tudo fica na mesma, é o tipo de seguimento que aos poucos vai ficando sem graça, pois onde não existe criatividade também não haverá vidas que queiram se relacionar.

Já o seguimento de tipo real abraça verdadeiramente a pessoa e o estilo de vida de Jesus, assumindo como seu o caminho histórico de Jesus. É ser criativo, saber renovar, oferecer luz e vida, ser fonte de esperança, ser sinal do Reino de Deus acontecendo no mundo, ser discípulo missionário com identidade própria. Não é ser cópia de Cristo, mas é atualizar Cristo em nosso tempo, em nossa história.

Para seguir Jesus não basta imitá-lo: é necessário comprometer-se a viver como Jesus viveu, inspirar no coração o impulso de amor por toda pessoa humana, criando unidade de pensamento, conforto para o espírito e integridade pessoal como Jesus fez.

Ser discípulo de Jesus é ser como Jesus

A docilidade deve ser a marca dos que seguem Jesus Cristo, característica inerente do discípulo, sempre conectada à misericórdia, à justiça e ao serviço.

O encontro íntimo e pessoal com Jesus leva o discípulo ao compromisso com a história. É chamado a dar testemunho da mensagem de Jesus, de seu estilo de vida e de sua prática libertadora para a superação dos obstáculos que inevitavelmente surgem na vida do seguidor de Jesus e do ser humano.

O Documento de Aparecida declara que o seguimento de Jesus Cristo deve partir do Cristo real (não fruto de nossas fantasias), a partir da contemplação de quem nos revelou em seu mistério a plenitude do cumprimento da vocação humana e de seu sentido: “Necessitamos fazer-nos discípulos dóceis para aprender com ELE, em seu seguimento, a dignidade e a plenitude da vida (no. 41). O seguidor de Jesus não foge do humano, pois ele realiza sua experiência de fé no mundo, a exemplo de Cristo: encarnado na história, para transformar o mundo e não para repetir ou imitar modelos.

O seguimento de Jesus, portanto, não pode ser reduzido à imitação de outras épocas. É o desafio grandioso de encarnar o sentido dos atos, palavras e gestos dele no contexto novo da vida e da situação atual: uma fidelidade criativa e criadora.

Todos somos chamados pelo próprio Cristo. Ser chamado exige uma resposta autêntica, resposta que nasce no coração e ganha forma na consciência de ser cristão. Mas é necessário saber que a resposta e o se pôr a caminho exigirá uma criatividade operante. Clarice Lispector belamente escreve: Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir”. Ter consciência do chamado é o primeiro passo, mas os outros passos no seguimento de Jesus devem ser repletos de talentos: para seguir Jesus não podemos ser conservadores. Precisamos sempre mudar para nos tornar, cada vez mais, atualizadores do amor de Deus revelado em seu Filho Jesus Cristo. Ser discípulo missionário de Cristo é ser um “artista” que, desenvolvendo os talentos que Deus lhe deu, faz o Reino de Deus ser sua obra prima neste mundo.

Seguir a Jesus é uma resposta livre do amor nascido da fé naquele que inaugura um novo modo de vida: plena, justa, fraterna e feliz.

AMIGO, VOLTEI

14 de março de 2010

A volta do Filho pródigo - Michel Ciry

Meu coração por vezes se recolhe:
Te digo, amigo, está machucado.
Tantas dores, angústias, conflitos
Me fazem cair por terra: aflito.

Mas a vida nos ensina:
sozinho não se consegue viver.
Por isso me pus a caminho, amigo, vim lhe ver
Para amar e viver junto de você.

Amigo, a saudade me fez voltar.
Com você sei que posso recomeçar.
Me envolve um céu de amor,
Amigo de Deus, meu sentido para viver.

ESCUTAR É PERMITIR AO OUTRO INGRESSAR EM NOSSA VIDA

12 de março de 2010

Conversação - Gauguin - 1891

Silenciar para escutar, escutar para poder amar

Nada mais gostoso do que a brisa num entardecer de verão, as vozes de animais, as cores perfeitas do poente, o perfume das florações, o sabor daquilo que é posto à mesa. Tudo nos faz bem e enche-nos de sentido. A vida ganha espaço.

No entanto, há de se reconhecer que nossa cultura nos bombardeia e estimula além da medida. Em vez de repouso, somos agitados e provocados a um prazer agressivo, sem alegria e felicidade. Parece que gostar de sossego é excentricidade: ficar sossegado é muito perigoso, pode parecer doença.

