TOMÉ – NAS CHAGAS DE JESUS O SINAL DA RESSURREIÇÃO

Jesus revela sua chaga a Tomé - Duda Garcz - Via Sacra de Jasna Gora

Não se perturbe o vosso coração (Jo 14,1), era a certeza que Jesus queria plantar no terreno fértil do coração de seus apóstolos. Era total sua dedicação a eles, ensinando-os através do amor que se estendia em gestos concretos e visíveis (Jo 11,7-16). Mas os pensamentos e os caminhos do Senhor não são os mesmos que os nossos (Jr 58,8-11). O olhar de Deus é diferente de nosso olhar. Deus não necessita ver a obra pronta para nela crer: acredita, aposta seu amor. É o que acontece nos sonhos que Deus tem para cada um de nós. Ainda não tem o resultado de nossa história, mas acredita que, por mais que os desafios sejam ameaçadores, nosso destino é a felicidade, a vida plena, e nos acompanha nesta caminhada cujo início e desfecho são a vida eterna. Nós, ao contrário, temos a pressa de resultados, não exercitamos a arte da espera, do tempo certo. O amanha é tarde demais, tudo queremos hoje, agora.

Enquanto Deus, revelando seu mistério maior, cria um jardim para brincar e se alegrar com o ser humano, modelado por ele à sua imagem e semelhança, “abaixando-se” para amar, nós vamos construindo Torres de Babel, edifícios que representam o desejo avassalador de conquistar tudo, inclusive absorver o mistério, apresentando nosso desejo, não de amar, mas confundir, egoisticamente dominar, explorar o que existe.

Jesus de Nazaré, rezado na Ladainha como “desejado das colinas eternas”, o grande desejo de Deus, nas palavras de Rubem Alves “o maior sonho de Deus transformado em corpo, sua confissão de amor entre nós, como irmão”, assume o caminho para o calvário provando sua fidelidade a Deus, provando seus sonhos para toda a criação a ser redimida pelo sangue que banhou todas as coisas, e assim, as faz todas novas.

Para os amigos de Jesus, porém, os apóstolos, à primeira vista o que ocorreu foi o fracasso total de seu projeto e sonhos. Tanto é verdade que ficaram escondidos (Jo 20,19). Mas o Senhor não os decepcionou. Aparecendo onde estavam, primeiramente lhes deseja a paz (Jo 20,19). Quer que seus corações não mais se perturbem, pois o Senhor ressuscitou. O Deus da vida se apresenta para amar eternamente os seus. E ainda, “ressuscitará a todos nós, pelo seu poder” (1Cor 6,14).

Aquele que crê, vê mais

O apóstolo Tomé viu e acreditou; feliz de quem crê sem ver (Jo 20,29). Duvidar diante do mistério não é pecado. Pelo contrário, faz com que a fé amadureça. A dúvida, quando vivida de forma justa e sincera, nos faz crescer. No entanto, quando ela é posta simplesmente para provar nossas especulações acerca de uma realidade ainda não experimentada, torna-se um mal: depois de conhecida a realidade, nada mais se acrescentará ao que conheceu.

Tomé, em suas limitações, tinha dificuldade de compreender o que Jesus, em sua missão, apresentava. Não conseguia assimilar o caminho assumido pelo Mestre (Jo 14,5). Quantas vezes, também nós ficamos confusos quando somos apresentados aos caminhos que, através do exemplo de Cristo, somos convidados a caminhar? O apóstolo Tomé, por vezes reconhecido só como aquele que não crê sem ver, é o primeiro a se apresentar e convocar seus amigos para seguir Jesus rumo a Betânia, lugar próximo a perigosa cidade de Jerusalém, onde aconteceria a ressurreição de Lázaro (Jo 11,16). Não se percebe medo ou desejo de fuga da parte do apóstolo. Pelo contrário, quer assumir a causa de Cristo, o Reino de Deus. Totalmente humano e provido de limitações como o cansaço, a incerteza e também, o medo, a qualquer momento pode deixar-se abater, duvidar. Já pensou quantas vezes nós somos assim: um dia prontos para nos entregar até a morte se preciso for e no outro, quanto mais distante do caminho do calvário, melhor?

O interessante é que, nas incertezas de Tomé, Jesus revela a certeza de Deus para com a humanidade e toda a criação. Quando Tomé não sabia para onde ir, Jesus se apresenta como Caminho, Verdade e Vida (Jo 14,6). Foi primeiro a Tomé que Cristo fez essa revelação, decisiva para nós e para todos os tempos. Fala Bento XVI que “cada vez que ouvimos ou lemos essas palavras, podemos colocar-nos ao lado de Tomé em pensamento e imaginar que o Senhor diz também a nós o que disse a ele”.

Tomé, ouvindo o relato dos amigos, não acreditou que Cristo realmente tivesse ressuscitado (Jo 11,25): para ele era necessário ver, nas mãos de Cristo, o lugar dos cravos. Muito mais que a face, precisava tocar nas chagas para crer. Oito dias depois Jesus reaparece e, desta vez, Tomé está reunido com a comunidade. Jesus lhe diz: “Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos. Estende tua mão e põe-na no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crê” (Jo 20,27). E Tomé reage com a mais esplêndida profissão de fé de todo o Novo Testamento: “Meu Senhor, e Meu Deus!” (Jo 20,28).

Nas últimas palavras desta passagem, diz o Senhor: “felizes os que não viram e creram” (Jo 20,29). Com essas palavras Cristo enuncia um princípio fundamental para os cristãos que viriam depois de Tomé, para nós, portanto. Hoje podemos dizer: felizes os que não vêem e, no entanto, crêem.

O testemunho de Tomé nos desperta para vivermos a fé de maneira mais autêntica. Fé que não é uma forma fraca de crença ou conhecimento, não é a fé nisso ou naquilo, mas sim, convicção sobre o que não foi demonstrado materialmente diante dos olhos do corpo, mas que os olhos da alma tantas vezes já viram, sentiram e tocaram. Fé como conhecimento da possibilidade real. Quem crê sem ver, vê mais. Uma fé não naquilo que é cientificamente previsível, nem tampouco naquilo que é impossível, mas sim, fé que se baseia em nossa experiência de vida, do amor divino já vivido em nossa história e que nos transformou. A visão de tantos que se transformaram é sinal de que eu também posso mudar. Tomé, vendo as chagas de Cristo se transformou mas nós, sem o contato sensível das chagas, nelas cremos e também exclamamos: Meu Senhor e meu Deus!

Com Tomé, que viu e creu, nós somos confortados em nossa insegurança ao tantas vezes ficarmos abatidos diante do mistério de amor de nosso Deus e de sua presença atuante na história. Também, com Tomé, percebemos que a dúvida pode nos levar a um encontro, num caminho mais luminoso do que a incerteza. E somos lembrados, pelas palavras que Jesus dirigiu a Tomé, do verdadeiro significado da fé madura que nos encoraja a perseverar, apesar das dificuldades, em nossa jornada de adesão a ele. Aquele que crê, vê mais! Em nossas dúvidas diante do mistério tenhamos a humildade de dizer, com toda a fé: “Não te compreendo, Senhor, escuta-me, ajuda-me a compreender!”

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Uma resposta to “TOMÉ – NAS CHAGAS DE JESUS O SINAL DA RESSURREIÇÃO”

  1. EDSON Says:

    AO ESCRITOR PARABENS PELA LUCIDEZ E DIDATICA DO TEXTO, ACRESCENTOU INFORMAÇÕES AO MEU SERMAO, A PAZ DO SENHOR JESUS RESSUSCITADO.

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