MÃOS QUE COMUNICAM A VIDA

Mão criadora de de Deus - Miguelângelo (detalhe)

Tony Melendez, natural da Nicarágua, cantor e guitarrista que encanta o mundo pelo fato de não ter os braços e, mesmo assim, com muita força de vontade e determinação, superou todos os seus limites para construir uma vida digna, sem o conformismo de sua deficiência. Foi inclusive abençoado pelo Papa João Paulo II, que assistiu à sua apresentação. Quando, na realização de um vídeo sobre sua vida, ao ser questionado sobre o que seria um milagre, assim respondeu: “Para mim, quando alguém levanta suas mãos, isto é um milagre”.

O fato de não ter as mãos não o impediu de dar um sentido sagrado a um dos órgãos mais especiais de nosso corpo. O milagre das mãos levantadas expressado por Melendez não é magia, ele tem endereço: seu ponto de partida e de chegada pode ser confirmado na língua hebraica, uma das mais antigas do mundo, também conhecida como a Lashon haKodesh (a Língua sagrada). Em hebraico, a mão é simbolizada pela letra Y (Yod), que é encontrada no tetragrama YHVH – JAVÉ, o nome divino. A palavra mão está ligada ao conhecimento pleno, divino. Tocar a mão, apertar a mão é se apresentar, é firmar um conhecimento, é dar inicio a uma confluência de histórias e significados.

As mãos tornam-se, assim, a extensão da poesia de Deus em nosso corpo. Foi com suas mãos que fomos tocados pela primeira vez. As mãos vão além do simples entendimento que diz serem elas “mais uma ferramenta que eu tenho para explorar o mundo”. Nossas mãos se sacralizam toda vez que com elas podemos tocar e, logo, sentir; sentir para, verdadeiramente, amar; amar e ir além do que as próprias mãos podem sentir, isto é, transcender as realidades tangíveis. É Pablo Neruda que, poeticamente inspirado, dá formas angelicais às mãos e faz com que elas estejam para:

“além do tempo, acima de toda matéria.

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera;
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de Pomba dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo
”.

É com suas mãos que Deus, no seu infinito amor e bondade resolveu, antes mesmo de embelezar o Jardim do Éden e ver a cor suave do trigo, brincar com argila. Como uma criança que faz de um pouquinho de barro um mundo à sua frente, assim fez Deus e criou-nos à sua imagem e semelhança. Somos o resultado de suas mãos amorosas. Somos a arte amada do Artista que tanto nos ama e nos quer somente vivendo felizes. Mãos que nos modelaram, mãos que nos trouxeram à vida. As mãos divinas nos humanizaram, e agora cabe a nós, com nossas mãos humanas, nos divinizar. E neste processo de adentrar na esfera divina não vamos com nossa própria força e vontade: é o próprio Deus que vai junto alimentando esse desejo de nos encontrar com o “primeiro Amor”, e do seu lado não sair mais.

É com inspiração divina que Santo Irineu afirma que “a obra de Deus consiste em modelar o homem”. Há uma certeza irrenunciável em nosso processo de “feitura”: jamais estaremos sós. Há mãos divinas entrelaçadas com nossas mãos humanas.

Mãos que trazem vida, mãos que trazem morte

O Criador bem sabe que existem mãos que procuram nos afastar da arte do viver, e o salmista tão verdadeiramente cantou que “Deus, porém, me salvará das mãos da morte e junto a si me tomará em suas mãos” (Sl 49,16). Quando a lógica do amor ganha espaço é certo que saberemos nos aproximar de mãos que nos salvam, mãos que têm o poder de nos devolver a capacidade de amar a si próprio, mãos que nos amam. Amor que não tem preço. Ama, simplesmente, porque ama.

Se pelas mãos de Deus fomos modelados, somos amados e tão bem cuidados, porque não oferecer tal poder às nossas mãos? Para sermos expressão de Deus através de nossas mãos precisamos, verdadeiramente, “ser de Deus”. Entrelaçar nossas mãos humanas com as mãos divinas. Relação de amor. E se assim for feito, poderemos prolongar o amor através de nossas mãos. Elas podem ser a expressão máxima de amor de quem é amado e que, conseqüentemente, tem fome de amar. Mãos que salvam, que têm o poder de redescobrir a beleza da vida.

É claro que não se pode ser ingênuo. É preciso discernir os “tipos” de mãos que de nós se aproximam.  Com elas podemos ser salvos, ou também, ser traídos. Jesus Cristo passou por semelhante situação. É diante do mar tenebroso e repleto de mistérios que Jesus oferece sua mão para salvar Pedro dos medos que apavoravam sua vida e por alguns momentos o mesmo Pedro  sentiu que sua fé no Senhor ainda era pouca (Mt 14,31).

Há mãos que traem, e Jesus delas também teve experiência: “A mão do que me trai está comigo, sobre a mesa” (Lc 22,21). Duas mãos. Duas realidades, dois jeitos de encarar a vida. Uma próxima de Deus, mãos sagradas que salvam, operam verdadeiro milagre. Outra, mãos afastadas das realidades sagradas, até mesmo o melhor amigo, vivendo apenas da lógica humana, mãos interesseiras, insensíveis, mãos que conduzem à morte. Em todos os tempos, em diferentes lugares haverá mãos que nos devolvem a vida e, infelizmente, haverá mãos que nos roubam o grande presente modelado pelo próprio Deus.

No entanto, antes de querer sentir as mãos que, a nós, chegam, quem sabe podemos olhar de um jeito certo para as mãos que costumamos ofertar. Quem sabe, poderíamos olhar agora para nossas mãos e delas extrair quais suas reais intenções diante do outro, diante da criação? Sentimo-nos portadores de mãos sagradas que salvam ou mãos traiçoeiras que condenam à morte? O que elas realizam hoje, o que elas querem realizar a partir de hoje?

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