Tanto conhecimento produzido e ainda não nos demos conta, enquanto sociedade e como pessoas detentoras de saber, de que o prazer dos sentidos só existe na justa medida. No cotidiano de nossa vida pessoal e social, temos as experiências que nos provam esta verdade: se come e se bebe em excesso, o perfume é muito forte, o ruído ultrapassa a quota dos decibéis, o tocar se extrema, aí então, o prazer transforma-se em desprazer, a delícia em desgosto. Nada se aproveita, tudo se liquefaz.

Uma das janelas da alma é o escutar. Escutar é diferente de ouvir. Neste momento estou ouvindo muitos e diferentes barulhos, mas não estou escutando nada. O ouvir está ligado diretamente ao sentido da audição. Entender, perceber pelo sentido do ouvido, faz parte de nosso instinto da sobrevivência, das ferramentas que nos possibilitam continuar vivos.

Escutar, por sua vez, significa prestar atenção para ouvir; dar atenção a; ouvir, sentir, perceber…” ou ainda: “tornar-se ou estar atento”. Temos aí, diferentemente de ouvir, um escutar que nos aproxima e nos completa, nos garante a vida, nos faz diferentes, pois escutar é transformador. Se é verdade que a vida tem sentido na emoção de amar alguém, então é bem verdade que ao escutar uma pessoa, ou ter a experiência de ser escutado, fazemos a vital experiência de ser amado e de amar.

A mãe quando escuta o filho com seus conflitos está oportunizando crescimento através desse gesto amoroso; o médico, ao escutar o paciente que, sem pressa e sem conceitos de medicina, apresenta seu jeito de se diagnosticar, já está possibilitando o início do processo de cura; o amigo que atenciosamente escuta, sem nenhuma necessidade de oferecer resposta pronta, apenas escuta porque ama, sabe ser um porto seguro para as tempestades internas do seu querido amigo; o religioso que, humildemente, oferece, de forma paciente, seu “escutar” àquele que já está sem esperança, recupera vidas. E assim, tantos outros “escutadores de almas e corações” que salvam, libertam e curam, muitas vezes sem saber que fazem tudo isso apenas por possuírem a arte de escutar bem. Saber escutar alguém é obra de Deus. Quem sabe, nos dias atuais, precisamos mais de “escutátoria” do que oratória.

Silenciar para escutar, escutar para o outro sentir-se amado

Escutar, antes de tudo, é uma maneira de deixar o outro crescer: no momento em que é escutado, sente-se acolhido e amado. E, que mais uma pessoa deseja além de ser acolhido e amado por alguém? Parafraseando Rubem Alves, “é preciso saber escutar… deixar o outro entrar dentro da gente”. A maravilha de acolher o outro em sua totalidade: existe forma mais verdadeira de amar? A medida de amor que oferecemos pode ser expressa no tempo que guardamos aquilo que nos foi confiado, segredado ao pé do ouvido: amo você na medida em que permito que faça morada em meu coração. Escutar é garantir abrigo a quem, por não receber atenção e amor, perambula ao relento.

Escutar é um exercício que ensina amar, escutar o silêncio de quem se aproxima; escutar o seu estar presente e as dores que o fazem ausentar-se da beleza da vida; também escutar o seu calar, revelador de sua alma. Escutar não se reduz a identificar palavras e compreender histórias: é também decifrar os silêncios de uma presença que reclama maior atenção de nossa parte. Escutar as vozes emudecidas que, sem força, ousam ecoar pedindo ajuda para continuar a viver com dignidade.

Escutar é devolver a luz para aqueles que estão mergulhados nos ruídos que, aos poucos, vão escurecendo seus sonhos. Escutar é cuidar de um coração, de uma vida, garantir que a história poderá ter continuidade. Escutar é deixar que o outro também exista.

Façamos o exercício de silenciar dentro de nós para escutar com amor. Lya Luft soube pedir: “me dêem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito além das palavras e todos os textos e da música de todos os sentimentos”. Se assim for, começaremos a escutar coisas que não ouvíamos. Cessando os ruídos, ouviremos o que é realmente belo.  No escutar o outro, garantimos que a beleza mora nele. E poderemos saborear a comunhão com que sonhamos, que existe somente quando a beleza do outro e a beleza da gente se liga, ou melhor, se deixa escutar.

Quem sabe, descobriremos que Deus é a beleza que se escuta no silêncio.


%d blogueiros gostam disto: